Eleições 2026 e soberania nacional: os desafios para um projeto democrático no Brasil

Em entrevista ao Soberania em Debate, José Genoino analisa o cenário político, aponta riscos de ingerência externa e defende mobilização popular para garantir transformações estruturais

O cenário político para as eleições de 2026 já começa a se desenhar como um dos mais desafiadores da história recente do país. Em meio a tensões internacionais, disputas geopolíticas e profundas desigualdades internas, o debate sobre soberania nacional ganha centralidade na definição dos rumos do Brasil.

Esse foi o eixo da conversa com o ex-deputado federal José Genoino, convidado do programa Soberania em Debate, iniciativa do projeto SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE-RJ). A análise percorreu desde a crise global até os dilemas da esquerda brasileira diante do próximo pleito.

Para Genoino, o Brasil não enfrenta apenas uma disputa eleitoral convencional, mas um momento decisivo de definição de projeto de país. Mais do que conter a extrema direita, será necessário avançar em mudanças estruturais que articulem democracia, justiça social e autonomia nacional.

Ao longo da entrevista, o ex-parlamentar também destacou a importância da mobilização popular, criticou a dependência tecnológica do país e alertou para riscos de interferência externa no processo eleitoral brasileiro.

Soberania nacional no centro do debate

Segundo Genoino, a eleição de 2026 será marcada pela centralidade do tema da soberania nacional, impulsionada por um cenário internacional instável e pela atuação de grandes potências. Para ele, o Brasil precisa reafirmar sua capacidade de decisão diante de pressões externas.

Ele avalia que o conceito de soberania deve ser compreendido de forma ampla, envolvendo não apenas a dimensão territorial, mas também aspectos econômicos, tecnológicos, culturais e sociais. Nesse sentido, a autonomia do país passa diretamente pela melhoria das condições de vida da população.

“Soberania é muito mais do que independência formal. É a capacidade de um país decidir seus caminhos, escolher suas alianças e garantir bem-estar ao seu povo. Ela envolve o terreno econômico, social, cultural e tecnológico. Sem isso, não há soberania real”, afirmou.

Além disso, Genoino alerta para a possibilidade de ingerência internacional nas eleições brasileiras, lembrando que o país possui histórico de intervenções externas e ocupa posição estratégica na América Latina.

Mobilização Popular e a “Eleição de Time”

Para enfrentar o dilema das alianças políticas, Genoino propõe a formação de um polo estratégico de esquerda que se oponha ao neoliberalismo e à financeirização. Ele defende a “governabilidade tensionada”, onde o governo negocia com as instituições, mas mantém a capacidade de enfrentamento e mobilização social. O objetivo seria evitar que a esquerda seja domesticada pela classe dominante autoritária.

O entrevistado sugeriu que a campanha de 2026 seja encarada como uma “eleição de time”, focada no projeto coletivo e não apenas em candidaturas individuais. Isso envolveria uma unidade maior entre partidos como PT, PSOL, PCdoB, PSB e movimentos sociais para disputar a subjetividade da população, combatendo a lógica do medo e do ódio com a construção de esperança e futuro.

“A esquerda tem que voltar a ser a protagonista de disputar a subjetividade das pessoas. Uma subjetividade transformadora, emancipadora. Se a gente ficar nos limites do status quo, nós estamos derrotados. Nós temos que ter muita ousadia, muita sabedoria e cabeça fria e coração quente para poder fazer uma das campanhas mais difíceis da nossa história”.

Três eixos para um projeto de país

Na avaliação do entrevistado, o campo progressista precisa organizar sua atuação a partir de três eixos fundamentais: soberania nacional, democracia e direitos sociais. Esses pilares, segundo ele, devem orientar tanto o debate eleitoral quanto a ação política concreta.

O ex-deputado defende que não basta resistir à extrema direita — é necessário apresentar um projeto estruturado de transformação, capaz de enfrentar desigualdades históricas e redefinir o papel do Estado. Isso inclui reformas institucionais, ampliação de direitos e revisão de políticas econômicas.

“O desafio de 2026 não é apenas conter a extrema direita. É realizar transformações estruturais. Precisamos de um projeto nacional que articule soberania, democracia e direitos do povo. Sem isso, ficamos presos ao pragmatismo e não mudamos o país”, destacou.

Entre as propostas apontadas estão mudanças no sistema político, revisão do orçamento público, fortalecimento de políticas sociais e enfrentamento das desigualdades em suas múltiplas dimensões — econômica, racial, regional e de gênero.

Mobilização popular e soberania digital

Outro ponto central da análise foi a necessidade de reconstrução da mobilização social. Para Genoino, a esquerda perdeu presença nas ruas e precisa retomar o trabalho de base, combinando ação institucional com organização popular.

Ele defende que a disputa eleitoral não pode se limitar às campanhas tradicionais, sendo fundamental investir na formação política, no diálogo direto com a população e na construção de um projeto coletivo.“Não basta ter um pé no governo. É preciso ter um pé nas ruas. Sem mobilização popular, sem organização e sem disputar corações e mentes, a esquerda perde força. A eleição é também uma batalha de ideias e de esperança”, afirmou.

Nesse contexto, a soberania digital aparece como um novo campo estratégico. Genoino critica a dependência do Brasil em relação às grandes empresas de tecnologia e alerta para os riscos dessa vulnerabilidade, que envolve desde dados públicos até infraestrutura crítica.

“Nós não construímos plataforma, interesses estratégicos. Foi um grande equívoco. As big techs são tão arrogantes que nem querem respeitar a lei brasileira. A soberania digital é peça-chave, porque nós não podemos deixar que um país do tamanho do nosso seja capturado pelas informações de empresas como a Microsoft, Google e Amazon”, alertou.

Para ele, garantir autonomia tecnológica será essencial não apenas para a segurança nacional, mas também para a própria democracia, diante do papel crescente das plataformas digitais na formação da opinião pública.

O programa Soberania em Debate, projeto do SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube, todas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra e redação de Rodrigo Mariano. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT, Canal do Conde, e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil. A temporada 2026 do Soberania em Debate começa no dia 05 de fevereiro.

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