Juros, guerra e a conta que recai sobre os povos

Banco Central usa a guerra como justificativa para manter a política de juros altos enquanto o custo da crise global se espalha pela economia real

Banco Central decidiu reduzir a taxa de juros em apenas 0,25%, frustrando a expectativa do governo, que aguardava um corte de pelo menos 0,5%, mantendo a taxa de 14,75%. A justificativa apresentada foi a conjuntura internacional adversa. Em outras palavras, a guerra chegou até o Banco Central.

A reação do presidente Lula foi direta: “Não é possível, estamos no sacrifício”. A fala sintetiza o impasse atual. De um lado, um país pressionado por juros entre os mais altos do mundo; de outro, uma autoridade monetária que se ancora na incerteza global para manter uma política restritiva.

O pano de fundo dessa decisão está na escalada do conflito internacional e seus efeitos imediatos sobre os preços. O petróleo, que orbitava em torno de 70 dólares, saltou para a casa dos 100 dólares por barril. Esse aumento não é trivial: ele se espalha em cadeia por toda a economia mundial, pressionando combustíveis, transporte e produção.

Os impactos já são visíveis. Combustíveis e fertilizantes subiram de preço, atingindo diretamente o agronegócio e a produção de alimentos. A elevação dos custos ameaça o abastecimento e reforça a pressão inflacionária, criando um ciclo perverso que recai sobre toda a sociedade.

Diante desse cenário, bancos centrais ao redor do mundo entram em estado de alerta. A resposta dominante segue sendo a mesma: aumento ou manutenção de juros elevados como instrumento de combate à inflação. Trata-se de uma lógica que penaliza a produção e o consumo, enquanto preserva os interesses do capital financeiro.

Mas a crise não é apenas econômica — é geopolítica. A tensão no Golfo Pérsico elevou o risco global. Diante da ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa parcela significativa do petróleo mundial, o então candidato Donald Trump chegou a ameaçar destruir instalações energéticas do Irã em menos de 48 horas. O prazo venceu sem que o ataque se concretizasse, mas a instabilidade permanece.

O Irã respondeu no mesmo tom, afirmando que qualquer agressão resultaria na destruição de infraestruturas energéticas em toda a região e no fechamento completo do estreito. A troca de ameaças expõe a fragilidade do sistema internacional e o potencial de colapso das cadeias de abastecimento.

Os desdobramentos militares já se fazem sentir. Após bombardeios iniciais, houve resposta com mísseis contra instalações estratégicas, incluindo a região de Dimona, central para o programa nuclear israelense. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que a guerra continuará em múltiplas frentes, incluindo ações no Líbano contra o Hezbollah.

O Irã, por sua vez, ampliou sua atuação. Ataques a longa distância, como o registrado na base mista dos Estados Unidos e do Reino Unido em Diego Garcia, no Oceano Índico, demonstram a extensão do conflito. A mais de quatro mil quilômetros de distância da região central das hostilidades, a base é um dos principais pontos estratégicos militares do Ocidente. Infraestruturas energéticas e bases estratégicas vêm sendo atingidas, com impactos diretos sobre a produção e o fluxo de energia global.

O resultado é um cenário de incerteza profunda, em que a guerra alimenta a inflação e a inflação serve de justificativa para políticas econômicas que agravam a estagnação. No centro dessa engrenagem está uma lógica que privilegia o rentismo em detrimento do desenvolvimento.

Não se trata apenas de juros. Trata-se de um modelo. Um modelo que submete economias inteiras às oscilações de conflitos externos e às decisões de centros financeiros que operam distantes da realidade concreta dos povos.

Diante disso, torna-se evidente a necessidade de um projeto nacional capaz de enfrentar essas distorções. Um projeto que recupere a soberania sobre a política econômica, proteja a produção e garanta o abastecimento interno. Sem isso, o país seguirá refém de crises que não controla — e pagando uma conta que não é sua.

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi | Texto: Paulo Cannabrava Filho | Foto: Rafa Nedemeywer/Agência Brasil
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