Soberania em xeque: os graves riscos da privatização da Eletrobras

Entre promessas de campanha não cumpridas e a precarização do setor elétrico, especialistas apontam que o controle estatal é vital para a reindustrialização do Brasil e para a segurança energética da população

A Eletrobras não é apenas uma empresa; é um ativo estratégico indispensável para o desenvolvimento nacional. No entanto, o cenário atual revela um setor elétrico frequentemente utilizado como “moeda de troca” política, afastando-se de sua missão original de promover o ganho social.

O tema foi pauta de debate no programa Hora do Trabalhador, no canal Farol Brasil (YouTube). No último dia 03 de fevereiro, a apresentadora Ana Paula Almada recebeu Felipe Araújo, diretor de Negociações Coletivas do Senge-RJ, Antônio Silveira e Darlan Oliveira, respectivamente presidente e vice-presidente do SENERGISUL.

Na entrevista, as lideranças sindicais apresentaram um quadro dramático que começou com a entrega do sistema elétrico nacional a preço inexplicavelmente baixo, e já resulta em desabastecimento, tarifas elevadas e riscos iminentes para a população e trabalhadores.

Para Felipe Araújo, integrante do Coletivo Nacional dos Eletricitários (CNE), a entrega da Eletrobras compromete a capacidade do Estado de planejar o futuro. Com 80% das estruturas de transformação sistemicamente importantes sob seu guarda-chuva, a empresa detém o poder de ditar o ritmo da economia.

“O governo fala tanto de reindustrialização, mas como reindustrializar sem o controle da energia que essas indústrias precisarão para produzir? É um instrumento de desenvolvimento soberano ou de subjugação colonial”, afirma Felipe.

Ele destaca ainda que o texto de defesa do setor elétrico na campanha presidencial de 2022 foi construído pelos próprios trabalhadores, mas que a promessa de retomada do controle segue travada por falta de vontade política em enfrentar interesses do Congresso.

O rastro da precarização e o “apagão” de mão de obra

A experiência da privatização no Sul do país serve como um alerta severo. Darlan Oliveira recorda que, após a venda de ativos como a CEEE, o cenário foi de demissões em massa e perda de conhecimento técnico acumulado. O caso da Equatorial é emblemático: a substituição de quadros qualificados por uma rede de terceirização, quarteirização e “quinterização” resultou em serviços deficientes.

“Chegamos a passar, no interior, 15 dias sem energia elétrica. A Equatorial demitiu 4 mil funcionários da CEEE e fez contratações que colocam vidas em risco. Essas mortes não entram na estatística da empresa principal, mas das terceirizadas”, denuncia Darlan.

Antônio Silveira corrobora a gravidade da situação, apontando que, embora o número total de trabalhadores (majoritariamente terceirizados) tenha aumentado, a qualidade caiu drasticamente devido ao treinamento insuficiente. “Em um setor que não permite erros, o eletricista faz um curso de duas semanas e vai para a rede. Se errar, ou vem a óbito ou fica com sequelas graves”, pontua.

O truque da tarifa e o custo para o consumidor

Uma das maiores preocupações reside no custo final para o cidadão. Felipe explica que a narrativa de que a privatização reduz a conta de luz é sustentada por mecanismos contábeis temporários que mascaram o aumento real.

“O dinheiro que o privado paga vai para uma conta para reduzir a luz temporariamente, para que a população não sinta o impacto imediato. Esse repasse diminui ao longo de cinco anos para não gerar nexo causal entre a privatização e o aumento da conta”, explica Felipe.

Com as usinas hidrelétricas já amortizadas (pagas pelo povo brasileiro), a energia deveria ficar mais barata. Contudo, sob controle privado, o foco deixa de ser o atendimento e passa a ser a margem de lucro no mercado livre.

Reestatização: Uma questão de decisão política

Os debatedores foram unânimes no caminho para a resolução dos problemas: a reversão do processo de privatização é tecnicamente viável, mas depende de coragem política.

Eles criticam a atual gestão da ENBPar, empresa pública criada para viabilizar a privatização da Eletrobras, abrigando as empresas que não podiam ser vendidas: Itaipú Binacional, INB e Eletronuclear, hoje utilizada como “cabide de emprego” para indicações políticas do Centrão em vez de absorver os técnicos qualificados da Eletrobras.

Antônio alerta ainda para o “apagão de engenharia” no Brasil, comparando com a formação massiva de profissionais na China. Para ele, o país precisa de um modelo híbrido e estatal que priorize o planejamento de longo prazo.

A mensagem final é um chamado à ética profissional e ao papel da engenharia no bem-estar social:

“Parâmetro de projeto de engenharia tem que ter ganho social. Se não tiver, tem que ser rejeitado. Não dá para ser só parâmetro econômico”, conclui Felipe.

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