Não é apagão de engenheiros(as): é apagão de condições para fazer engenharia no Brasil

"A Universidade pode e deve aprimorar permanência, formação e articulação com a sociedade. Mas sem uma estratégia nacional que reanime a base produtiva, valorize o trabalho de engenharia e sustente projetos de longo prazo, o “apagão” continuará sendo um rótulo recorrente"

Na fila do bandejão, em uma conversa rápida de fim de aula, uma estudante de engenharia descreveu a dúvida que tem rondado as(os) colegas: “Eu gosto do curso, mas não sei se vou trabalhar como engenheira. Todo mundo diz que, no fim, o melhor é atuar no mercado financeiro”. A frase não é um dado estatístico, mas ajuda a enxergar o núcleo do problema. O Brasil pode até formar profissionais altamente qualificados(as), mas não tem assegurado, com a mesma consistência, as condições para que a engenharia se sustente como escolha de carreira e como projeto de desenvolvimento.

Volta e meia reaparece, nos jornais e nas redes, a ideia de que o País vive um “apagão de engenheiros(as)”. A expressão é forte, chama a atenção e, justamente por isso, costuma empurrar o debate para soluções rápidas: “abrir mais vagas”, “formar mais”, “flexibilizar tudo”. O problema é que, quando o diagnóstico é apressado, a remediação quase sempre erra o alvo. O que está em jogo não é apenas quantidade: é um descompasso estrutural entre formação qualificada, valorização profissional e capacidade do País de empregar, reter e mobilizar engenheiras(os) em projetos produtivos.

A pergunta, então, precisa mudar de patamar: há falta de engenheiras(os) ou falta de condições para que a engenharia se sustente como carreira atrativa e socialmente estratégica?

O pano de fundo é conhecido e raramente enfrentado com a devida franqueza: a redução do peso da indústria no Produto Interno Bruto, associada à perda de dinamismo do investimento produtivo. Em economias onde a indústria tem participação expressiva, a densidade de engenheiras(os) também é maior; onde a indústria encolhe, a demanda por perfis de engenharia tende a se retrair ou a se deslocar para nichos muito específicos. O Brasil, nesse sentido, não pode tratar “apagão” como se fosse uma falha exclusiva das universidades.

Isso nos leva ao segundo ponto: retenção (manutenção de vínculo). É sabido que muitos(as) profissionais formados(as) migram para o comércio e, sobretudo, para o setor financeiro, em busca de melhores condições de trabalho, salários e reconhecimento. No Minicenso 2024 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), 82% das(os) respondentes consideram as condições de trabalho e os salários pouco atrativos. Se a carreira perde atratividade, não basta produzir mais diplomas. Uma parcela relevante de quem conclui não permanece na engenharia, o que não significa “falha individual”, mas sinal de que a baixa de oportunidades empurra os talentos para outros setores.

O terceiro ponto costuma ser tratado com simplificações: evasão. É comum atribuí-la a “base fraca”, “currículo rígido” ou “falta de interdisciplinaridade”. Essa explicação, sozinha, é insuficiente. A evasão também se relaciona a expectativas de empregabilidade e retorno econômico; há mobilidade acadêmica interna (transferências entre cursos de engenharia) e há, ainda, uma evasão tardia, quando a(o) estudante concluiu ou está prestes a concluir e se desloca para consultorias e setor financeiro. Em outras palavras: o percurso formativo dialoga o tempo todo com o horizonte de futuro que o país oferece.

Nesse contexto, vale olhar com cuidado para oferta e procura. Entre 2018 e 2024, as vagas das universidades públicas em engenharia cresceram, enquanto o setor privado reduziu fortemente a oferta presencial. Não se trata, portanto, de um sistema público “enxugando formação”. A retração aparece onde o mercado responde mais rapidamente à conjuntura econômica. E isso ajuda a compreender por que a procura diminui: a queda de demanda não nasce em um suposto desinteresse “geracional” pela engenharia, mas acompanha a redução de investimentos e a perda de protagonismo da indústria.

A própria USP, como termômetro, registra queda na relação candidato/vaga em determinados cursos entre 2014 e 2022, com alguma recuperação recente. Trata-se de um comportamento coerente com um país que alterna ciclos de investimento em infraestrutura e produção e, ao mesmo tempo, convive com instabilidade que desorganiza expectativas de carreira.

