O Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro compreende a luta pelo fim da escala de trabalho 6×1 como mais que uma pauta do mundo do trabalho. Ela transcende as reivindicações trabalhistas: é, acima de tudo, uma bandeira civilizatória. É a recusa intransigente, via resistência, do recrudescimento das relações no capitalismo tardio, um sistema em fase de desintegração que busca sobrevida no retrocesso sistemático de direitos.
Aqueles que sustentam todo o sistema econômico são indivíduos, seres humanos dotados de subjetividades. Trabalhadores e trabalhadoras são também pais, mães, filhos e amigos. Possuem crenças, ideologias, sede de conhecimento e necessidades de saúde. Precisam se organizar em torno de temas caros à sua existência, cultivar laços afetivos e usufruir do lazer. Sem o equilíbrio entre essas múltiplas dimensões, a sanidade física e mental torna-se inalcançável e a dignidade, uma utopia. No entanto, o pleno exercício dessas faculdades exige o que o mercado mais lhes subtrai: tempo.
A estas necessidades existenciais soma-se uma contradição histórica: desde o advento das primeiras máquinas na Revolução Industrial do século XVIII, a aceleração tecnológica prometeu que a automação facilitaria a execução do trabalho e, por conseguinte, ampliaria o tempo livre. A primeira parte da promessa não apenas foi cumprida, como avança em velocidade jamais vista: as ferramentas se multiplicam no sentido de garantir maior produtividade. Contudo, o tempo livre prometido jamais foi entregue. O mercado rompeu unilateralmente o acordo, convertendo a interação homem-máquina em lucros exponenciais, enquanto a jornada de trabalho permanece estagnada há décadas.
Descanso e trabalho não são opostos, como prega o dogma liberal. A ciência já comprovou reiteradamente, sob diversas óticas e em plena interdisciplinaridade, que ambos são complementares. Trabalho e repouso alimentam-se e sustentam-se em uma dualidade necessária. Mas apesar das evidências, a sanha insaciável do capital ignora o óbvio e pressiona constantemente pela extração de mais tempo de quem depende do salário para subsistir. Quando o trabalhador é compelido a dedicar seis dias à produção e apenas um à recomposição, o que se testemunha, na prática, é a expropriação da vida pela superexploração da força de trabalho. Isso não pode ser normalizado.
Este entendimento não é novo. As lutas pela redução das jornadas, visando o equilíbrio entre as esferas pessoal e profissional, são elementos fundantes da própria esquerda. Foram esses embates que, ao longo dos séculos, garantiram conquistas históricas, freando a voracidade por indicadores em eterna ascensão e estabelecendo direitos como as férias anuais e as jornadas regulamentadas. Em cada um desses marcos, o mercado previu cataclismas econômicos que jamais se tornaram realidade.
Sob a ótica da organização social, a pauta pelo fim da escala 6×1 sem a redução de salários insere-se em um contexto que a torna singular. Em um momento em que os fóruns tradicionais de enfrentamento encontram obstáculos severos e a associação formal atravessa um período de fragilidade em termos de engajamento, surge uma luta orgânica, descentralizada e horizontal. Uma pauta verdadeiramente popular que conseguiu atravessar o complexo processo de institucionalização até ecoar em Brasília. Entre o primeiro vídeo no TikTok e o debate público nacional, acompanhamos de perto um amadurecimento de três anos.
Quando, em 2023, o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) emergiu nas redes sociais a partir do desabafo de um trabalhador explorado, o SENGE-RJ prontamente noticiou a iniciativa. Registros de busca demonstram que, naquele instante, não havia outra publicação institucional sobre o tema: o movimento ainda era embrionário, restrito às bolhas digitais e dava seus primeiros passos em regime de autogestão, sem suportes oficiais, organizando-se via grupos de mensagens instantâneas.
O que o SENGE-RJ identificou foi um movimento genuíno da classe trabalhadora que, mesmo sem financiamento, crescia lastreado na força da militância popular e na justiça de uma pauta histórica da esquerda. Uma pauta que vinha sendo negligenciada, soterrada pelas urgências impostas por estes tempos disruptivos. Ver o fim da escala 6×1 converter-se na maior discussão trabalhista desta quadra histórica — agora encampada por partidos progressistas e pelo governo federal — é testemunhar o fechamento de um ciclo que pode vir a inspirar muitos outros.
Aprovar a jornada máxima de cinco dias por dois de descanso é mais do que um ato de justiça; é sinalizar ao povo brasileiro que é possível abandonar a posição de mera defesa contra retrocessos para lutar por avanços concretos. É um sopro de esperança em um cenário que oferece poucas perspectivas. E é, inclusive, apenas o começo: vencida a neoescravidão da 6×1, é preciso avançar. Experiências internacionais já comprovam que modelos de escala 4×3 não apenas elevam a qualidade de vida, como garantem a produtividade das empresas. Mais uma vez, não se trata de privilégios, mas da conquista efetiva do direito à vida digna e da tecnologia a serviço de quem a cria, seu verdadeiro dono: o trabalhador.
Mais tempo de descanso significa também mais espaço para a militância, para o letramento político e para a reversão dos recordes nacionais de afastamentos por ansiedade, depressão e burnout. Significa reduzir a extenuante dupla jornada que sobrecarrega, primordialmente, as mulheres com o trabalho doméstico. Esta é uma luta prioritária que andava latente, abafada pela multiplicidade de temas urgentes — muitos dos quais considerávamos superados — que emergiram na última década com a ressurgência do fascismo como força hegemônica global.
Essa luta é nossa. Pertence ao povo trabalhador brasileiro. Porque vai além da contagem de dias trabalhados: trata de dignidade e da esperança em dias melhores. E em 2026, precisamos disso mais do que nunca.
Foto: Letycia Bond – Agência Brasil