Cinco transformações ao mesmo tempo: o desafio inédito que os sindicatos enfrentam agora

Sociólogo e ex-diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio afirma que a crise do movimento sindical não é sobre perder relevância, mas sobre inventar, em tempo real, respostas para mudanças que nunca aconteceram antes simultaneamente

Há 200 anos, o movimento sindical vem criando suas próprias respostas diante das transformações do mundo do trabalho. Mas, segundo o sociólogo Clemente Ganz Lúcio, ex-diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o momento atual tem uma particularidade que nenhuma geração anterior de dirigentes sindicais enfrentou: não é uma transformação isolada que precisa de resposta, são cinco delas, simultâneas, se sobrepondo umas às outras. “Não tem uma que está acontecendo agora, outra que vai acontecer daqui a 10 anos, não. Todas estão acontecendo ao mesmo tempo.”

A lista que Ganz Lúcio enumera é de fato impressionante em sua amplitude: a revolução tecnológica da inteligência artificial e da robótica; uma crise ambiental que já produz tragédias concretas, como as enchentes do Rio Grande do Sul; uma transição demográfica que envelhece a população enquanto reduz a taxa de natalidade; uma guerra comercial declarada pelos Estados Unidos contra o resto do mundo; e uma crise da própria democracia, alimentada pela desinformação em escala industrial nas redes sociais. “O movimento sindical está posto, do ponto de vista estratégico, diante de desafios que são inéditos. Trabalhar todas essas mudanças ao mesmo tempo já é uma situação inédita.”

Ganz Lúcio é sociólogo, professor universitário e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, órgão de assessoria da Presidência da República criado em 2003. Sua trajetória no Dieese — instituição que fornece dados técnicos para negociações coletivas em todo o movimento sindical brasileiro — lhe dá um ponto de observação raro: ele não fala como militante de uma pauta específica, mas como quem mede, sistematicamente, o que está de fato acontecendo com a classe trabalhadora brasileira.

A entrevista ao programa Soberania em Debate, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro, percorre esse mapa de transformações e termina numa pergunta concreta para 2026: o que está realmente em jogo no voto de outubro para quem depende de um sindicato forte para garantir direitos básicos? “Não adianta depois chorar porque fez uma escolha por alguém que vai defender a ideia de que nós temos que trabalhar sete dias por semana”, alerta.

O trabalhador que não se vê como trabalhador, mas quer ser

Existe uma narrativa difundida de que a nova geração de trabalhadores de aplicativo rejeita o sindicalismo, prefere se ver como “empreendedor” e desconfia de qualquer regulamentação. Para testar essa hipótese, as centrais sindicais contrataram uma pesquisa nacional com a Vox Populi, ouvindo 4 mil pessoas em idade de trabalhar em todo o Brasil. O resultado surpreendeu o próprio Ganz Lúcio. “Três em cada quatro respondentes da pesquisa dizem que sindicato é uma organização importante. E o número de respondentes que dizem isso é maior entre trabalhadores de aplicativo do que entre servidores públicos, por exemplo.”

A explicação que emerge das entrevistas qualitativas é precisa e desmonta o mito do empreendedorismo voluntário. Quando perguntados se gostariam de ser CLT, muitos respondem que não, mas não porque rejeitem direitos, e sim porque rejeitam a figura do patrão. “Por que que você não quer ser CLT? Porque eu não quero ter um patrão me enchendo o saco, me atormentando o tempo todo. Eu quero ter liberdade”. Na sequência da mesma resposta, porém, vem a pauta clássica dos trabalhadores: “Mas eu queria ter 13º, férias, direitos…” Ganz Lúcio resume a contradição aparente: “Essa história de que os trabalhadores não acham que o sindicato tem que existir, que agora é empreendedor, não é bem assim.”

A pesquisa também revela quem de fato se considera empreendedor: o empresário, e uma parcela específica de autônomos clássicos. O eletricista, o pedreiro que sempre prestaram serviço de forma independente. Os demais, mesmo cadastrados formalmente como autônomos ou MEI, descrevem sua condição de outra forma. “Por que você é autônomo? Porque o emprego que eu acho de CLT é uma porcaria. Porque eu não encontro o emprego que eu gostaria, que eu preciso”. Mais da metade desses trabalhadores, segundo a pesquisa, migraria imediatamente para um emprego assalariado se tivesse essa alternativa disponível, “porque lá eu tenho férias, 13º salário, tenho estabilidade, tenho garantia de continuidade da renda, o que eu não tenho como trabalhador autônomo”.

