Setor elétrico: diante do desmonte, um grupo de trabalho para disputar o futuro da energia no Brasil

Furnas sem CNPJ, Eletrobras sem investimento, demissão em massa e apagão no horizonte: Senge/RJ debate o colapso do setor elétrico e cobra reestatização

Um setor que perdeu 16 mil postos de trabalho em quatro anos, uma empresa de pesquisa estratégica ameaçada de fechamento e uma companhia símbolo da história elétrica brasileira – Furnas Centrais Elétricas – que hoje não tem sequer CNPJ. É esse o retrato que emergiu do debate presencial do Soberania em Debate do mês de julho. A iniciativa do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge/RJ) reuniu a economista e professora Clarice Ferraz; o pesquisador do Cepel e diretor do Senge/RJ, Agamenon Oliveira; o deputado federal Reimont Otoni (PT-RJ); e o ex-diretor da Eletrobras, José Drumond Saraiva. Juntos, os quatro debatedores jogaram luz sobre a emergência representada por um setor elétrico nacional sequestrado pelo financismo e absolutamente insustentável para um país que pretende se desenvolver e se reindustrializar.

Com dados concretos que mostram que estamos à beira de um apagão graças à privatização de uma das empresas nacionais mais estratégicas, o evento não só provou a urgência de mudanças, mas fez nascer um grupo de trabalho que buscará uma resposta concreta ao atual estado das coisas: a formulação de um plano para construir, com base técnica e política, uma proposta de modelo para a energia no país.

Um diagnóstico compartilhado do desmonte

Os números apresentados no debate convergem para um mesmo quadro: o modelo implantado com a privatização da Eletrobras, em 2022, não gerou o dinamismo prometido pela iniciativa privada e pelos entreguistas que praticamente deram a empresa de presente para o mercado financeiro. Pelo contrário, aprofundou a desindustrialização e o enfraquecimento de uma estrutura que levou décadas para ser construída. A companhia, que tinha 23 mil empregados em 2020, hoje conta com cerca de 7 mil trabalhadores, uma redução de mais de dois terços do quadro em poucos anos. Seus dirigentes, no entanto, viram seus salários inflarem enquanto os investimentos nos serviços desabavam.

“O que que a Eletrobras se tornou quando foi privatizada? Vimos a fuga do teto salarial, que ela possuía por ser uma empresa pública, desaparecer. Diretores saem do teto para um salário de R$ 300 mil por mês, com outras participações que saltaram de R$ 60 mil para mais de R$ 1 milhão por mês”, apontou Reimont. “A gente sabe o que é isso”, lamentou o deputado.

A frase resume um padrão que se repete em outras privatizações do setor: dirigentes que estavam à frente das estatais no momento da venda assumem, logo depois, cargos de direção nas empresas privatizadas, com remunerações multiplicadas. Drumond, que dedicou décadas à luta contra a privatização do setor elétrico desde os anos 1990, quando presidiu a Eletrosul, relembra o caso mais simbólico desse processo:

“É uma tristeza para qualquer eletricitário saber que Furnas não tem mais CNPJ. Como é que pode acabar uma empresa do setor elétrico como Furnas Centrais Elétricas? Como é que a gente pode admitir isso? Porque não é uma questão só de geração, transmissão, distribuição, de preços mais justos. A gente tem que pensar o que a gente quer para esse país”, afirmou o engenheiro.

Ao desmonte institucional soma-se um segundo problema, apontado a partir de dados levantados junto com um ex-funcionário da Eletrobras: a companhia investiu apenas um quinto do que havia prometido no momento da privatização, ao mesmo tempo em que distribuiu aos acionistas 50% a mais em dividendos do que aplicou em sua própria operação.

“É a vaca leiteira que eles estavam querendo e nós temos dados para comprovar isso. Ela investiu mais ou menos um quinto do que prometeu: devia investir R$ 14 bilhões por ano e investiu, ao todo, cerca de R$ 10 bilhões. Não dá mais para conciliar enquanto vemos esse sangramento, esse desmonte: precisamos retomar a Eletrobras”, destacou Clarice.

É esse conjunto de evidências, que acumulam queda de emprego, perda de patrimônio público e prioridade financeira sobre a função pública da energia, que fundamenta, para os quatro debatedores, a urgência de uma resposta organizada.

Restatização como horizonte inegociável

Enquanto a própria Axia (nome adotado pela Eletrobras após o rebranding de 2025) não aponta saídas para o colapso do sistema, os especialistas reafirmam o único caminho viável para resolver a ameaça de apagões no horizonte: a reestatização da Eletrobras. Para que isso seja viável, é preciso, em um primeiro momento, derrubar a crença limitante de que esse processo é impossível, porque não é. A ideia central, repetida por diferentes vozes, é a de que a privatização não pode ser tratada como fato consumado e irreversível.

