A definição do próximo presidente do Brasil ficou para o segundo turno, dia 25 de outubro, após a disputa acirrada do primeiro turno colocar Flávio Bolsonaro (PL), com 47,03%, um pouco à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teve 45,16%. A legenda mais identificada com o bolsonarismo conseguiu a maior bancada da história do Congresso, com 121 deputados federais e 28 senadores.
O resultado surpreendeu, porque as pesquisas de intenção de votos, especialmente as divulgadas na semana que antecedeu o primeiro turno, apontavam para uma disputa apertada, mas com Lula na frente.
O cientista político José Henrique Artigas, professor do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba (CCHLA-UFPB), reforça que o resultado, com base nas análises de tendência, acabou sendo surpreendente e destaca os resultados positivos da composição do legislativo para a extrema direita.
“Houve uma verdadeira avalanche de votos atribuídos a extrema direita particularmente ao PL de Flavio Bolsonaro. Essa eleição coloca o PL como partido mais forte do Brasil, que conquistou o maior número de parlamentares e de governos estaduais, principalmente em cima do Centrão. O somatório dos partidos de esquerda e centro-esquerda mudou muito pouco em relação à composição de 2022. Partidos como PP e União Brasil deram espaço para o PL. Isso jamais aconteceu na história do país”, avalia.
Artigas reforça que a eleição “foi atípica” e compara com o movimento de 2018. “Flávio Bolsonaro conseguiu vencer em estados onde, em 2022, Lula havia garantido a vitória”, pontua.
Para o cientista político, ainda que Lula consiga reverter o cenário e sair vitorioso no segundo turno, “terá um caminho dificílimo para enfrentar”. Artigas observa que a tendência de crescimento da direita, desde 2018, já vinha se consolidando, mas alerta que o que está em evidência não é mais uma “oposição do Centrão liberal”. “Estamos falando de uma oposição da extrema direita golpista. A extrema direita do PL flerta com o golpe, com o autoritarismo e, portanto, com o rompimento da ordem institucional estabelecida”, resume.
O analista questiona a ideia de que há um “avanço conservador” no Brasil. Para ele, trata-se de um “retrocesso conservador e avanço reacionário”. José Henrique Artigas alerta que, caso se torne presidente, o primeiro ato de Flávio será anistiar seu pai, Jair Bolsonaro, e os golpistas do 8 de janeiro.
“É um grupo de golpistas que quer destruir as instituições. São representantes eleitos que claramente querem retroceder a antes de 1988. Que nos preparemos para tempos muito difíceis. A democracia que conseguiu se sustentar após crises vai ter que demonstrar muito mais resistência e resiliência. Toda a corja golpista sairá da cadeia, caso Flávio ganhe”, ressalta.
Profunda transformação da comunicação
O analista político observa uma mudança na última década na forma em que grupos e lideranças políticas se conectam com o eleitorado, apontando para uma perda de relevância da forma de comunicação tradicional para os algoritmos nas plataformas das redes sociais. Nesse sentido, o campo conservador conseguiu, com mais habilidade, capturar essa dinâmica.
Artigas compara o atual cenário de marketing político aos anos 1930, quando o nazismo e o fascismo ganhavam capilaridade e a mensagem era dirigida a grupos muito específicos. Ele avalia que “o debate não aconteceu pelas vias tradicionais e não foi para as ruas”, garantindo a vitória a figuras como Nikolas Ferreira, que concentram sua atuação nas redes sociais.
“O mecanismo hoje de inteligência artificial, que orienta a captura de dados, acaba dificultando manifestações coletivas. A propaganda eleitoral é orientada ao indivíduo, bombardeado pelos algoritmos”, observa.
Nesse sentido, Artigas avalia que esse formato comunicacional acaba alavancando o projeto principal da extrema direita, que era aumentar a capilaridade. “Desde 2022, o PL vinha se reorientando a aumentar a capilaridade. Em 2018, ainda como PSL, ele tinha certa dificuldade de avançar pelo país. A partir de 2022, eles conseguem a capilarização. E isso terá um impacto imenso. Caso eleito para a presidência, Flávio vai navegar em mar tranquilo, semelhante ao segundo governo Trump, com capacidade de impor e não negociar a presidência do Senado e a presidência da Câmara”, afirma.
“Hugo Motta e Davi Alcolumbre que coloquem suas barbas de molho, porque estavam com a expectativa de reeleição [na presidência da Câmara e Senado]”. Para ele, o segundo turno se trata de disputar essas forças do Centrão.
Para Artigas, o voto útil foi uma tendência e acabou sendo um fiel da balança. Além disso, o cientista político avalia que a campanha de Flávio sai vitoriosa do primeiro turno, garantindo pelo menos cinco palanques importantes estaduais, contra quatro de Lula. “Campanha de Flávio sai do primeiro turno com tendência de crescimento, conseguindo votos úteis de outros candidatos da direita. Não acredito que haverá grandes mudanças no campo bolsonarista”, aponta.
Já para o campo lulista, Artigas avalia que a mudança deverá ser drástica e critica a campanha que, segundo ele, “ficou muito focada no passado e em denúncias contra Flávio”, como os escândalos do Banco Master, que não colam e não surtem o impacto esperado. “Apesar da diferença proporcional de votos ser relativamente pequena, o grau de calcificação desde o início da campanha revela a grande dificuldade de conquista de indecisos e um arco muito restrito da possibilidade de mudar de opinião”, pondera.
Fonte: Brasil de Fato | Foto: Páginas oficiais




