Às 21h09 do domingo, 25/10, com 99,52% das urnas apuradas, foi oficialmente anunciada a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A vitória entrou para a história pelo ineditismo: reverteu o resultado desfavorável do primeiro turno, derrubou a abstenção para a menor da história e elegeu um mesmo homem pela quarta vez para a presidência do país. Nada disso havia acontecido antes. Foi, de fato, histórico.
Três dias antes, no entanto, nada estava garantido. Ainda assim, José Genoino não tinha dúvidas sobre os resultados. Entrevistado em 22/10 pelo Soberania em Debate, programa do projeto SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro, o ex-presidente do Partido dos Trabalhadores e ex-deputado federal falava de uma vitória apertada, mas possível.
“Nós podemos continuar apenas administrando a crise sem disputar o futuro. É olhar para frente e falar de utopia, de esperança sobre a juventude, a indústria, a soberania, a democracia, o povo negro, as mulheres, os povos originários, a educação, o SUS”.
O momento histórico
As eleições de 2026 foram mais que a tradicional festa da democracia. Elas aconteceram em meio ao fim de um ciclo histórico, e quem vencesse seria o responsável pela fundação do seguinte. Graças à luta nas ruas e nas redes, será Lula, no epílogo de sua vida política, o líder dessa transformação.
Para Genoino, o ciclo se encerrava de qualquer maneira. “Ganhando ou perdendo, nós encerramos o ciclo histórico da transição democrática da Constituição de 88. As instituições estão apodrecendo e vai piorar com essa maioria que eles fizeram no Senado e na Câmara”, alertou. “O lado da virtude e da esperança é a eleição do Lula para reconstruir um outro caminho. A tragédia e a escuridão é a eleição do clã.” Para ele, “nunca uma eleição foi tão estratégica”.
Sobre o dia seguinte, a aposta era no que ainda estava por fazer. Genoino apontou a soberania digital, de dados, cibernética e aeroespacial como o futuro a sinalizar. “A juventude se encantará se a gente for eficaz nos nossos compromissos daqui para frente”, disse. Para isso, não bastava conter o desastre do clã Bolsonaro: era preciso ampliar conquistas. “Durante um certo tempo a gente ficou só comemorando o que foi feito. Não é suficiente. Certas questões, o povo já incorporou como direitos e quando isso acontece, ele quer mais.”
A ideologia de 50% do país
A partir de 2016, uma extrema direita fascista com uma ampla base social se instalou no país. Ainda que derrotada em 2022 e 2026, ela segue viva e pulsando em metade da população. Para Genoino, o fenômeno não se explica pela economia, nem pela política: é ideológico e cultural.
“Essa base social vem da precarização da vida, dos direitos, da precarização do futuro, de uma subjetividade capitalística, da catástrofe, do caos, da vingança, da culpa”, explicou. Segundo ele, “o clã Bolsonaro representa o comitê central dessa degradação política”.
Genoino destacou que a esquerda tem sua parcela de responsabilidade neste processo. Lembrou o que lhe disse o professor Antonio Candido: o governo havia “botado o povo no orçamento” e feito uma revolução pacífica, mas, nas palavras do professor, “garantiu a barriga e não conquistou a cabeça e o coração das pessoas”. Isso exigia disputa ideológica, cultural e subjetiva, formação e organização política. “O nosso trabalho de conscientização foi precário”, admitiu.
Foi o risco, o pavor, segundo Genoino, que fez o povo voltar às ruas, puxado pela juventude. Para ele, essa percepção deveria ter vindo antes, já com a ameaça de golpe em 2023. O governo teria então governado “com um pé no Congresso e um pé na sociedade”, sem se afastar dos territórios, fortalecendo os movimentos sindical e popular e garantindo uma interlocução que não fosse apenas burocrática.
Novo horizonte
O governo Lula 4, afirmou Genoino, precisa ser totalmente diferente do Lula 3. Não poderá se acomodar numa governabilidade congressual de baixo nível, e o diálogo constante com as reivindicações populares e as formas de democracia direta terão de estar em pauta o tempo todo. Ele falou de um governo que consulta o povo, a começar por um plebiscito sobre o orçamento secreto, que, reconheceu, o Congresso dificilmente revogaria, e defendeu tornar permanentes os plebiscitos e os referendos.
“O Brasil não pode continuar sendo um exportador primarista de produtos agrícolas e de minérios”, defendeu, ao tratar de um modelo de desenvolvimento econômico soberano, com produtos transformados e beneficiados aqui. “Nós temos que ter uma agenda para colocar em debate, um projeto de futuro do país.”
No plano institucional, Genoino propôs uma reforma do Judiciário que separe interesse público e interesse privado, com regras mais claras para a escolha de ministros do Supremo Tribunal Federal e mandato em vez de permanência vitalícia.
Nas Forças Armadas, a proposta é reorientar. “Não é para GLO”, afirmou, referindo-se às operações de Garantia da Lei e da Ordem. O foco deveria estar na guerra cibernética, na espacial e no enriquecimento de urânio. Enquanto o mundo discutia drones e mísseis, criticou, as Forças Armadas brasileiras discutiam urna eletrônica e Tribunal Superior Eleitoral.
