Jorge Folena : “O fascismo precisa da mentira”

Jurista analisa avanço da extrema direita e lança novo livro sobre o tema

O fascismo permanece como uma ameaça concreta ao Brasil e não pode ser tratado como um fenômeno restrito ao século passado. A avaliação é do jurista e escritor Jorge Folena, autor de A luta contra o fascismo no Brasil, que relaciona o avanço de forças autoritárias à crise econômica, ao ressentimento social, à concentração de riqueza e à fragilidade da soberania nacional.

Em entrevista ao programa Ponto de Vista, da TV 247, Folena afirmou que seu novo livro reúne ensaios publicados originalmente no Brasil 247 e procura analisar como o fascismo se reorganiza no século XXI. Para ele, embora o fenômeno atual tenha diferenças importantes em relação às experiências européias do século passado, mantém mecanismos semelhantes de mobilização política, principalmente ao explorar frustrações e divisões dentro da própria classe trabalhadora.

“A luta contra o fascismo nos dias atuais é o maior desafio nosso aqui no Brasil e, diria para você, em todo o mundo”, afirmou

Folena sustenta que os períodos de desemprego, precarização do trabalho e perda de perspectiva social criam um ambiente favorável para lideranças autoritárias. Segundo ele, o fascismo se fortalece ao direcionar a insatisfação popular contra outros trabalhadores, grupos sociais ou adversários políticos, desviando o debate das causas estruturais da desigualdade.

“Ele se vale do ressentimento da classe trabalhadora. O fascismo joga trabalhadores contra trabalhadores para fazer a sua perpetuação e a sua manutenção como regime político”, disse

Nesse processo, acrescenta o autor, a mentira ocupa um papel central. Folena cita Donald Trump e Jair Bolsonaro como exemplos de lideranças que, em sua interpretação, utilizam discursos simplificadores e desinformação para mobilizar setores atingidos pela insegurança econômica.

“O fascismo precisa da mentira. Isso é uma característica necessária para o fascismo se impor, tanto no passado como no presente”

Para Folena, uma das principais diferenças entre o fascismo do século XX e o que classifica como neofascismo contemporâneo está na relação com a ideia de nação. Enquanto os movimentos históricos europeus mobilizavam um discurso nacionalista, o fenômeno atual, segundo ele, estaria mais vinculado aos interesses do capital financeiro internacional e menos comprometido com a soberania dos próprios países.

Ao falar do Brasil, o escritor afirma que esse conflito aparece na disputa entre projetos que buscam ampliar a autonomia nacional e setores alinhados a interesses externos. É nesse contexto que ele situa o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apresentado por Folena como uma liderança associada à defesa da classe trabalhadora e do desenvolvimento soberano.

“Se a classe trabalhadora tem que se fortalecer, o país se fortalece e, por conseguinte, se desenvolve e se torna soberano”, afirmou

A análise do jurista se estende ao chamado Sul Global. Para ele, países da América Latina, África e Ásia vivem uma disputa histórica contra as consequências do colonialismo e contra formas contemporâneas de dependência política e econômica.

Folena ressalta, no entanto, que não existe uniformidade ideológica entre esses países. Na sua avaliação, governos socialistas, nacionalistas e capitalistas podem convergir em determinados momentos quando a questão central é a defesa da soberania.

“A luta travada pelo Sul Global é uma luta contra o processo colonialista e o imperialismo. É uma luta diversificada em matéria de ideologia”

O escritor também relaciona o avanço da extrema direita a pautas morais e comportamentais. Para ele, o fascismo explora reações contra transformações sociais, os direitos das mulheres e o reconhecimento de grupos historicamente discriminados.

Segundo Folena, o patriarcado ajuda a alimentar parte desse ambiente político ao transformar mudanças sociais em ameaças a posições tradicionais de poder.

“O fascismo quer perseguir todo diferente”, afirmou.

Nesse ponto, ele destaca o papel das mulheres no enfrentamento a projetos autoritários e lembra as mobilizações ocorridas no Brasil contra Bolsonaro. Para Folena, esses movimentos expressam uma percepção antecipada sobre os riscos de retrocessos políticos e sociais.

A violência sofrida pela população das periferias também aparece como parte importante de sua análise. Folena, que destacou sua origem nas classes populares, afirmou que mães negras vivem de forma especialmente intensa o temor da violência contra seus filhos.

