“Para efeito de uma análise realista, é preciso reconhecer: as forças hegemônicas da esquerda, especialmente o PT, sob o comando do presidente Lula, fizeram uma análise equivocada do estado de ânimo das massas populares”. A análise é do jornalista e analista político Breno Altman, convidado do Soberania em Debate presencial de setembro, no Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro.
O evento apontou os caminhos para a superação da sexta República, apodrecida por gatilhos deixados no texto da Constituição de 1988 para que as forças hegemônicas do capital e as oligarquias nacionais pudessem controlar os rumos do país através de um parlamento comprado, uma casta judiciária comprometida e um executivo enfraquecido.
Breno sugere a refundação do Estado, com um quarto governo Lula capaz de apresentar ao povo brasileiro as bases para uma nova constituinte e um novo ciclo de desenvolvimento e reindustrialização. Para conhecer a proposta e o diagnóstico apresentados por Breno, confira a matéria clicando aqui.
Esse plano para o que Breno chama de “um futuro vibrante” não foi pensado ao longo dos últimos quatro anos. Os esforços da frente ampla liderada por Lula alcançaram índices recorde de bem-estar que seriam capazes de eleger qualquer candidato à reeleição no passado. Mas – e aqui está o erro de cálculo – não foram suficientes para chegar às eleições de 2026 com o apoio majoritário da sociedade, que costumavam garantir.
Há uma explicação: Breno destaca que o ânimo das massas costuma ser uma incógnita ao sair de um ciclo autoritário e reacionário como o do governo Jair Bolsonaro. Em um dos cenários possíveis, o povo quer cautela, com avanços paulatinos, sem riscos, cansado de um cotidiano de perigo e incertezas. Em outro, ele deseja mudanças imediatas, ousadas, revirar o sistema e mudar o país. “A aposta majoritária do governo foi na primeira hipótese, mas essa análise estava errada. O sentimento das massas não é esse”, apontou Altman.
Campanha: expectativas não atendidas
A percepção de que as expectativas da opinião pública não estavam ancoradas na comparação entre o governo Lula 3 e o governo Bolsonaro, mas na comparação entre o atual governo Lula e as duas primeiras gestões do presidente veio tarde. “Recuperar o patamar alcançado nos governos Lula 1 e 2 não era suficiente. O povo tem o direito de querer mais e ele queria mais: o desejo era de um grande salto adiante. Não bastava apenas derrotar Bolsonaro, mas também dar um novo rumo, uma nova vida para o país. Isso não veio e as expectativas do povo foram frustradas”, explica Breno.
A própria campanha de Lula demorou a entender o cenário. Ela foi construída sobre dois grandes pilares: a celebração das muitas realizações do governo Lula 3 e a comparação com o desastre do governo Bolsonaro. Ambos os pilares tinham base na realidade: os índices positivos, alguns deles em recorde histórico, seriam suficientes em outro cenário. A comparação com o governo Bolsonaro de fato evidencia mudanças da água para o vinho. Mas, em meio a uma crise civilizatória, emergência climática e geopolítica, era preciso mais. “A campanha foi estruturada como um retrovisor e isso não funcionou. Não gerou uma onda vigorosa de apoio ao governo Lula. Faltava falar de futuro”, aponta o jornalista.
Certa de que os resultados e a comparação com o governo anterior seriam suficientes, a campanha começou morna, mas a correção está em curso: o discurso mudou nas últimas semanas da corrida eleitoral e, na reta final, o foco é outro. Com a clareza de que o governo Lula 3 só foi capaz de reconstruir a institucionalidade e as políticas públicas destruídas por Bolsonaro, agora o projeto aponta para a missão histórica do governo Lula 4: executar um quarto mandato de transformações, comprometido com as reformas estruturais de que a sociedade brasileira precisa. Um governo apontando para um futuro de avanços.
Autocrítica e avanços reais
Petista histórico, Breno destacou a importância de não terceirizar responsabilidades, sob pena de o partido não ser capaz de fazer o giro necessário para conduzir o país na direção de um novo ciclo de desenvolvimento. O PT, ele lembra, é protagonista da vida pública do país. Ocupou o governo, como dirigente do Estado, por 17 dos 26 anos do século XXI. “Nós, a esquerda brasileira, somos um ator político relevante e, portanto, devemos avaliar os problemas a partir, antes de mais nada, de nossas próprias responsabilidades. Não conseguimos mudar a correlação de forças estabelecida nas eleições de 2022. O bolsonarismo, apesar da condenação de Bolsonaro, das denúncias graves do grupo golpista, entra nessas eleições com a mesma força que tinha na anterior”, avalia.
Em sua análise sobre os motivos para este cenário preocupante, o jornalista destacou dois fenômenos que confluem, mas são diferentes: as dificuldades e as deficiências. O primeiro diz respeito a problemas externos impostos por variáveis que escapam ao controle, como interferências das big techs, o cenário geopolítico, a correlação de forças desfavorável no Congresso, um Poder Judiciário controlado pelo capital. Já as deficiências são responsáveis por um terceiro governo Lula que não empolgou o país, apesar dos números.
“Não fomos capazes, não tivemos a força, a vontade ou a mistura das duas para gerar um novo ciclo para o país, com mudanças econômicas, sociais, políticas e culturais que pudessem arrebatar do bolsonarismo um pedaço de seu eleitorado, que um dia já foi nosso. E que poderia continuar sendo nosso. Mas não conseguimos gerar esse clima no país”, admite Breno.