Na segurança pública, defendeu um sistema “vertical, horizontal e transversal”, que use a força para conter, e não a arma para matar. A fórmula inclui ocupar territórios com inteligência e oferecer à população uma alternativa à prisão imposta pelo crime e pelo tráfico de drogas e armas.
Uma nova classe trabalhadora
Entre as autocríticas, Genoino destacou a distância entre a esquerda e o mundo do trabalho contemporâneo. Com o fim do fordismo e a revolução da indústria 4.0, surgiu uma classe trabalhadora de aplicativos e de empreendedores de si mesmos, com a qual, avaliou, o campo progressista não dialogou. “Continuamos com os parâmetros da era fordista e não avançamos para compreender esses novos dilemas”, disse.
Lembrou que trabalhador, no seu conceito, é quem vive do próprio esforço sem explorar o trabalho alheio, e que conquistas aparentemente pequenas, como reconhecer como acidente de trabalho o que sofre o entregador, têm grande importância. Parte da população pobre, afirmou, foi cooptada pela teologia da prosperidade, uma promessa irreal importada do neopentecostalismo norte-americano, que atribui o bem-estar ao divino e não à organização coletiva.
A crítica alcançou o próprio partido. Para Genoino, os partidos de esquerda se burocratizaram, deixaram de promover grandes debates e demoraram a construir uma frente que reúna PT, PSOL, PCdoB, PSB, PDT, Rede, PV e movimentos sociais, inclusive a militância que não está em partido algum. É o caso de muitos jovens, que ele descreveu como a principal força de apoio a Lula. “A estrutura vertical faliu. Temos que horizontalizar e territorializar os partidos”, defendeu.
A esperança, para ele, estava nas ruas do segundo turno. Genoino dizia sentir o clima no que chamou de “Data Povo” e “Data Rua”: comunidades e mobilizações estudantis em que as pessoas queriam se engajar fora da burocracia institucional. Criticou ainda uma política feita para “se ver”, reduzida a transmissão ao vivo e print de celular, e pediu que se rompa com o espetáculo.
Comunicação como pauta estratégica
Outro ponto da conversa foi a democratização da comunicação. Genoino afirmou que a pauta foi deixada de lado a partir de 2023 e que foi uma falha ter permitido isso. Defendeu a regulação, que distingue de censura, e a separação entre o direito à informação e o direito empresarial de explorar os meios de comunicação. Com as big techs e a inteligência artificial, afirmou, o tema virou “questão de vida ou morte para a democracia”.
Na campanha, via a convergência entre a manipulação das plataformas digitais e a da mídia corporativa tradicional na condução dos debates e na divulgação de informações, ambas negando uma alternativa progressista. Defendeu ainda que o Ministério das Comunicações deixe de ser entregue ao Centrão.
Contra-hegemonia e soberania
Essas frentes compõem, na leitura de Genoino, uma agenda estratégica de contra-hegemonia: comunicação democrática, soberania econômica, digital e ecológica, defesa nacional e universalização de direitos, sem ficar no assistencialismo. Incluiu ainda a recuperação de conquistas históricas, como o conceito de empresa brasileira de capital nacional, extinto nos anos do governo FHC.
Recorrendo a Gramsci, afirmou que a esquerda não tem força para uma guerra de movimento, mas precisa fazer uma guerra de posição: manter posições e avançar acumulando força. “A nossa caminhada não é uma corrida de 100 metros, é uma longa marcha”, disse. Isso inclui alianças internacionais com intelectuais, mandatos parlamentares e governos, em favor de um internacionalismo democrático, popular e progressista.
Para ele, o contexto global reforça a importância do Brasil. Com o imperialismo norte-americano em declínio lento e prolongado, pressionado por derrotas externas e pela crise interna, o cerco à América Latina serviria para aliviar sua crise. O Brasil, pelo tamanho, pela população, pela economia e pelas riquezas naturais, como petróleo, minerais críticos, terras raras e terras agricultáveis, seria “o elo chave” que impede essa corrente de se fechar. “A vitória do Lula é maior do que o Lula, é maior do que o PT”, afirmou.
O resultado de 25/10 confirmou o otimismo. Mas a própria conversa deixou claro que a vitória, para Genoino, não era ponto de chegada. Se o ciclo da transição democrática se encerrou, o que se abre agora é a construção do seguinte. Cumprida a primeira etapa, o desafio colocado é justamente o de blindar essa vitória, disputando o futuro.
O programa Soberania em Debate, projeto do movimento SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube todas as quintas-feiras, às 18h30. Apresentação e roteiro são da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. a coordenação é de Beth Costa e Rodrigo Mariano, com direção de Olímpio dos Santos. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil. Uma vez por mês, o programa é transmitido ao vivo do auditório do Senge/RJ, na Cinelândia. A palteia é aberta a toda a sociedade civil, convidada a participar ativamente do debate com os convidados.
Fotos: Paulo Pinto / Agência Brasil e Ricardo Stuckert/PR




