O governo de Donald Trump anunciou novas sanções contra integrantes da cúpula cubana no dia 18 de maio, enquanto senadores republicanos alertam contra ações militares e alguns líderes empresariais argumentam a favor de que a Casa Branca negocie uma abertura econômica para investimento estadunidense na ilha com o atual governo cubano.
Entre impulsionar o que chamam de “mudança de regime”, ameaçar com ações militares e proclamar que essencialmente podem fazer o que quiserem com a ilha, a disputa interna em Washington — e Miami — sobre a política em relação a Cuba se expressa até agora com poucas decisões, muitos vazamentos e incessantes especulações.
No dia 18 de maio, foram anunciadas novas medidas contra o governo cubano. O secretário de Estado, o cubano-estadunidense Marco Rubio, informou que “toda propriedade e interesses em propriedade” da ministra da Justiça Rosabel Gamon Verde, do ministro de Energia Vicente de la O Levy, da ministra das Comunicações Mayra Arevich Marín e do presidente da Assembleia Nacional Esteban Lazo estão entre os que estarão sujeitos a novas sanções econômicas. No total, o Departamento do Tesouro anunciou sanções contra 11 integrantes da cúpula política cubana, assim como contra a Direção Geral de Inteligência, o Ministério do Interior e a Polícia Nacional Revolucionária.
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As novas sanções foram anunciadas enquanto aqueles que defendem, a favor ou contra, uma ação militar estadunidense contra Cuba continuam usando vazamentos para a imprensa e declarações públicas para tentar influenciar a única pessoa que, no fim, tomará essa decisão bélica: Trump.
“Sim, Trump realmente poderia atacar Cuba”, estampava a manchete de uma matéria da Politico na tarde de 18 de maio, repetindo a versão de que o mandatário está “frustrado” porque as pressões aplicadas à ilha ainda não produziram o resultado esperado de gerar uma mudança política no país. “A ação militar poderia incluir desde um único ataque aéreo com a intenção de assustar o regime para que faça concessões até uma invasão terrestre para derrubá-lo”, reportou.
No fim de semana de 16 de maio, setores cubano-estadunidenses em Miami promoviam o rumor de que o Departamento de Justiça estava formulando uma acusação criminal contra o ex-presidente Raúl Castro, que poderia ser anunciada em 20 de maio, quando a comunidade em Miami celebra o Dia da Independência de Cuba — copiando, dessa maneira, a estratégia que Washington empregou contra Nicolás Maduro, acusado de crimes contra os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a visita à ilha do diretor da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) na semana anterior, assim como uma reportagem do veículo Axios de que Cuba havia obtido 300 drones para atacar alvos estadunidenses, também fizeram parte da narrativa para justificar uma possível ação militar.
Esses rumores de guerra estão alarmando até alguns dos próprios aliados de Trump. “Republicanos ainda não estão convencidos de uma ação contra Cuba”, reportou outro jornalista da Politico no mesmo 18 de maio — aparentemente falando com fontes diferentes das de seu colega. O líder da maioria republicana no Senado, John Thune, opinou que, por enquanto, o Irã deve ser a prioridade. “Eu adoraria ver uma mudança de regime, todos nós adoraríamos, em Cuba. Talvez isso aconteça apenas pela força dos acontecimentos”.
Steve Bannon, influente aliado de Trump — de quem foi estrategista político durante seu primeiro mandato e cujo podcast tem 5 milhões de seguidores — comentou à Politico que os Estados Unidos precisam se concentrar no Irã. Recomendou que o presidente seguisse o conselho de Abraham Lincoln quando a Grã-Bretanha ameaçou atacar os Estados Unidos durante a Guerra Civil. “O presidente Lincoln sabiamente comentou a seu gabinete quando a Grã-Bretanha brandiu seus sabres no início da rebelião: ‘uma guerra de cada vez’”.
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Apenas 35% dos eleitores republicanos apoiam uma guerra contra Cuba, segundo uma pesquisa recente elaborada para o Center for Economic and Policy Research. Outros especialistas alertam que as bases republicanas estão se cansando das ações militares no exterior, particularmente por suas consequências econômicas dentro do país.
Por outro lado, o líder empresarial John Kavulich, que trabalhou com centenas de empresas estadunidenses durante décadas, sugere que Trump poderia ser o líder
capaz de negociar uma reaproximação dos Estados Unidos com Cuba. “Não se surpreendam se o presidente Díaz-Canel, de Cuba, visitar a Casa Branca”, escreveu em seu boletim especializado em negócios Estados Unidos-Cuba em 18 de maio.
Retornando de uma visita a Miami, onde se reuniu com uma ampla gama de líderes empresariais, políticos e comunitários, Kavulich prevê que “as demandas maximalistas de Washington e as demandas maximalistas de Havana gradualmente se transformarão em algo alcançável, desejável, possível de fazer, implementável e sustentável”. Acrescentou que os legisladores estadunidenses “terão que aceitar e se adaptar à decepção. Apoiarão o presidente Trump independentemente dos acordos que ele endosse com… um governo liderado por Miguel Díaz-Canel, presidente da República de Cuba”.
Assinalou que tal acordo pode ser realizado ainda sob a lei de sanções contra Cuba impulsionada em 1996, já que ela não proíbe que integrantes do atual governo cubano sirvam em um governo transitório ou democrático, nem que as sanções sejam suspensas quando o presidente estadunidense declarar que existe um governo transitório. Como exemplo, Kavulich lembrou que os Estados Unidos suspenderam algumas sanções contra a Síria enquanto seu novo mandatário tecnicamente continuava na lista de sancionados pelos Estados Unidos.
Kavulich, que dirige o US-Cuba Trade and Economic Council, assinalou que ampliar as sanções e pressões contra Cuba provoca um clima negativo para as empresas. “As empresas não gostam de desordem e incerteza — e as ordens executivas são desenhadas para infligir ambas as coisas”. Ao mesmo tempo, descartou a potencial acusação criminal contra Castro como uma tática política para apaziguar os 1,6 milhão de cubano-estadunidenses em Miami.
Fonte: Diálogos do Sul | Texto: David Brooks e Jim Cason | Tradução:Tradução: Isabelle Paiva | Foto: Reprodução X