Desafios e avanços na COP30: uma visão social e popular

Em entrevista ao programa Soberania em Debate, Jorge Antônio "Cacá" apresenta os avanços em Belém, as contradições dos combustíveis fósseis e a busca pela construção de uma agenda comum para 2027

A realização da COP30 em Belém não foi apenas um evento diplomático, mas um marco para o movimento socioambiental brasileiro. Em entrevista ao programa Soberania em Debate, Jorge Antônio “Cacá” traçou um panorama histórico que remonta à Rio92 para explicar como o Brasil conseguiu imprimir um “colorido novo” às negociações climáticas na última COP, em Belém: a contundência da participação social e o protagonismo dos povos originários.

Cacá destacou que, embora o cenário global seja de tensões comerciais e militares, a COP no Brasil logrou êxito ao incluir temas que ficavam à margem em edições anteriores. “Foi fundamental a participação de povos indígenas e populações locais no reconhecimento de seu papel na proteção das florestas e na criação de mecanismos para aceleração de metas”, afirmou.

As contradições, no entanto, existem e não são poucas, especialmente no que tange aos combustíveis fósseis. Jorge pontuou que o Brasil vive um dilema ético e econômico na Margem Equatorial. “A pergunta central é se esses recursos serão revertidos para a sociedade ou se apenas alimentarão os atores de sempre”, provocou, ressaltando que essa discussão foi um dos pilares dos debates paralelos.

A Força da Zona Verde

Diferente da Zona Azul (onde ocorrem as negociações oficiais entre Estados), a Zona Verde foi o espaço de articulação dos movimentos sociais, uma novidade nos eventos da ONU para o clima. Cacá relatou a experiência de entidades do Rio de Janeiro que levaram diagnósticos locais para o debate nacional, abordando temas críticos. As informações são resultado de um grande encontro realizado no Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro, que reuniu diversas lideranças do movimento social que representam entidades que marcaram presença em Belém durante a COP30.

Tocado pelos movimentos sociais, o debate alcançou temas locais vividos em todo o país: o licenciamento ambiental usado como moeda de troca, promovendo devastações; o seneamento e a destinação dos resíduos sólidos, intimamente relacionado à questão hídrica; a matriz energética e o papel fundamental dos engenheiros na discussão das contradições da transição para energias limpas, entre outros. Jorge destaca que, apesar de serem sentidos e vividos localmente, no cotidiano das pessoas, são desafios nacionais, comuns para muitos brasileiros de diferentes estados e municípios do país. Esta troca, segundo ele, nem sempre acontece.

Sobre o impacto do cenário político dos EUA, Cacá foi enfático ao lembrar que o debate sobre o clima já é uma realidade irreversível em todos os continentes. “O chão de fábrica é o meio ambiente no Brasil e na América Latina. Independentemente da participação dos EUA, o debate acontece porque todos os países já vivenciam as mudanças climáticas”, avaliou.

A grande tarefa agora, segundo ele, reside no acompanhamento das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas). O objetivo é promover uma discussão profunda sobre o que o Brasil e o mundo apresentaram como metas. “Precisamos de um conhecimento maior do que foi realmente apresentado para fiscalizar se as promessas serão cumpridas nos prazos propostos”, alertou.

Uma Agenda Comum para 2027

Olhando para o futuro, o foco está na organização e na renovação da participação social, especialmente com a inclusão da juventude e o enfrentamento dos desafios tecnológicos e laborais.

Jorge Cacá revelou que o próximo passo será a elaboração de uma consulta às lideranças que participaram dos encontros no Senge-RJ para consolidar uma agenda comum. A meta é que essa articulação ganhe corpo ao longo de 2026 para que, no início de 2027, o movimento entregue um posicionamento consolidado ao novo governo eleito. “Queremos buscar agendas que tenham identidade para agirmos juntos, maximizando nossa participação e incidência política”, finalizou.

O programa Soberania em Debate, projeto do SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTubetodas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra e redação de Rodrigo Mariano. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT, Canal do Conde, e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil.


Foto: Bruno Perez/Agência Brasil

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