O ponto que Ganz Lúcio considera mais revelador da pesquisa é sobre proteção social. O trabalhador autônomo aceita, no dia a dia, abrir mão da contribuição previdenciária para maximizar o ganho imediato, até o momento em que precisa dela. “Lá na frente quando? Só quando se aposentar, não. Quando ele se acidentar, quando ele tiver doente, quando a mulher for para a maternidade. Nesse momento ele diz: me falta renda”. A resposta do movimento sindical a isso, segundo ele, precisa ser estrutural: direitos equivalentes para todas as formas de trabalho, não condicionados ao formato jurídico do vínculo. “Uma mulher que é cooperada, que é CLT, que é servidora, que é trabalhadora autônoma, no momento da gravidez, ela tem que ter o direito ao afastamento e à proteção da renda. Não é suficiente dizer que o dia que ela for CLT ela vai ter esse direito. Enquanto não for, ela fica sem. Tá errado.”

O breque dos motoboys é a greve de sempre, com um nome novo

Um dos momentos mais reveladores da conversa é quando Ganz Lúcio conta sobre uma articulação com lideranças de entregadores de aplicativo. “A nossa turma é meio contra a greve”, disse um deles. Diante da resistência ao termo, os próprios trabalhadores criaram sua versão: montaram uma pauta, entregaram à empresa, não tiveram resposta. Então organizaram o que chamaram de “breque”. Resultado: em 24 horas, a empresa atendeu parte das demandas. “Vocês dizem exatamente o que há 200 anos o sindicato faz”, reagiu Ganz Lúcio ao ouvir o relato. “O que vocês estão descobrindo é que para vocês o breque é, na história do sindicalismo, o equivalente à greve. Só que é uma resposta simbólica que tem sentido com o instrumento que vocês trabalham.”

A lógica organizativa subjacente, segundo ele, é idêntica à de qualquer mobilização sindical histórica: escutar os trabalhadores, transformar suas queixas dispersas numa pauta única, escolher o ponto que mobiliza todo mundo, parar coletivamente, eleger uma representação para negociar. “Se vocês chamam de breque, de greve ou de batatinha, não importa. O que importa é que os trabalhadores sabem que se eles não pararem, a empresa não ouve.” A diferença real não está na essência da ação coletiva, mas na forma física que ela assume, porque esses trabalhadores não compartilham o mesmo chão de fábrica. “Eles estão dispersos no mundo, em cima de uma moto, correndo para cima e para baixo. A solidariedade que é possível surgir nesse ambiente é diferente da de um trabalhador que todo dia se encontra no mesmo local, almoça junto, chega junto na fábrica.”

Esse reconhecimento de que a forma organizativa precisa ser reinventada sem abandonar os princípios é, para Ganz Lúcio, o cerne do desafio sindical contemporâneo. “Eles vão inventar a assembleia deles, que talvez não seja a mesma assembleia que o Lula fazia lá na Vila Euclides. É outra assembleia. O que não quer dizer que não tenha participação, nem que não possa gerar a solidariedade e a força que eles vão ter que construir.” A tecnologia que organiza a exploração — o aplicativo, o algoritmo — também pode, na visão do sociólogo, ser apropriada pelos próprios trabalhadores como ferramenta de mobilização: celular, grupos, assembleias remotas.

A agenda concreta das centrais sindicais para 2025-2026 reflete esse esforço de adaptação sem abandono de princípios. A prioridade número um é a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, vitória já conquistada na Câmara dos Deputados, agora em disputa no Senado. “Não basta empatar, tem que ganhar”, resume Ganz Lúcio, usando a metáfora futebolística de duas partidas decisivas. A segunda prioridade é o direito de negociação coletiva para servidores públicos. A terceira é a regulamentação do trabalho mediado por plataformas, em sintonia com a convenção que a OIT discutia naquela mesma semana em Genebra, e que enfrenta resistência pesada das próprias empresas de aplicativo no Congresso Nacional.