As deficiências, neste caso, foram em grande parte condicionadas pelas dificuldades. Após um governo de terra arrasada e a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, o governo Lula 3 precisou defender a ordem. Na luta para que o Brasil não mergulhasse novamente na quinta República, a da Ditadura Militar, não houve espaço para denunciar o colapso da sexta República e estabelecer as bases para a sua superação. Contra os riscos regressistas quinto-republicanos representados por um eventual triunfo de Bolsonaro, ela precisava ser defendida, ainda que apodrecida.
Derrubar o sistema: enfrentamento inadiável nos próximos quatro anos
Enquanto trabalhava para reconstruir o país, o governo Lula 3 deixou pelo caminho temas como a Reforma Política e Judicial, uma escolha anunciada já nas eleições de 2022. Para garantir a democracia, nenhuma proposta antissistema foi apresentada ao povo no programa registrado no Tribunal Superior Eleitoral, destaca Breno. Para ele, era um reflexo do alto preço da frente ampla: “Se houvesse propostas de uma política antissistema, a frente ampla não se forjaria naquele momento. Alckmin, Tebet e outros tantos talvez não estariam de acordo com a ideia da fundação da sétima República, com reformas fundamentais. A lógica, então, foi rebaixar o programa para a frente ampla e derrotar o bolsonarismo. Mas esse programa não é suficiente para superar a extrema direita”, explica.
É conhecida a expressão que diz que “não há vácuo na política”. E no abandono da luta pela derrubada do sistema obviamente corroído para se tornar eleitoralmente viável, a esquerda deixou espaço para o crescimento da extrema direita. Como muitas vezes antes na história do Brasil e do mundo, a extrema direita captura o mal-estar popular e cria falsas saídas para problemas que ela mesma cria e alimenta, chega ao poder, e o resto é história. “A antessala do fascismo sempre foi formada por governos social-democratas ou liberais fracos. Hitler sucedeu a República de Weimar. As massas se desencantaram com a República de Weimar e apoiaram o nazismo. Porque, quando há uma crise sistêmica e a esquerda não é capaz de apresentar uma resposta para ela, a extrema direita fará, de forma maliciosa, propagandística, falsa, porque nada é mais sistêmico que a extrema direita e eles sabem operar isso.”
O desafio para o quarto mandato
Para Breno, o desafio central de um quarto mandato de Lula é apresentar ao país um novo projeto, que ainda está em construção. “Esse projeto não está consolidado, amadurecido. Não sei se estará até o segundo turno. Mas temos que consolidar um projeto para tirar o país da sexta República”, afirma. O caminho passa por deslocar a política econômica da gestão neoliberal para a abertura de um novo ciclo de industrialização. “Porque sem isso não teremos empregos de qualidade, seguiremos um país de renda média fraca. Não teremos a pujança para sustentar o Estado de bem-estar social que construiremos. Ele não é sustentável pelo atual modelo econômico”, alerta, lembrando que industrialização de verdade só acontece com investimento pesado, como em todo o mundo.
Isso exige, segundo ele, revisar toda a política fiscal. “Temos uma bola de ferro que nós mesmos colocamos no nosso tornozelo, chamada Arcabouço Fiscal.” Breno reconhece que o arcabouço é melhor que o Teto de Gastos de Temer e que recuperou os pisos constitucionais de saúde e educação, mas considera o avanço insuficiente para abrir um novo ciclo de desenvolvimento a partir do investimento público. Sem esse ciclo, avalia, o frágil Estado de bem-estar construído até aqui tende a regredir. “Distribuir renda apenas é insuficiente. É o investimento público que cria a base para o desenvolvimento: portos, aeroportos, fábricas, satélites. Sem isso, não tem desenvolvimento sustentável.”
O analista também destacou o papel da engenharia nesse projeto. “É uma loucura que o Brasil forme mais advogados que engenheiros. A engenharia brasileira fez coisas extraordinárias. Ela não é periférica. Teve escala internacional em muitas atividades”, disse. Para ele, o principal problema do país não é a desigualdade, mas o subdesenvolvimento, e só o desenvolvimento permite uma política de distribuição de renda e riqueza capaz de elevar as condições de vida do povo. “A projeção histórica da esquerda não é a igualdade da escassez, é a igualdade da abundância, e isso depende do desenvolvimento das forças produtivas.” Daí a exigência de “40 anos em 4”: um mandato voltado à construção da indústria nacional de defesa, de ferrovias e de infraestrutura, com enfrentamento do capital financeiro. “Vai ter que ter confronto, conflito. Precisamos abandonar o fanatismo pela moderação.”
Por fim, Breno defendeu construir as bases para uma grande reforma constitucional, já que o sistema político em que o governo Lula está ancorado não é capaz de realizar transformações dessa magnitude. “Precisamos apresentar ao país um grande projeto de reforma constitucional que preceda a abertura de um processo constituinte à frente. Criar a correlação de forças para que uma nova assembleia constituinte mude radicalmente o sistema do país.” Esse é o “futuro vibrante” que, na avaliação do jornalista, o quarto governo Lula precisa apresentar ao povo brasileiro.




