Encontro Pós-COP30: urgência na mobilização popular contra o Colapso Climático

Sociedade civil organizada, entidades de classe e academia aprovam propostas para uma agenda comum para o estado do Rio de Janeiro no enfrentamento aos desafios impostos pelo colapso climático — e miram em pressão por avanços mais concretos nos acordos firmados entre Estados na Cúpula do Clima da ONU

Radicalizar o discurso, intensificar a mobilização social e pressionar os candidatos a cargos eletivos em 2026 para que assumam compromissos firmes contra o colapso climático. Esses foram alguns dos caminhos apontados por representantes dos movimentos sociais, entidades de classe e da academia durante o Encontro Pós-COP30, realizado no último dia 30 de janeiro, no Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE RJ).

Reflexo de uma conferência global que escancarou desigualdades sociais e étnicas, o evento pensado como um balanço da COP30 pelo olhar de quem esteve lá, teve a urgência como tom. Em um auditório cheio, acompanhado por cerca de 50 pessoas em modelo remoto pelo Zoom e Youtube, ativistas que tiveram a oportunidade de ir até Belém para participar da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima transmitiram suas impressões sobre o evento e, com base nelas, aprovaram propostas para uma agenda comum de enfrentamento sobre a questão climática no estado do Rio de Janeiro.

Este é um Sindicato que tem história nas lutas sindicais, sociais e ambientais. O SENGE-RJ preza pela articulação dos movimentos suprapartidários, dos movimentos sociais, sindicais, e ambientais, em defesa da soberania nacional, da democracia, em defesa das lutas sociais que priorizam o atendimento às demandas da maioria da sociedade brasileira”, destacou Jorge Antônio Cacá, diretor do SENGE RJ e coordenador do evento.

“Este Encontro foi pensado e organizado por muitas cabeças, braços, pernas e mãos. Em curto período de tempo foi mobilizada uma quantidade significativa de lideranças, fruto de uma ação coletiva. Hoje queremos conversar com vocês presencialmente e virtualmente, lideranças que representam muitas entidades, instituições, movimentos, redes sociais, para construirmos ações conjuntas que amplifiquem as nossas reivindicações ambientais”, disse. 

Uma rica, plural e porodutiva conversa aconteceu ao longo da tarde e início da noite. E não foi apenas um documento final que não reflete a urgência necessária para enfrentar a crise climática que apareceu entre as muitas manifestações da tarde: os relatos foram de insatisfação com a falta de acesso e às decisões saídas da Zona Azul (Blue Zone), área reservada às delegações dos países membros e imprensa hegemônica, à pouca atenção às plenárias e às importantes ausências na Zona Verde (Green Zone), espaço do Governo Federal aberto à sociedade civil.

A partir dos debates, buscando atuar diretamente na gestão pública fluminense na área ambiental, as entidades presentes aprovaram propostas que, agora, passam a integrar e nortear suas agendas oficiais. Confira as propostas:

 


PROPOSTAS APROVADAS NO ENCONTRO PÓS-COP30

1. Agenda Ambiental Conjunta
1.1- Promover, em 2026, ações e atividades conjuntas entre organizações e movimentos.
1.2- Mobilizar, convocar e participar coletivamente das ações conjuntas.
1.3- Produzir ações criativas, com maior dinamismo nas redes sociais.
1.4- Elaborar a lista integrada das ações e atividades programadas pelas instituições.

2. Ato ou Marcha Socioambiental
2.1 – Manter articulação com lideranças, entidades e movimentos socioambientais do Rio de Janeiro, visando a construção de uma manifestação unitária, reunindo movimentos sindicais, sociais e ambientais, com posicionamentos estratégicos diante das eleições estaduais e nacionais.
2.2 – Realizar um grande Ato ou Marcha Socioambiental, reunindo entidades e coletivos mobilizados, contemplando todas as demandas e lutas.

Referência: O Dia Mundial do Meio Ambiente, em 05/06/2026 (sexta-feira), integra a Semana do Meio Ambiente, marcada por diversas atividades. Propomos realizar o ato no início ou no final da semana, com data, horário e local definidos coletivamente. Objetivo repercutir nacionalmente, articulando os diversos movimentos.

3. Documentos e Cartas
3.1- Reunir e disponibilizar todos os documentos, manifestos e cartas ambientais relacionados à COP (ex.: Carta da Rede Favela, Carta da Cúpula dos Povos).
3.2- Divulgar esses materiais, promover debates e difundir seus conteúdos.

