Mais que tirar empregos, a inteligência artificial revela quem o sistema já queria descartar

Professor do Instituto Federal Fluminense, Jeferson Azevedo desmonta o discurso do apocalipse tecnológico e mostra que a concentração de renda começou décadas antes do ChatGPT: a IA apenas acelera um projeto econômico que já estava em curso

Na década de 1960, um presidente de empresa americana ganhava 20 vezes o que ganhava o trabalhador médio. Hoje, essa diferença é de 400 vezes. O dado, apresentado pelo professor Jeferson Azevedo, do Instituto Federal Fluminense, é o ponto de partida para uma tese que desafia o senso comum sobre inteligência artificial e trabalho: a tecnologia não é a causa do desemprego e da concentração de riqueza. Ela é a intensificadora de um processo que já estava em marcha desde o final dos anos 1970, quando a produtividade continuou crescendo, mas a renda do trabalhador parou de acompanhá-la.

“Não é a inteligência artificial que está tirando o emprego, não”, afirma Azevedo. “Nós temos um sistema econômico que já vem há algum tempo concentrando renda, diminuindo oportunidades, e as tecnologias estão amplificando, intensificando este movimento.” É uma distinção que muda completamente os termos do debate público sobre automação. Se o problema fosse puramente tecnológico, a solução seria técnica, com requalificação, adaptação, resiliência individual. Mas se o problema é político e econômico, a solução exige outra coisa: organização coletiva, disputa de poder, escolha de prioridades sociais.

Azevedo é professor titular do IF Fluminense, engenheiro de Sistemas e Computação, doutor em engenharia de sistemas e computação pela Coppe/UFRJ, e acumula experiência internacional em educação técnico-profissional. Foi diretor da Federação Mundial de Instituições Politécnicas e coordenador do Centro Internacional da Unesco para Educação e Formação Técnico-Profissional. Sua área de origem, a programação de computadores, é uma das mais expostas à automação por IA: segundo ele, cerca de 90% das atividades do setor já podem ser executadas por sistemas de inteligência artificial. É também por isso que sua análise carrega peso: não é o discurso de quem teme a tecnologia de fora, mas de quem a vê transformar sua própria profissão por dentro.

A entrevista ao programa Soberania em Debate, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro, percorre o mapa de quem ganha e quem perde nessa transição: que profissões estão mais expostas, o que a Organização Internacional do Trabalho acaba de decidir sobre trabalho de plataforma, e por que a resposta a tudo isso não pode ser individual. “A felicidade é um bem comum”, diz Azevedo. “Não basta você estar feliz se ao seu redor a sua cidade tá triste, sem oportunidade. Você não dá conta.”

 

Quem manda, quem obedece e quem é descartado

Azevedo descreve um cenário que ele próprio já registrou em artigo: a economia digital está produzindo três categorias sociais distintas. A primeira é pequena e poderosa: os profissionais que dominam o algoritmo, altamente qualificados, com remuneração alta. A segunda é maior e mais vulnerável, composta pelos comandados pelo algoritmo. “A gente vê hoje quem é o chefe daquele jovem que está numa bicicleta com um isopor nas costas. O chefe dele é um algoritmo que diz para ele o tempo que ele tem que cumprir, a pontuação que ele vai alcançar com seu trabalho”.

Essa pontuação, explica o professor, não é um detalhe técnico inofensivo. Ela produz consequências físicas mensuráveis. “A gente está assistindo um índice altíssimo de acidentes de motociclista, porque eles têm que estar o tempo inteiro batendo meta. Para isso, muitas vezes têm que colocar sua vida em risco, olhando o celular e dirigindo.” Azevedo chama esse fenômeno de subemprego tecnológico, e faz uma ressalva importante: não é um julgamento sobre a dignidade de quem trabalha assim, é um diagnóstico sobre a desproteção estrutural dessa relação de trabalho. “Existem muitos motoristas de Uber que estão arrecadando renda que sustenta a sua família com dignidade”.

A terceira categoria é a mais sombria: os ignorados pela inteligência artificial. “Aquele grupo de pessoas que não terão as capacidades mínimas cognitivas de compreender e lidar com essa tecnologia. Eles vão ser completamente excluídos desse processo.” É um risco que, segundo Azevedo, não decorre da tecnologia em si, mas da ausência de um projeto político que garanta inclusão digital e educação ampla o suficiente para que ninguém fique de fora.