Na avaliação do autor, esse cenário está diretamente ligado à herança da escravidão, do colonialismo e da profunda desigualdade brasileira. Ele considera que a permanência dessas estruturas ajuda a explicar por que determinados grupos continuam sendo tratados de maneira desigual pelo Estado e pela sociedade.

Folena também critica o discurso segundo o qual qualquer trabalhador pode ascender socialmente apenas pelo esforço individual. Para ele, a ideia de transformar trabalhadores precarizados em “empreendedores” pode ocultar relações de exploração e enfraquecer a percepção de pertencimento de classe.

“Eles não são empresários de si próprios. São trabalhadores”, resumiu

O jurista argumenta que entregadores, motoristas, pequenos comerciantes e prestadores de serviço continuam dependendo essencialmente da própria força de trabalho e, muitas vezes, não contam com proteção suficiente em situações de doença, desemprego ou queda de renda.

A defesa de mulheres, indígenas, trabalhadores domésticos e outros grupos submetidos a diferentes formas de desigualdade, segundo Folena, precisa fazer parte de uma luta mais ampla e coletiva.

Para ele, reivindicações específicas não devem ser abandonadas, mas articuladas dentro de um projeto comum que enfrente as desigualdades econômicas e sociais.

“Nós temos que estar marchando juntos. Temos que defender os interesses dos indígenas, povos originários deste país e guardiões das florestas”

Folena cita como exemplo a ampliação dos direitos das trabalhadoras domésticas durante o governo Dilma Rousseff. Para o autor, a mudança mostrou como desigualdades específicas podem existir dentro da própria classe trabalhadora e precisam ser enfrentadas coletivamente.

A educação também ocupa um lugar central em sua reflexão. Segundo Folena, o processo educacional não deve se limitar ao aprendizado técnico, mas precisa fornecer instrumentos para que as pessoas compreendam as relações políticas, econômicas e sociais das quais fazem parte.

Sem essa formação crítica, diz ele, os trabalhadores podem ser mais facilmente levados a enxergar outros trabalhadores como responsáveis por seus problemas.

O autor relaciona ainda esse processo à herança cultural do colonialismo e cita referências como Antonio Gramsci e Frantz Fanon para discutir como populações colonizadas podem incorporar valores e visões de mundo produzidos pelas sociedades dominantes.

A luta contra o fascismo no Brasil nasceu justamente das reflexões desenvolvidas por Folena ao longo dos últimos anos. Segundo ele, os textos que compõem a obra foram originalmente publicados no Brasil 247.

“Esse livro é consequência da minha participação aqui no 247, dos textos que sempre encaminho e público aos sábados”, afirmou

O primeiro lançamento está marcado para 20 de agosto, às 18 horas, no Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro, na Avenida Rio Branco, 277, no centro da capital fluminense. O evento terá uma roda de conversa com Folena, o historiador Lincoln Penna, responsável pelo prefácio do livro, João Cláudio Pitillo e Olímpio Alves dos Santos.

Para o escritor, a discussão pública em torno da obra é tão importante quanto o lançamento.

“Lançar um livro, só lançar o livro, não é o mais importante. O mais importante é o debate sobre o livro”

Ao final da entrevista, Folena recuperou uma reflexão de Luiz Carlos Prestes, feita em 1935, segundo a qual três grandes problemas atravessavam a formação brasileira: o imperialismo, o latifúndio e o fascismo.

Quase um século depois, o jurista afirma que esses elementos continuam presentes, ainda que sob novas formas. A eles, acrescenta um quarto problema: a presença do crime organizado em atividades econômicas e financeiras.

“Os quatro grandes males do Brasil hoje são o imperialismo, o latifúndio, o fascismo e o crime organizado”

Para Folena, o enfrentamento a essas forças exige uma articulação ampla em defesa da democracia, da soberania, dos direitos sociais e do desenvolvimento nacional.

A principal mensagem de seu novo livro, afirma, é que o fascismo não pertence apenas aos livros de história. Ele continua sendo alimentado por crises econômicas, desigualdades sociais, ressentimentos, desinformação e disputas de poder.

“Todos aqueles que defendem a democracia, defendem justiça social e defendem um Brasil soberano e desenvolvido têm que ter essa luta clara”, concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

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