4. Encontro Pós-COP 30
4.1 – Realizar, em 2026, encontros para apresentação de propostas e agendas ambientais conjuntas, fortalecendo a articulação no RJ e no Brasil.
4.2 – Organizar um seminário dinâmico, com debates e diálogos, antes do Encontro Diplomático Internacional na Colômbia (abril/2026), que reunirá países do G77, coordenado por Colômbia e Holanda, com secretariado do Brasil.
Referências: A Pré-COP 31 ocorrerá no Pacífico, presidida pela Austrália. A COP 31 será realizada na Turquia. O Brasil seguirá presidindo os trabalhos da COP 30 até a Pré-COP 31.

5. Eventos Temáticos
5.1 – Energia: promover debate sobre as diferentes matrizes energéticas.
5.2 – Fundo Clima: promover palestra sobre o Fundo Clima do BNDES, que financia ONGs e empresas.
5.3 – NDCs: promover uma apresentação sobre as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), metas de redução de emissões no âmbito do Acordo de Paris.
5.4 – DIEESE: Promover a apresentação do estudo sobre negociações coletivas dos últimos 5 anos, que incorporam cláusulas ambientais em acordos trabalhistas.
5.5 – Mobilização e sensibilização de profissionais e estudantes das diferentes áreas de formação (tenológica, biológica e humanas) ressaltando a importância da educação ambiental e da integração da sustentabilidade nos projetos.

6.1- Juventude
Priorizar em 2026, mobilização e formação da juventude (principalmente a juventude negra), para o atual cenário, garantindo o acesso à informação, espaços de debate e protagonismo juvenil nas pautas socioambientais.

6.2 – Racismo Ambiental
Promover letramentos racial, ambiental e climático.
Enfatizar a realidade das áreas metropolitanas e periféricas, mais vulneráveis ao racismo estrutural e ambiental.
Fortalecer o protagonismo das juventudes negras e afro-indígenas nos debates sobre meio ambiente e crise climática.

6.3 – Mulheres
Reconhecer e enfrentar as múltiplas violências sofridas pelas mulheres, inclusive no campo político.
Valorizar o protagonismo feminino nas lutas sociais e ambientais.
Destacar a vulnerabilidade das mulheres negras frente às mudanças climáticas e à violência estrutural.
Avançar no debate sobre feminismo negro, assegurando visibilidade e protagonismo às mulheres.
Combater a violência de gênero e a desigualdade salarial que afeta as mulheres, exigindo políticas públicas que tratem do tema.
Referência: Mulheres catadoras de materiais recicláveis precisam de creches e rede de apoio.

7. Câmaras Municipais Educadoras e Sustentáveis
Sociedade civil estimular e apoiar a adesão das Câmaras Municipais no Programa “Câmaras Municipais Educadoras e Sustentáveis” da ABRACAM, para capacitação de vereadores e servidores para que as Câmaras Municipais atuem como espaços de educação cidadã e socioambiental. O Programa propõe um caminho seguro para capacitação e conscientização, fortalecendo a democracia participativa e a sustentabilidade local.

 


Movimentos sociais pela consciência

“É fundamental este encontro pós-COP porque ainda vivemos em meio a um forte negacionismo no Brasil e no mundo. Após muitos retrocessos do governo Bolsonaro em relação à pauta ambiental, o governo Lula vem promovendo um resgate, mas que ainda se mostra muito difícil”, apontou Maria Aparecida Souza, diretora do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro. A dirigente sindical relatou que, em Belém, foi a mobilização dos movimentos sociais que se destacou em sua experiência.

Foto: Bárbara Dias / Rede Favela Sustentável / ComCat

“Era ali que estavam os povos indígenas, os trabalhadores, as mulheres, os movimentos contra o racismo e ambientalistas, unidos em prol de uma conscientização ambiental. Eu acho que esse é o principal desafio nosso aqui no Rio de Janeiro: elevar a consciência da população carioca em relação à questão ambiental, a importância de levantar essa discussão”, defendeu. Maria Aparecida lembrou, ainda, que as eleições que se aproximam são fundamentais para a pauta ambiental, diretamente relacionada aos direitos sociais: “Estamos em um ano eleitoral, momento propício para dialogar com candidatos de todos os níveis e cobrar comprometimento com as questões ambientais”.

Para alguns dos representantes de entidades presentes, a atuação dos movimentos sociais representa mais que o apoio ao que foi acordado entre Estados em Belém, mas a única saída viável para que o tema ocupe o espaço que merece, subindo na hierarquia de governos que, hoje, não estão dispostos a traçar suas agendas nos abundantes alertas da ciência.