Se o diagnóstico muda, a agenda de respostas também precisa mudar. É por isso que o Consórcio das Engenharias da USP, em alinhamento aos Objetivos Estratégicos da Pró-Reitoria de Graduação, concebeu e colocou em marcha um plano em três horizontes (curto, médio e longo prazo). Ele ganha força quando lido como estratégia integrada, e não como lista.

No curto prazo, a prioridade é permanência e sucesso acadêmico: tutoria, apoio pedagógico em disciplinas iniciais (especialmente em matemática), monitoramento de risco e intervenções precoces, com uso responsável de inteligência artificial como suporte ao acompanhamento e ao trabalho docente. Isso não substitui docentes; ao contrário, amplia a capacidade institucional de detectar gargalos, oferecer caminhos e reduzir a reprovação que, tantas vezes, vira desistência.

No mesmo horizonte, faz diferença aproximar estudantes e setor produtivo, não como propaganda, mas como leitura realista das transformações tecnológicas, dos campos emergentes e dos perfis profissionais demandados. Workshops, parcerias e experiências formativas conectadas a problemas concretos ajudam a reconstruir sentido, pertencimento e perspectiva de futuro.

No médio prazo, a ênfase recai sobre a ampliação do uso de metodologias ativas de ensino-aprendizagem e de disciplinas eletivas transversais, integração com empresas e outras instituições de ensino superior, além de ações articuladas com as redes públicas de educação básica. Aqui, a palavra-chave é qualidade com abertura: rigor técnico combinado a percursos mais flexíveis, que permitam às(aos) estudantes compor trajetórias coerentes com áreas como energia, infraestrutura, mobilidade, manufatura avançada e tecnologias digitais.

No longo prazo, é preciso reconhecer: nenhum esforço de formação se sustenta sem um pacto de desenvolvimento. Daí a importância de uma aliança entre USP, Unesp e Unicamp em engenharia mediada pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação; o fortalecimento das ações com a Secretaria da Educação e, sobretudo, a institucionalização da chamada “hélice quíntupla” (sociedade civil, governo, universidade, indústria e meio ambiente), com iniciativas como formação dual e financiamento compartilhado.

Não se trata de “entregar” a universidade; trata-se de construir um ecossistema em que formação excelente encontre demanda consistente, com carreira valorizada e projetos nacionais de médio e longo prazo.

Há um ponto adicional que merece ser explicitado: a USP não parte do zero. Diversas ações já foram implementadas, desde auxílio permanência e mecanismos de identificação de risco acadêmico até programas de monitorias e iniciativas de desenvolvimento profissional docente; além de convênios, duplo diploma, modernização de infraestrutura para o ensino e avanço da curricularização da extensão, com interfaces no ensino médio. Isso importa porque desloca o debate do “o que deveria ser feito” para “o que está sendo feito, como aprimorar e como avaliar resultados”.

E avaliar, aqui, é decisivo. É preciso ser honesto com os critérios: menos slogans, mais indicadores. Se o problema envolve retenção e atratividade, faz sentido acompanhar taxas de evasão e reprovação, tempo de conclusão, relação candidato/vaga, inserção profissional em engenharia e migração para outros setores. O debate sobre “apagão” ganha qualidade quando substitui impressões por séries históricas e comparações coerentes com a estrutura produtiva do País.

Em síntese, o Brasil não precisa apenas “de mais engenheiras(os)”. Precisa de um ambiente em que a engenharia seja uma escolha racional e desejável: com carreira valorizada, demanda consistente, indústria e infraestrutura com rumo e investimento, e universidades capazes de combinar rigor, permanência estudantil, inovação pedagógica e conexão responsável com os desafios do desenvolvimento.

Se quisermos que aquela conversa no bandejão termine de outro jeito, com estudantes dizendo “vou ficar na engenharia porque vale a pena”, o País precisa fazer sua parte. A Universidade pode e deve aprimorar permanência, formação e articulação com a sociedade. Mas sem uma estratégia nacional que reanime a base produtiva, valorize o trabalho de engenharia e sustente projetos de longo prazo, o “apagão” continuará sendo um rótulo recorrente para encobrir o essencial: não falta capacidade de formar; faltam condições para realizar, aqui, a engenharia de que o Brasil necessita.

 

* Fernando Kurokawa, professor da Escola Politécnica da USP, Herlandí Andrade, professor da Escola de Engenharia de Lorena da USP, Luciana Montanari, professora da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, Wanessa Melchert Mattos, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, e Marcos Neira, pró-reitor pro tempore de Graduação da USP

Fonte: Jornal da USP

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