Entidades da engenharia nacional e da sociedade civil fazem ato pela democracia e convocam mobilização permanente

A quatro dias do 2º turno das eleições presidenciais mais decisivas desde a redemocratização, entidades que escreveram sua história com luta e resistência reuniram-se no Clube de Engenharia em defesa da reeleição de Lula

Com o Brasil à beira do abismo e às vésperas do momento decisivo, que pode marcar a vitória de um longo plano do império norte-americano para a América Latina, a engenharia nacional mobilizou forças que sempre estiveram na luta pela democracia para, mais uma vez, resistir. Nos discursos dos representantes das diversas entidades profissionais e movimentos da sociedade civil reunidos no Clube de Engenharia na noite de quarta-feira (21), havia em comum a clareza da gravidade do momento e a urgência de reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao lado dos engenheiros e profissionais das geociências estavam estudantes, ativistas, artistas, juristas, cientistas, acadêmicos e pesquisadores, unidos pelo alerta: de alguma forma, metade da população do país foi convencida a colocar o crime organizado no Palácio do Planalto. Uma vitória de Flávio Bolsonaro, advertiram, coroaria um domínio completo dos três poderes do maior país da América Latina por bandidos e traidores da pátria. E isso não é aceitável.

“Está claro que o momento é grave. Vejo isso nos olhos de cada um aqui. Mas há uma realidade ainda maior: estamos disputando com um delinquente, com um meliante, e metade da nossa população está apoiando isso, enquanto a outra metade luta duramente para derrotar esse absurdo”, destacou Olímpio dos Santos, diretor de Comunicação do Senge/RJ. O dirigente falou de uma geração que colocou suas vidas à disposição da luta por uma democracia que agora vê ameaçada e alertou para a naturalização de fenômenos e posturas que podem destruir aquilo que foi conquistado a duras penas. “Nós não lutamos contra a ditadura para isso. Não podemos naturalizar a desinformação e chamá-la de liberdade de expressão. Picaretagem religiosa não é fé. Não é aceitável. Nossa tarefa é varrer o bolsonarismo e o fascismo do jogo político. O Congresso eleito com votos desqualificados pela desinformação desta maneira não tem valor. Não podemos aceitar isso como fato dado e consumado”, discursou.

A ex-ministra da Saúde Nísia Trindade, deputada eleita pelo PT/RJ, falou da “encruzilhada entre a democracia e o autoritarismo” em que o Brasil se encontra agora. Ela alertou que “não podemos permitir o retorno do negacionismo científico” e destacou o projeto de Lula de avançar na consolidação de um complexo nacional da saúde, unindo ciência e tecnologia, desenvolvimento social e a vocação brasileira na área da saúde pública, todos na mira do “tesouraço” prometido por Flávio Bolsonaro.

Em um alerta realista e despido de meias palavras, a jornalista Hildegard Angel falou do sangue que correrá pelo Brasil se Lula não for reeleito. “O nosso sangue, dos inocentes, correrá pelo Brasil se não virarmos esse jogo. Porque eles conseguiram transformar metade do país em pessoas sanguinárias, sedentas de morte e vingança. Elas legitimamente acreditam que estão sendo oprimidas e que os progressistas são inimigos do povo. Estamos correndo risco de vida e não vai ser as forças armadas, mas nossos vizinhos, o comerciante da sua rua, quem corre na praia ao seu lado que nos caçarão. Nós já nos acomodamos demais com o que conquistamos, que estamos prestes a perder. Não é momento para academicismo, teorias, teses, precisamos ir ao popular: é vida ou morte. Escolha o seu lado”.

Desafiando o mundo

José Lutterbach, presidente do Conselho Regional de Economia, lembrou que a batalha em curso não se restringe às fronteiras do Brasil. Lula e o povo brasileiro, hoje, enfrentam muito mais que Flávio Bolsonaro, e o inimigo é muitíssimo poderoso. “Estamos enfrentando um inimigo de 600 anos: o sistema internacional de poder ocidental. Flávio não é nada. Lutamos contra algo muito maior que ele, um sistema que está chegando ao seu fim e, agora, tenta salvar sua pele em todo o mundo”.

Bruna Martins, do Instituto dos Advogados do Brasil, destacou que os olhos do mundo estão voltados para o Brasil neste momento. “Nós somos a esperança de um mundo em demolição. Na França, na Espanha, na Alemanha, em Portugal, o mundo está em crise e nós fomos o país que deu a melhor resposta à crise nos últimos anos. Cabe a nós sustentar esse resultado. Instituições como as nossas não podem ficar caladas agora. Porque o silêncio, nesses momentos, não é neutralidade, é omissão”.

