‘Baile Inesquecível’: Bad Bunny leva o decolonialismo ao Super Bowl, aponta especialista

Ao exibir bandeiras de todos os países e cantar apenas em espanhol, artista transformou o maior palco dos EUA em manifesto político

A apresentação de cerca de 13 minutos de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl neste domingo (8) foi muito mais do que um espetáculo de entretenimento. Foi um ato político carregado de simbolismo, que celebrou a identidade latina enquanto denunciava suas dores históricas. Para analisar a profundidade desse momento, o Brasil de Fato conversou com Alexandre Barbosa, professor do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc-USP)

“Aquele baile inesquecível foi um resumo do que o Bad Bunny faz de melhor: misturar a festa e a celebração com a denúncia e o protesto”, avaliou Barbosa ao BdF Entrevista 2ª Edição.

O especialista destaca o momento final do show, quando o artista exibiu as bandeiras de todos os países latino-americanos. “Para nós que estudamos o decolonialismo, foi como se tudo o que estudamos estivesse sendo concretizado”.

Barbosa reforça que a América Latina vai além de um conjunto de países de línguas de origem latina. “É o conjunto de nações que sofreram o colonialismo e carregam essas feridas até hoje.” Essa definição ampla inclui desde países hispânicos e o Brasil até nações de fala francesa, holandesa ou inglesa no Caribe, além de territórios como Porto Rico – “Estado associado” aos EUA em uma “situação anômala”.

O professor traça um paralelo entre o reggaeton – ritmo que surgiu nas periferias do Panamá e de Porto Rico – e expressões culturais brasileiras como o samba e o funk. “A cultura popular latino-americana nasce no seio do povo. O samba nasceu nas periferias urbanas, o funk conta as histórias das nossas periferias. O reggaeton fez o mesmo, misturando a batida do reggae com o DNA latino-americano da percussão”, explica.

Assim como o samba e o funk foram e são criminalizados, o reggaeton também sofreu preconceito. A reação negativa do presidente Donald Trump ao show de Bad Bunny – que o chamou de “vergonha para a América” – é, na visão de Barbosa, parte dessa mesma aversão à cultura popular periférica. “Para o Bad Bunny, isso deve ser um grande elogio”, brinca.

Diferente de outros artistas latinos que se “americanizaram” para alcançar o sucesso global, Bad Bunny manteve sua autenticidade. “Nenhuma música do show foi em inglês. Ele está falando com uma enorme massa de espectadores latinos dentro e fora dos EUA”, observa Barbosa.

O professor vê um movimento da indústria cultural dos EUA tentando se aproximar desse público gigante. “Eles sabem que não podem negar esse público. Ainda bem que, quando artistas como Bad Bunny entram nessa indústria, conseguem manter muito da sua raiz cultural.”

O momento atual de projeção da cultura latino-americana não é isolado. Barbosa lembra de ondas similares nos anos 1960, com a Nova Canção Chilena liderada por Violeta Parra, e nos anos 1980, durante os processos de redemocratização. “A cultura é mais efervescente nos momentos em que, política e geopolíticamente, a América Latina está ‘acontecendo’, tentando caminhar com as próprias pernas.”

A conjuntura de governos progressistas alternados com governos de extrema direita, mas fora da “sombra” total do Consenso de Washington, cria um ambiente fértil. “Há vários ‘faróis’ sendo acesos na América Latina, não só Cuba. A cultura é sensível a isso e nós nos identificamos com esses outros faróis”, analisa.

A repressão e a retórica xenófoba, como a de Trump contra imigrantes latinos, também têm efeito reverso. “Toda repressão gera fissuras. O jovem periférico de São Paulo se identifica com a dor do imigrante perseguido. Quando vê um artista cantando essas mazelas, cria uma ligação”, afirma.

O show de Bad Bunny no Super Bowl e a crescente presença de narrativas latinas no mainstream são, nessa visão, sintomas de um movimento maior. “Não se trata de um patriotismo ufanista, mas de soberania. É entender que podemos caminhar com nossas próprias pernas, com nossas dificuldades, mas com nossa riqueza. Apesar de todos os problemas, nesta semana está sendo muito bom ser latino-americano.”

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo e no YouTube do Brasil de Fato.

 

Fonte: Brasil de Fato
Foto: Reprodução/YouTube

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