Seria triste se não fosse absurdo: no final de 2025, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ) deu início a uma atualização em seu sistema corporativo. Segundo a presidência, era preciso modernizar o atendimento pelo site. O resultado, porém, foi um verdadeiro caos para os profissionais e empresas do estado.
Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) não emitidas ou com valores errados, registros apagados e pela metade e serviços fora do ar. Até o momento, é este o estado do novo e “moderno” site do Crea RJ.
No último mês de novembro, o Crea RJ publicou vídeo institucional tratando do problema. “Os imprevistos acontecem”, destaca um profissional, que garante que as equipes estão trabalhando dia e noite. Até o momento, o “imprevisto” continua.
Reincidência
A catástrofe ganha mais uma camada quando se chega à empresa contratada para o serviço. A Fattoria-SIFA é uma velha conhecida. No passado, esteve no centro de problemas no mesmo sistema. A atual contratação, por mais de R$ 9 milhões, se deu por dispensa de licitação por inexigibilidade por “notório saber”. O argumento foi que só a Fattoria poderia atualizar o sistema que ela mesma criou.
Demora, ineficiência e alguns relatos
A normalidade ainda não foi restabelecida. No final do ano passado, em grupos que reúnem engenheiros do estado do Rio, muitos profissionais e empresas relataram estarem impedidos de trabalhar por conta da demora no restabelecimento do sistema que gera os documentos e registros necessários para o pagamento dos serviços de engenharia no estado.
“Quem precisa das minhas ART’s para atuar não consegue trabalhar. O problema não é apenas conosco, os profissionais, mas também com as pessoas que precisam de nós para fazer suas obras. Consigo registrar as ART’s, mas não sai o valor correto para pagar”, destaca um dos membros. “Precisamos levar isso ao Confea. Se o sistema não funciona, que volte o antigo”, reclama um engenheiro em um dos grupos.
“Vivo a mesma situação. Já mandei diversos e-mails, já liguei várias vezes, já fui até lá e nada resolveu. Estou com serviços para receber que só pagam mediante a documentação. Preciso instalar caixas condensadoras, máquinas de refrigeração, mas preciso enviar a ART para o escritório do condomínio para liberar o serviços. O cliente já pagou 50% do serviço, já comprei o material para instalação e não consigo trabalhar. Está assim meu mês de dezembro”, lamentou mais um profissional. “Precisei devolver dinheiro ao cliente. É triste, pois muitos amigos contavam com os recebimentos para realizações no final de ano”, destaca outro.
Um caso ganhou as redes, com conteúdo publicado em um reels no Instagram: “Sou engenheiro credenciado da Caixa Econômica Federal. A decisão de mudar o sistema de emissão das ARTs, sem ao menos testar se ele funcionava, impede que possamos receber os serviços prestados em novembro. São mais de 200 empresas que vão ficar sem pagamento no mês de dezembro por causa da presidência do conselho”.
Nada novo em 2026
Neste final de janeiro, o sistema segue apresentando erros e impedindo o exercício profissional de muitos no Rio de Janeiro. Como nenhuma experiência é individual e a incompetência jamais vem sem precedentes, os engenheiros amargam hoje o que os médicos já viveram, em meados do ano passado.
Após o colapso do sistema de autoatendimento implementado pela mesma Fattoria no Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro, a autarquia ajuizou pedido para que a empresa estabelecesse em caráter emergencial o sistema pelo qual era responsável. Paralelamente, o conselho passou a trabalhar para a implantação de sistema próprio oferecido pelo conselho federal. O Crea RJ, no entanto, segue insistindo, há meses, sem sucesso, na contratação milionária da empresa.
O que se vê no Rio de Janeiro é um apagão institucionalizado do CREA RJ. Por trás de cada tela de erro, de cada ART não emitida e cada profissional impedido de efetuar seu registro, há contratos rescindidos, obras paradas e famílias prejudicadas. O Crea-RJ, que deveria ser o suporte da categoria, tornou-se o seu principal obstáculo. Para os engenheiros e engenheiras que iniciam 2026 sob a sombra da incerteza, a ‘modernização’ prometida soa mais como um retrocesso caro e sem data para acabar.
CASA DE FERREIRO, ESPETO DE PAU. Este é o CREA RJ da “modernidade”.