“Não era realista esperar avanços nas resoluções entre os países. Não deu em nada e ninguém está realmente surpreso. A tendência é que os setores agro-mineradores avancem, que o Brasil vire uma república do agronegócio. É isso que temos que enfrentar nesta crise, que é uma crise de destino. Precisamos de uma virada no processo. Nós temos que aumentar a escala, aumentar a voz. Ou radicalizamos a análise e o discurso, ou nós vamos ficar no ambientalismo verde que, de verde, só tem o dólar”, apontou Alexandre Pessoa, professor e pesquisador da Fiocruz.



Zona Verde

Foto: Bárbara Dias / Rede Favela Sustentável / ComCat

A Zona Verde, espaço destinado a conectar a sociedade civil, instituições públicas e privadas, líderes globais e dar visibilidade para soluções e parceiros comprometidos com uma abordagem ambiental e social de governança e diálogo internacional, foi o espaço acessado pela sociedade e movimentos sociais. Entre os ativistas que estiveram presentes, o olhar crítico preocupou: em momento de tamanha urgência e gravidade, os stands do grande capital vendendo um verniz verde que o cotidiano não sustenta causaram inquietação.

“A Zona Verde parecia dedicada à economia verde, ao capital. E isso estava em todo lugar. O alimento era caro e ruim. Não se via os movimentos sociais preparando e vendendo alimentos ali, como na Cúpula dos Povos. Empresas apresentando seus produtos, uma deseducação ambiental, uma educação do capital. Uma vergonha”, apontou Alexandre.

Jacy Menezes Jr, representante da Federação das Trabalhadoras e dos Trabalhadores no Ramo Financeiro do Estado do Rio de Janeiro (Federa RJ), conta que desistiu do espaço assim que entrou. “Na Zona Verde, fomos surpreendidos com um stand da Federação Nacional dos Bancos (FENABRAN). Aquilo foi um sinal para a gente concentrar nossos esforços onde o debate estava fluindo, na Universidade Federal do Pará”, destacou. 

A esperança nas ruas e na militância

Enquanto diplomatas, Chefes de Estado e representantes do agronegócio preparavam um documento incapaz de dar respostas à crise mundial na Zona Azul e a Zona Verde não encontrava eco nas negociações, a força das ruas foi, mais uma vez, o farol de esperança em tempos sombrios. “Para além da Green Zone e da Blue Zone, muitas instituições estavam produzindo suas próprias agendas na cidade. A sociedade civil estava se movimentando, inclusive em direção às periferias de Belém”, lembrou Thaysa Santos, da Rede Favela Sustentável.

Foto: Bárbara Dias / Rede Favela Sustentável / ComCat

A Marcha Global do Clima, que levou 70 mil pessoas às ruas de Belém, se destacou como o momento em que toda essa potência excluída das zonas de negociação mais se fez escutar. Plural, internacional, a multidão em marcha mostrou a força da sociedade civil durante o evento. Esta força percebida pelos participantes é agora onde mora a certeza da capacidade de mudar de fato o destino determinado pela diplomacia global.

“A COP30 mostrou que o Brasil tem uma sociedade civil como nenhum outro país. E ela estava em massa em Belém. Ver isso de perto aqueceu o coração de todos que estavam lá”, destacou Theresa Williamson, da Comunidades Catalisadoras (ComCat). Ela destacou a importância dos primeiros meses de 2026 para intervir nas negociações no âmbito da ONU, uma vez que o Brasil segue na presidência da COP até passá-la à Turquia, processo que se concretiza a partir de meados do ano.

Através da atuação direta e militante da sociedade civil, a ativista acredita na mudança. Ela apresentou números da COP30 e da Cúpula dos Povos, evento paralelo organizado pela sociedade civil, que demonstram avanço em relação às cúpulas anteriores. A Green Zone recebeu 50 mil pessoas durante o evento e a declaração final da Cúpula dos Povos contou com assinaturas de 65 países. Realizada na Universidade Federal do Pará, a Cúpula dos Povos recebeu 20 mil pessoas e 300 veículos de imprensa.

