A Argentina atravessa um dos períodos mais conturbados de sua história democrática recente sob a gestão de Javier Milei. Eleito com a promessa de destruir “a casta”, o governo tem implementado um ajuste fiscal severo que, embora tenha reduzido a inflação nominal, resultou em uma perda drástica do poder aquisitivo da população. Entrevistada pela jornalista Beth Costa, no Soberania em Debate de 26/02, a jornalista Lídia Fagali aponta que essa mudança não ocorreu no vácuo, mas foi fruto de uma desilusão profunda com o bipartidismo tradicional e a incapacidade de governos anteriores em resolver problemas estruturais.
O fenômeno Milei é alimentado por uma “ressignificação da liberdade”, especialmente entre os jovens. Esse grupo, afetado pela falta de perspectivas laborais e pelo rigor do confinamento durante a pandemia, passou a priorizar desejos individuais em detrimento de direitos coletivos. A retórica de Milei, marcada por um estilo agressivo e direto nas redes sociais, encontrou eco em uma sociedade que vê o Estado não como um provedor, mas como um obstáculo ao desenvolvimento pessoal.
“Ali começa um processo de ressignificação de conceitos como liberdade e Estado. O discurso do progressismo não resolvia na prática as aspirações de alugar um imóvel, de trabalhar ou de ser independente economicamente.”, aponta Fagali.
Nesse cenário, a Argentina se torna um campo de experimentação para o que Fagali descreve como anarcocapitalismo ou neofascismo. O apoio de setores conservadores e a influência do governo dos Estados Unidos — especialmente no contexto de um possível retorno de Donald Trump — reforçam uma agenda de desmonte das estruturas públicas. O objetivo parece ser a transformação do país em um território estratégico para o controle de recursos naturais essenciais, como o lítio e a água doce.
O desmonte do Estado e a nova face da pobreza
A implementação das políticas de Milei tem gerado impactos sociais imediatos e visíveis nas ruas de Buenos Aires. O fechamento de cerca de 30 mil pequenas e médias empresas e a perda de mais de 300 mil postos de trabalho no setor privado desenham um quadro de “terra arrasada”. Áreas estratégicas do Estado foram desmanteladas, deixando a população sem interlocutores para serviços básicos de saúde, educação e ciência.
“Há áreas do Estado onde você não tem nenhum interlocutor; não há ninguém que te atenda, não há telefones que se levantem, não há nada. É o fechamento de áreas estratégicas”, explica.
A jornalista destaca que a inflação atual, celebrada pelo governo em patamares baixos, é “mentirosa” quando confrontada com o custo de vida real. A redução de subsídios para energia, transporte e medicamentos empurrou a classe média para a pauperização e os setores mais vulneráveis para o desamparo total. Hoje, é comum ver famílias inteiras dormindo nas ruas e recorrendo ao lixo para se alimentar, uma cena que remete à trágica crise de 2001.
Além do aspecto econômico, há uma preocupação crescente com a repressão policial e a negação de conquistas históricas. O governo tem utilizado força desproporcional contra protestos de aposentados e trabalhadores, enquanto figuras do alto escalão questionam conceitos como o femicídio e revisitam negativamente a memória dos crimes cometidos durante a ditadura militar.
Reforma Trabalhista: A formalização da precariedade
Um dos pontos centrais da atual agenda legislativa é a reforma laboral, que Fagali descreve como uma “guerra contra a classe trabalhadora”. A nova legislação formaliza a precariedade que já existia na prática, retirando a obrigatoriedade de contribuições patronais para saúde e previdência. Em um modelo quase kafkiano, o trabalhador agora deve financiar seu próprio fundo de demissão com recursos que, em parte, saem da base que sustenta os atuais aposentados.
“Isso é demencial: os deserdados financiam os futuros deserdados. É uma guerra contra a classe trabalhadora onde uns andam com paus e outros com drones e mísseis, pois é a força do poder econômico absoluto.”, destaca Lídia.
A reforma também ataca o direito de greve e incentiva a negociação individual por empresa, quebrando a força coletiva dos sindicatos. Para a jornalista, essa mudança não visa a modernização, mas sim a maximização da exploração em um contexto onde o trabalhador perdeu todas as suas garantias de estabilidade. O fechamento de indústrias e a quebra da cadeia logística completam o ciclo de desindustrialização acelerada.
A oposição política, por sua vez, encontra-se fragmentada e, em muitos casos, cooptada. Governadores de províncias, pressionados pela falta de recursos, acabam negociando votos favoráveis às reformas em troca de repasses orçamentários. Essa falta de uma alternativa clara e de uma proposta concreta de saída para o caos mantém Milei com um consenso residual, alimentado pelo cansaço da população com as gestões passadas.
O papel de liderança do Brasil na região
Apesar do cenário sombrio na Argentina, Lídia Fagali enxerga no Brasil um farol de esperança para a América Latina. A liderança do presidente Lula e a inserção do país no BRICS representam a possibilidade de uma política multilateral que resista à hegemonia total dos Estados Unidos. Para os setores progressistas argentinos, a estabilidade democrática e social do Brasil é fundamental para evitar que a região caia em um ciclo de governos de ultradireita.
A jornalista ressalta que a importância do Brasil é “insoslayável” (inevitável). A manutenção de um governo que defenda os direitos humanos e a soberania nacional em Brasília serve como um contraponto necessário ao isolacionismo e à submissão externa que Milei propõe para a Argentina. O fortalecimento das relações entre os dois povos, para além dos governos, é visto como a única via para a reconstrução da dignidade sul-americana.
Em suas considerações finais, Fagali reforça que, embora o momento seja de sofrimento e crueldade nas medidas aplicadas, a história da Argentina é feita de surpresas e mobilizações sociais repentinas. A esperança reside na capacidade da sociedade civil de se reorganizar e retomar a luta pelos direitos que definem a identidade do país.
A análise de Lídia Fagali serve como um alerta sobre a fragilidade das democracias diante de crises econômicas prolongadas. O caso argentino demonstra que, na ausência de respostas eficazes do campo progressista, discursos radicais de ódio e individualismo podem rapidamente ocupar o vácuo de poder, redesenhando o contrato social em prejuízo da maioria.
“Não estamos falando apenas de mal-estar, mas de medidas que causam muito sofrimento e que são aplicadas com muita crueldade. Existe hoje um desprezo ao diferente e ao vulnerável que pensávamos que não existia na Argentina”, finaliza a jornalista.
O programa Soberania em Debate, projeto do SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube, todas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra e redação de Rodrigo Mariano. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT, Canal do Conde, e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil. A temporada 2026 do Soberania em Debate começa no dia 05 de fevereiro.
Foto: Dan Agostini/Mídia Ninja