Dsafios da percepção popular: Como as pesquisas e a conjuntura moldam o cenário para 2026

Em entrevista ao Soberania em Debate, sociólogo Marcos Coimbra analisa a desconexão entre aprovação de governo e intenção de voto, alertando para o papel das redes sociais e a resistência das elites

O cenário político brasileiro para as eleições de 2026 apresenta complexidades que vão além da simples análise de dados estatísticos. Em recente participação no programa Soberania em Debate, projeto do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE-RJ), o sociólogo e diretor do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, trouxe luz a questões fundamentais sobre como o eleitor processa informações em um mundo saturado por redes sociais e crises institucionais.

Durante a conversa, Coimbra destacou que a influência da conjuntura internacional nas decisões do cidadão comum é, muitas vezes, superestimada. Para ele, embora o cenário global dite as condições econômicas objetivas do país, o interesse da população por temas externos permanece mínimo, com as escolhas eleitorais sendo pautadas por questões concretas e imediatas do cotidiano, como o bairro, a rua e a economia doméstica.

Um dos pontos centrais do debate foi a análise do risco de retrocesso democrático. Coimbra enfatizou que a ameaça de rupturas não é apenas uma “fantasia de conspiração”, mas uma característica de um país com elites historicamente excludentes. Segundo o sociólogo, o Brasil vive um período de 12 anos de recrudescimento dessa vontade das elites de recuperar um “lugar natural de mando”, processo intensificado desde a reeleição de Dilma Rousseff em 2014.

Ao comentar sobre a resiliência do campo progressista, o sociólogo pontuou que, apesar da desmoralização promovida por setores da mídia e do judiciário na última década, a base eleitoral da esquerda permanece sólida. “É extraordinário que apesar disso tudo, o PT nunca fez menos do que esse teto. Com tudo o que aconteceu, o PT fez 45% no segundo turno com o Haddad em 2018”, observou, reforçando que o favoritismo de Lula para a reeleição é real, mas enfrentará um piso conservador elevado.

A Desconexão entre Aprovação e Voto

Um dos fenômenos mais intrigantes da política atual é a baixa aprovação de líderes mundiais, mesmo diante de resultados econômicos positivos. Marcos Coimbra explica que vivemos em uma era de “frustração universal” com o capitalismo contemporâneo, que concentra riqueza de forma extravagante enquanto a massa da população sente a estagnação. No Brasil, isso se reflete em uma avaliação do governo Lula que não necessariamente caminha junto com a intenção de voto.

“Intenção de voto e avaliação de governo são duas coisas que caminham separadas. O Bolsonaro tinha 25% de aprovação no início do ano eleitoral e 50% de ruim e péssimo, e no segundo turno ele fez quase 49% do voto. Tem uma lógica da decisão eleitoral que não é a da aprovação do governo.”

Essa lógica explica por que pesquisas realizadas muito antes do pleito costumam errar o resultado final. O sociólogo defende que cerca de 50% da população brasileira tem pouco ou nenhum interesse por política, decidindo seu voto apenas na “reta finalíssima”, o que torna o cenário altamente volátil e sujeito a movimentos de última hora que os levantamentos precoces não conseguem captar.

O Poder das Redes e a “Jaula” Digital

A manipulação da opinião pública através das plataformas digitais foi apontada como uma das maiores preocupações para os próximos ciclos eleitorais. Coimbra alertou para os mecanismos das grandes empresas de tecnologia que fidelizam o usuário em “câmaras de eco”, onde ele apenas ouve o que já acredita, facilitando a radicalização política em curtos períodos de tempo.

“Você passa a ser cliente de um pequeno mundo que te é fornecido sistematicamente pelos provedores. Tem pesquisa sobre quanto tempo leva para uma pessoa com predisposição se tornar um direitista militante apenas por estar algumas horas do dia ligado nas redes que dão dados próximos do que ela manifestou interesse.”

Para o diretor do Vox Populi, a solução passa obrigatoriamente pela regulação das plataformas, embora reconheça o imenso poder financeiro e de desestabilização que essas empresas possuem. Ele destaca que o ataque constante ao judiciário brasileiro por setores da extrema direita e por bilionários da tecnologia é uma estratégia para enfraquecer os mecanismos de controle que tentam preservar a verdade no debate público.

O Ceticismo com a Renovação Parlamentar

Ao ser questionado sobre a possibilidade de mudança no Congresso Nacional, Coimbra mostrou-se cético. Ele descreveu o modelo de relacionamento entre o Executivo e o Legislativo herdado do governo anterior como um dos mais “deletérios” da história, onde a distribuição massiva de emendas parlamentares cria uma desigualdade profunda na disputa eleitoral entre quem já detém o mandato e novos candidatos.

“O que o Bolsonaro e sua equipe de gênios fizeram foi dizer: ‘Vocês querem dinheiro? Vocês vão ter’. Hoje se estima que 50 milhões de reais foram transferidos por deputado para gastar como quiser. Isso estabelece um padrão de concorrência completamente desigual em relação aos novos candidatos. Se eleger custa dinheiro e a reeleição passou a ter 50 milhões de dianteira, não importa se você é de direita ou esquerda. Basta ter uma boa relação, diálogo com o presidente da Câmara”, destaca.

Essa “couraça financeira” protege os atuais parlamentares, dificultando a renovação que o campo progressista tanto almeja. Segundo o sociólogo, a taxa de renovação parlamentar pode ser uma das menores da história, já que o uso do dinheiro público para fins personalistas descaracteriza as políticas nacionais em favor de interesses privados nos redutos eleitorais, consolidando o poder de quem já está em Brasília.

Apesar dos desafios impostos pela conjuntura, o sociólogo diz estar muito otimista com as eleições deste ano, não só pelos muitos pontos positivos que Lula poderá apresentar, mas porque Flávio Bolsonaro, segundo Coimbra, é um dos piores nomes possíveis para representar o bolsonarismo. “Um cidadão que nada fez para se eleger senador e, uma vez senador, seguiu fazendo nada. É uma figura ridícula. Se a escolha do cidadão fosse entre Lula e um bom candidato da centro-direita, o presidente ainda seria o favorito. Mas, contra Flávio, ele é muito favorito. A política é na vida real, numa hora real, então não dá para decretar nada. Mas em termos de favoritismo, sinceramente, eu acho que este é o pior candidato que a direita já teve para oferecer e essa é, provavelmente, a eleição menos complicada”, finalizou.

O programa Soberania em Debate, projeto do SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube, todas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra e redação de Rodrigo Mariano. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT, Canal do Conde, e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil. A temporada 2026 do Soberania em Debate começa no dia 05 de fevereiro.

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