Theresa lembrou que há muito potencial em documentos tirados das mobilizações da sociedade civil durante a COP30. Ela citou a Carta COP30 das Favelas (Acesse em https://www.favelasustentavel.org/carta-cop), documento redigido pelas comunidades periféricas do Rio de Janeiro organizadas na Rede Favela Sustentável. O documento já conta com mais de 650 assinaturas, incluindo as de 186 organizações de 21 estados brasileiros e 27 países, como a Slum Dwellers International (SDI), com sede no Quênia, o International Center for Community Land Trusts, com sede nos EUA, o Institute of Wellbeing, em Bangladesh, e o urbaMonde, na Suíça.

Comunicação popular e aprendizado

Se a sociedade civil toma para si a responsabilidade por construir as redes e iniciativas necessárias para pressionar o Poder Público e conscientizar a população, a comunicação popular é elemento fundamental. Neste sentido, diversas falas da tarde jogaram luz sobre a importância do fortalecimento das iniciativas que compõem a chamada “mídia alternativa”.

“Debates sobre a saúde, importantíssimos no contexto da crise climática, aconteceram em Belém, mas foram calados pela grande imprensa. Por isso os nossos meios de comunicação, mesmo frágeis, são tão importantes. Sem este evento transmitido e gravado pelo Senge RJ, sem a matéria da Rede Favela Sustentável, teríamos apenas uma versão da história”, destacou Alexandre.

Foto: Bárbara Dias / Rede Favela Sustentável / ComCat

Marco Carão, comunicador popular e indígena credenciado para a Blue Zone, relatou sua experiência em Belém: mesmo com a credencial, sentiu as barreiras impostas a quem vem da base: “Não nos deixaram entrar. Disseram que indígena não é comunicador”, lamentou.

Jacy reforçou que as experiências vividas em Belém devem servir como um aprendizado coletivo para cobrar maior representatividade nos próximos eventos. “Vimos uma participação de povos originários, mas houve o episódio deplorável na ‘área azul’, onde tentaram participar e disseram que não estavam credenciados. Isso serve para a gente cobrar que, nos próximos eventos, priorizemos a participação da população periférica, dos pretos, das mulheres, da comunidade LGBTQIAPN+ e dos povos originários. Houve avanços, mas ainda precisamos avançar muito”, pontuou.

O dirigente sindical destacou ainda que a solução para o colapso climático não virá apenas de grandes eventos diplomáticos, mas da organização política contínua. “Não vai ser uma COP que vai resolver essa catástrofe que, na minha avaliação, já é um caos climático. Este ano é fundamental e não tem como dissociar a defesa do meio ambiente das eleições de outubro. Precisamos ter pautas para encaminhar aos setores progressistas e de esquerda, para que sejam implementadas no Congresso Nacional. Precisamos levar a pauta do meio ambiente e cobrar de todos os candidatos um compromisso real com o combate à crise climática. É ali, nas ruas e nas urnas, que obteremos êxito”, concluiu.

Foto: Bárbara Dias / Rede Favela Sustentável / ComCat

O encontro no SENGE RJ encerrou-se com uma convocação unânime: a de que o documento final da COP30 pode ter sido insuficiente, mas a mobilização que ele gerou nas ruas de Belém é o combustível para que, no Rio de Janeiro e no Brasil, a luta socioambiental ganhe a escala necessária. O sucesso da agenda climática não virá apenas das plenárias oficiais, mas da capacidade da sociedade civil em ganhar as ruas e transformar o grito de urgência em política pública e voto consciente.

Para chegar lá, a ampliação do debate já está articulada: “Compartilho com vocês que venho participando de reuniões nas quais informei da realização desse nosso Encontro Pós-COP30 e das propostas que apreciaremos hoje. As lideranças com quem conversamos estão aguardando as decisões deste encontro para apoiar as ações conjuntas que aqui forem aprovadas”, revelou Cacá.

Ele enfatizou que o caráter do evento é, sobretudo, prático: “Nosso encontro é de avaliação, de proposições e de debates, mas é sobretudo um encontro de trabalho e de construção conjunta de ações que fortaleçam as demandas socioambientais no Estado do Rio de Janeiro”. Para o diretor, a mobilização fluminense tem o potencial de servir de modelo para outros estados, fortalecendo a pauta nacional de forma semelhante ao sucesso da Cúpula dos Povos e da Marcha dos Povos durante a COP30.

Jorge Antônio lembrou ainda o papel histórico do Rio de Janeiro no debate ecológico global, citando a herança da ECO-92 e da Rio+20 como pilares que sustentam a autoridade do estado na questão ambiental. “O Rio de Janeiro já tem esse legado. Não podemos deixar a peteca cair. Temos força para amplificar nossas vozes e continuamos presentes nas lutas”, concluiu.

Acessar o conteúdo