A pejotização aparece como o quarto front de batalha, talvez o mais silencioso e o mais extenso em alcance. “Na hora que o trabalhador deixa de ser CPF e passa a ser CNPJ, não tem mais jornada, não tem salário, não tem férias, não tem licença-maternidade. O CNPJ não é uma pessoa provida de direitos. É uma empresa, e essa empresa não tem os direitos que uma pessoa tem.” É um fenômeno que avança silenciosamente sobre categorias que tradicionalmente nunca foram associadas à informalidade, e que Ganz Lúcio considera como uma das grandes batalhas legislativas do próximo Congresso, independentemente de quem o componha.

A inteligência artificial e o aviso que ninguém quer repetir da crise climática

Quando o tema chega à inteligência artificial, Ganz Lúcio recorre a uma comparação que carrega peso histórico. Ele lembra ter lido recentemente a declaração de um executivo de uma grande empresa de IA pedindo que o setor parasse coletivamente para refletir sobre o que está sendo criado: uma tecnologia cujo alcance os próprios desenvolvedores reconhecem não controlar plenamente. “Ele está dizendo que nós estamos na antessala de ter uma tecnologia que pode dominar os humanos. Isso é equivalente a quando, há 20 ou 30 anos, alguém dizia: estamos diante de um problema de mudança climática radical e está na hora de a gente baixar a bola. Nós não baixamos. Estamos recolhendo as tragédias agora.”

O risco que mais preocupa Ganz Lúcio não é abstrato: é eleitoral e informacional. Ele cita o caso do Peru, onde uma eleição presidencial recente se decidiu por uma margem de cerca de 20 mil votos em mais de 24 milhões. “Cada vez mais pessoas estão perguntando à inteligência artificial em quem devem votar. Você pode simplesmente programar essa inteligência artificial para responder que, no Brasil, ela tem que votar em tal candidato.” A manipulação algorítmica do processo democrático, segundo ele, já não é hipótese de ficção científica, mas um risco concreto e mensurável, comparável ao avanço do celular sobre a infância: alguns países já proíbem o acesso de menores de 14 anos por evidências de impacto sobre saúde mental e sociabilidade.

A distinção crucial que Ganz Lúcio estabelece e que ele considera dever orientar toda a ação sindical sobre o tema, é entre tecnologia que potencializa o trabalho humano e tecnologia que o substitui inteiramente. Ele usa o próprio ofício jornalístico da entrevistadora como exemplo: “Eu digito aqui uma coisa e peço para escrever um artigo segundo o que a Beth Costa pensa, e em 30 segundos ele me entrega um artigo como se fosse você que tivesse escrito. E posso colocar no texto coisas que eu acredito para você dizer naquele artigo”. A diferença entre as duas aplicações da mesma tecnologia, segundo ele, não está na ferramenta, mas na escolha política sobre para que ela serve. “Uma máquina que te ajuda a fazer um trabalho mais qualificado é uma coisa. Uma máquina que veio para te tirar do trabalho, é outra.”

É exatamente nesse ponto que Ganz Lúcio situa a tarefa histórica do movimento sindical neste momento: não rejeitar a tecnologia, mas disputar sua finalidade em cada espaço de poder disponível: na negociação coletiva, na legislação, nas políticas de inovação tecnológica do Estado. “Nós temos que criar política e dizer: até aqui vai, a partir daqui não vai. É uma briga o tempo todo, e vai ser uma briga pesada pela frente”. A urgência, conclui, não é tecnológica nem distante. É a mesma urgência das eleições de outubro, onde a composição do Congresso decidirá se o Brasil segue na direção da pauta histórica dos trabalhadores ou na direção da chamada “PEC da liberdade”, que propõe permitir jornadas de até 12 horas diárias, sete dias por semana. “Tem parlamentar eleito pela própria sociedade que está propondo esse tipo de coisa. As pessoas precisam saber que votaram nisso, e que ainda dá tempo de fazer diferença.”

O programa Soberania em Debate, projeto do movimento SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube todas as quintas-feiras, às 16h. Apresentação e roteiro são da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil.

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