Ao contrário, a retomada do controle estatal vem se mostrando inevitável para uma empresa que controla ativos como reservatórios de água e infraestrutura de transmissão. Sob a lógica exclusiva do lucro de curto prazo, a empresa se mostra estruturalmente avessa a investir em pesquisa, manutenção e expansão, exatamente o oposto do que o país precisa diante da transição energética em curso no mundo todo.

“A Eletrobras não tem como ficar privada. Ela tem poder de mercado, está segurando água, já quebrou o comercializador, não vai investir em pesquisa. Eu defendo a restatização em um primeiro momento. Se não vai dar, então recompra a maioria. Por que não comprar essa briga? Por que não derrubar a poison pill? Ela é uma ilegalidade. Por que que é vedada a decisão de voltas atrás na venda da empresa? Por que que é vedada à sociedade a escolha de um outro caminho? Porque desde que eles resolveram privatizar, o entendimento é de que nada mais irá mudar, nunca mais. Não é verdade. Não mudou no governo Bolsonaro? Pois pode mudar de novo”, defendeu Clarice.

A fala é reforçada por Reimont, que insiste no caráter de obrigação política dessa disputa, independentemente do tempo que ela levar para se concretizar: “Nós não podemos dar como dado e definitivo, como algo imutável, que tenhamos no Brasil o setor elétrico nas mãos do capital privado. Não podemos dar isso como definido. E não importa se essa solução virá daqui a um ano, dois, três, ou daqui a vinte, trinta, cinquenta anos, e a gente nem aqui mais estiver: a nossa assinatura tem que estar nesta luta”, apontou Reimont.

Para a recompra das ações e a retomada da gestão da empresa pelo Estado, a “poison pill” citada por Clarice, cláusula que impõe multa bilionária a quem tentar reverter o controle acionário da Eletrobras, também precisa ser entendida como algo reversível, não definitivo, mas como uma ilegalidade a ser contestada judicialmente. Ela cita a avaliação do professor de Direito Público da Universidade de São Paulo, Gilberto Bercovici, sobre o mecanismo: “A poison pill é uma cláusula leonina que nem numa relação societária comum seria aceita. Então, por que a gente não vai contestar também essa concentração de mercado, essa cláusula? É necessário que haja caminhos para permitir uma revisão democrática das estratégias que nós, a sociedade, queremos. A poison pill precisa ser contestada”, defendeu Clarice.

Um grupo de trabalho para dar a partida

É desse diagnóstico compartilhado, e da constatação de que tanto soluções imediatas quanto disputas de longo prazo exigem organização, que nasce a proposta concreta discutida no encontro: a formação de um grupo de trabalho no Senge/RJ para estudar e construir uma proposta de modelo para o setor elétrico nacional que enderece de fato a urgência do tema. “Eu acho que é importante essa proposta que a direção do sindicato está fazendo, de criar um grupo de trabalho para reestudar e refazer uma proposta para o setor elétrico nacional, se possível até com outros companheiros de outras áreas — ampliar isso para o setor energético de uma forma geral. Mas já é um ótimo começo a gente tentar trazer alguns companheiros para iniciar esses trabalhos de imediato”, disse Drumond.

A fala estabelece o horizonte temporal da iniciativa: o grupo deve começar a atuar de imediato, tendo como referência dupla as eleições deste ano, tanto para influenciar programas de governo de candidaturas alinhadas às pautas discutidas quanto para consolidar, independentemente do resultado eleitoral, um conjunto de propostas que sirva de base para a atuação da categoria nos próximos anos. “A gente tem que dar essa partida. Eu acho que o Sindicato dos Engenheiros tem um papel a cumprir, de formular a sua análise, as suas propostas. E eu gostaria muito que a Clarice nos ajudasse nesse propósito”, completou Drumond.

A composição inicial do grupo aponta para um núcleo pequeno, reunindo o Senge/RJ, lideranças que já vinham promovendo audiências públicas sobre o tema, e especialistas como Clarice, indicada pelos próprios debatedores para ajudar a coordenar os trabalhos, mas com a possibilidade de ampliação para outras áreas e para o debate mais amplo sobre política energética, incluindo temas como energia nuclear, hoje tratados, segundo os próprios participantes, sem qualquer política nacional definida. O objetivo declarado não é produzir um documento de gabinete, mas uma proposta que dialogue diretamente com o processo eleitoral e com a reconstrução, a médio prazo, da capacidade do Estado brasileiro de decidir sobre sua própria matriz energética e, assim, com a retomada da sua soberania.

O programa Soberania em Debate, projeto do movimento SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube todas as quintas-feiras, às 16h. Apresentação e roteiro são da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil. Uma vez por mês, o programa é transmitido ao vivo do auditório do Senge/RJ, na Cinelândia. A palteia é aberta a toda a sociedade civil, convidada a participar ativamente do debate com os convidados.

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