Um olhar amplo, realista e generoso — de sanitarista, sindicalista, gestor público, militante partidário e cidadão — sobre três Brasis: o país que foi ao longo de sua história, o que passou a ser após os primeiros governos Lula e o que é hoje, mergulhado na crise precedida pela ascensão da extrema-direita no mundo. Esse passeio sobre memória, possibilidades e desafios foi o tom da entrevista de Clovis Nascimento, presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE RJ), à jornalista Hildegard Angel, no último sábado (08).
Presidente de uma entidade que representa 12 mil dos 101 mil engenheiros do estado do Rio de Janeiro, Clovis trouxe para o centro do debate a necessidade de resgatar o orgulho da engenharia nacional e a função social das empresas públicas. Um desafio em enfrentamento contínuo, com mais ou menos sucesso a depender dos ventos políticos e, principalmente, do nível de consciência de um povo que acorda, trabalha e dorme anestesiado, enquanto perde direitos e patrimônio para uma elite que ainda pensa na lógica escravocrata.
Embora se conheçam de longa data e estejam do mesmo lado no que diz respeito a um projeto de país, Hildegard não se furtou a tocar em temas sensíveis. As provocações passaram pela ocupação de cargos técnicos por profissionais da militância, pelas contradições impostas pela conjuntura e pela cultura escravocrata das elites.
Assista na íntegra:
A Engenharia no Coração do Poder Público
Para Clovis, a ocupação de cargos técnicos por lideranças partidárias em governos democráticos não é apenas natural, mas necessária para a execução de um projeto de país. Se são as decisões políticas sobrepostas às técnicas que constroem o país, o gestor e o técnico precisam estar em consonância para que o projeto seja realizado. Foi o caso das realizações em Guaribas, no Piauí, em sua passagem pelo primeiro governo Lula, quando integrou a equipe de Olívio Dutra no Ministério das Cidades.
“Chegamos em fevereiro, logo após a posse do presidente Lula e, em dezembro, inauguramos o sistema de água de Guaribas. Antes, a população dividia um açude de água marrom com animais”, relembra. Em ação emergencial, um sistema de decantação sucessiva e desinfecção entregou água límpida à população. A medida paliativa foi comemorada pelo munícipes e, em dezembro, o objetivo final foi atingido: levar a água até a torneira das casas dos moradores do município, dignidade a quem nunca teve o básico. Segundo ele, o sucesso daquela era deveu-se à visão de Lula, que une “inteligência privilegiada à vivência na pele das dores do povo brasileiro”.
O presidente do Senge RJ, que também presidiu a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) e a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES, lembrou ainda do trabalho realizado por Olívio Dutra na construção da primeira Conferência Nacional das Cidades, após escutar, nas conferências estaduais e municipais todos os municípios do Brasil.
O Retrocesso da Privatização: O Caso da Água
Para explicar o atual momento do país no saneamento e no direito à água, Clovis lembrou a privatização do saneamento. O sanitarista foi categórico: “Quando iríamos imaginar que privatizaram a água? Um direito do cidadão e dever do Estado. Onde não há água, não há vida”, destacou, lamentando a entrega das empresas do setor ao capital privado. Ex-funcionário da Cedae, deu destaque ao que ocorreu com a empresa.
“A Cedae pública não visava lucro. A tarifa era calculada sobre o custo de operação. Hoje, a conta deu um salto porque a tarifa é remunerada pelas taxas de mercado. Infelizmente, a população não se dá conta disso porque é um debate técnico. Nem mesmo a destinação do orçamento público tem mais a participação social”, pontua.
Ele cita o exemplo de países como Inglaterra e França, que reestatizaram seus sistemas de água após falhas do modelo privado, contrastando com o caminho inverso tomado pelo Brasil.
“Não fique só, fique sócio”: O Sindicato como Resistência
Sobre o cenário sindical, Clovis denunciou o “ferimento de morte” causado pelo governo Temer ao extinguir o imposto sindical sem transição para outro modelo. Ele explicou que o SENGE RJ se mantém através das vitórias jurídicas em nome de trabalhadores e trabalhadoras.
O sindicato tem sido o braço forte na implementação do Salário Mínimo Profissional em órgãos como a Comlurb e a CET-Rio, além de garantir o adicional de periculosidade para engenheiros da antiga Furnas/Eletrobras, hoje Axia. “O slogan ‘Não fique só, fique sócio do SENGE RJ’ resume nossa essência. Mesmo que o engenheiro queira empreender uma luta individual contra um abuso corporativo, o sindicato luta em nome dele através de seu setor jurídico. Enquanto os advogados praticam uma taxa de 30% em caso de sucesso, nós cobramos 20% para o não associado e 10% para o associado”, explica.
O sustento ddas entidades pelo resultado de seu trabalho nas mesas de negociações e no ajuizamento de causas justas, em defesa do trabalhador, sempre foi defendido pelos sindicatos CUTistas. A questão está em debate no âmbito da nova política sindical brasileira, no Congresso. A perspectiva é que a cota sindical seja definida em assembleia, onde o direito de oposição seria plenamente considerado. Após definida por voto dos próprios trabalhadores, porém, o valor justo do sindicato será garantido. Hoje, é possível apresentar carta de oposição, documento que exime o beneficiado de contribuir pelo trabalho do sindicato em causas ganhas e negociações entre trabalhadores e patrões.
Consciência de Classe e o Futuro
Ao analisar a atual apatia social e a resistência de parte da elite brasileira, Clovis atribui o cenário a uma herança escravocrata ainda não superada. Para ele, o desafio do atual governo é comunicar as conquistas, como os menores índices de desemprego da história, e combater a “bitolação” de setores extremistas que saíram do armário nos últimos anos.
Clovis encerrou a conversa com a serenidade de quem acredita no resultado prático da luta política: “O discurso é efêmero, mas a prática fica para a posteridade”. Sua trajetória, entre as pranchetas de grandes sistemas de abastecimento e drenagem, bases sindicais e militância política permanece como contribuição fundamental na construção de um Brasil mais soberano e popular.