Estado de mobilização permanente

A gravidade do momento dividiu espaço com outra certeza: a de que a mobilização do segundo turno e o levante popular nas ruas e nas redes não poderão se diluir após o dia 25/10, independentemente do resultado das urnas. A organização do campo democrático, representada pelo “Exército do Lula”, precisará se manter em prontidão, seja para sustentar o quarto governo Lula, seja para organizar a oposição a Bolsonaro.

“O resultado de domingo pode apontar para um futuro ruim ou muito pior. Por isso, precisamos permanecer vigilantes e unidos na intransigente defesa dos direitos e garantias fundamentais, sobretudo daqueles que precisam da proteção do Estado. Os mais vulneráveis não podem pagar pelos retrocessos democráticos”, completou Bruna.

Entidade profissional sempre na vanguarda das lutas pela democracia, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também esteve presente, e seu presidente, Octávio Costa, falou dos próximos quatro anos. “Eles têm ampla maioria na Câmara e no Senado. Flávio já declarou que, se eleito, mudará a Constituição. E eles têm voto para isso. Isso independe da vitória no próximo domingo. Se o presidente Lula for reeleito, ele vai enfrentar este Congresso e nós temos a responsabilidade de manter a nossa união, manter a força das ruas. Virá uma tentativa de golpe desses traidores da Pátria e teremos que defendê-la nos próximos anos”, destacou.

Esperança e luta

“Acordamos no dia 5 de outubro angustiados, muito mal, mas essa angústia foi dissipada pela juventude na rua, dizendo que quem tem medo de formiga não atiça o formigueiro. Eles atiçaram e nós vamos para cima deles”, conclamou Clóvis Nascimento. A fala do presidente do Senge/RJ refletiu-se em muitas das outras, que destacavam que é possível salvar o Brasil da sombra que hoje se projeta sobre o país. Foram falas de esperança e resistência, que apontavam para a juventude como saída da encruzilhada imposta pelo fascismo internacional e para o papel das gerações anteriores como suporte e fonte de experiência, como destacou o ex-presidente do Clube de Engenharia Pedro Celestino: “A esta juventude que despertou para a luta política e hoje enche as ruas de todo o Brasil, devemos garantir que ela não se desespere. É importante que, juntos, mantenhamos a frieza e acesa a chama da luta pela democracia”.

Guilherme Estrella, ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras, também destacou a importância dos movimentos das juventudes neste momento. “O desafio que se apresenta é dos jovens brasileiros, porque é deles o futuro”. E eles sabem disso. Representada por Marissol Lopes, da Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro, a juventude esteve presente e deixou claro a que veio.

“Fomos nós, com os alunos do Colégio Pedro II, que organizamos o ato que foi da Candelária à Cinelândia, logo após o primeiro turno. Mas estamos na luta desde 2002, quando a entidade foi fundada. Estivemos à frente da luta contra a reforma do ensino médio, em parte revogada em 2024 no estado do Rio”, contou Marissol. A estudante e dirigente destacou que a luta dos estudantes está totalmente alinhada à luta dos trabalhadores e seus sindicatos, ambos declarados inimigos por Flávio Bolsonaro. Defendeu ainda que a militância digital seja somada à presença constante nas ruas: “É muito importante o WhatsApp, o Instagram, o Facebook, mas é importante ir para as ruas, conversar com as pessoas. É nossa responsabilidade histórica conversar e convencer as pessoas de que a mudança tem que ser pra melhor, não a que Flávio quer implantar. Nossa luta não termina no dia 25, porque nossa democracia é muito frágil. Estaremos nas ruas agora e seguiremos nelas após o segundo turno também”.

Fortemente representativo, o Ato pela Democracia contou ainda com manifestações de Sérgio Santana (Juristas pela Democracia), Ana Holanda (ex-ministra da Cultura), Bete Mendes (atriz e ex-deputada), Dulce Pandolfi (Universidade da Cidadania da UFRJ), Cristina Araripe (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Eduardo Barata (Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), Alexandre Santini (Casa de Rui Barbosa), Marcelo Auler (jornalista do Brasil 247) e os ex-presidentes do Clube de Engenharia Agostinho Guerreiro, Eloi Moreira, Pedro Celestino e Marcio Girão.

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