Por trás dessa tripartição está uma escolha de modelo de negócio que o professor localiza geograficamente: o Vale do Silício. “A ideia do desenvolvimento tecnológico baseado nas bigtechs, lá do Vale do Silício, é lucro máximo para as empresas e custo mínimo com os trabalhadores.” A consequência é um padrão que se repete em diferentes setores: cada vez mais produtividade e geração de riqueza com cada vez menos pessoas envolvidas no processo e, portanto, cada vez menos gente se beneficiando dele.

A área da engenharia, lembra Azevedo, ilustra bem essa ambiguidade. Quase 90% das atividades das engenharias são hoje passíveis de uso de inteligência artificial. É um número alto, mas que não significa substituição automática do engenheiro. “Existe um elemento que se chama complementariedade. Nas áreas que você tem grande densidade de conhecimento, de especialização, os profissionais vão ser empoderados pela inteligência artificial.” A diferença entre ser substituído e ser potencializado, segundo ele, depende menos da tecnologia disponível e mais de como as empresas e a sociedade decidem usá-la.

A nova ordem etária do trabalho: sêniors ganham espaço e jovens perdem oportunidade

Um relatório da Organização Internacional do Trabalho lançado no início de 2026 mapeou o impacto da inteligência artificial sobre as ocupações globais. A conclusão: 25% dos empregos do mundo estão de alguma forma tocados pela tecnologia, e entre 5% e 6% estão altamente impactados, com risco real de substituição. O número, segundo Azevedo, é menos alarmante do que a narrativa apocalíptica que circulava antes, mas aponta para um efeito colateral que poucos debates sobre IA discutem: a inversão da lógica etária do mercado de trabalho.

“Diferente do que acontecia até recentemente, hoje, nestas áreas altamente impactadas pela IA, a contratação de profissionais sêniors está crescendo e a de jovens decrescendo.” A explicação está na própria natureza probabilística da IA generativa: ela alucina, comete erros sistemáticos, e por isso depende do julgamento humano experiente para validar seus resultados. “Isso são julgamentos humanos de pessoas muito experientes.” Quem tem o feeling da curadoria, da priorização, do que realmente importa num projeto, ganha relevância. Quem está começando a carreira, que tradicionalmente ocuparia as funções mais repetitivas e de baixa complexidade, perde espaço, porque é exatamente essa faixa de tarefas que a IA já consegue absorver.

Esse fenômeno se conecta a outro que Azevedo descreve como polarização do mundo do trabalho. De um lado, profissionais altamente qualificados, com oportunidades crescentes. Do outro, empregos de baixa remuneração e baixa exigência de qualificação. No meio, um vazio que costumava abrigar a classe média trabalhadora, exatamente o segmento mais ocupado pela automação. “Isso está impactando a classe média profundamente”, observa.

Há também áreas que escapam quase inteiramente a esse movimento. A agricultura, por exemplo, é pouco impactada pela inteligência artificial em termos de substituição de mão de obra. E setores que dependem fundamentalmente de interação humana, a área de cuidado, atendimento direto a pessoas, especialmente diante do envelhecimento populacional, vêm crescendo em demanda, justamente porque a tecnologia ali atua como complemento, não como substituto. “Isso não é substituível pela inteligência artificial, e muito menos pela robotização.”

A promessa de redução da jornada de trabalho que acompanharia o avanço tecnológico, segundo Azevedo, virou também motivo de cinismo entre alguns dos principais nomes do setor. “Bill Gates falou que com o advento das tecnologias nós vamos poder trabalhar dois dias na semana. Elon Musk diz que com a robotização, a inteligência artificial, o trabalho será opcional.” A ironia, aponta o professor, é que essas falas pressupõem um sistema econômico diferente do atual. “Eles só esqueceram de dizer que isso aconteceria em outro sistema econômico. No sistema neoliberal de concentração de renda, eu não vou dar dois dias para o trabalhador e o restante ele usufruir de lazer. Numa equipe de dez, se eu puder fazer isso, eu demito oito e deixo dois. E esses dois vão continuar trabalhando como sempre”.

A OIT decide: trabalhador de aplicativo não é empresário

Em junho de 2025, a Organização Internacional do Trabalho aprovou em Genebra o primeiro marco normativo internacional sobre trabalho em plataformas digitais: um documento que, segundo Azevedo, fortalece de forma decisiva um debate que o Brasil já vinha tentando travar com as big techs desde 2024, mas com avanços tímidos e desiguais. Houve alguma negociação com a Uber, pouco progresso com o iFood. “Quando a gente vê a norma da OIT, constatamos que foi tímido o que o Brasil fez. Agora nós estamos falando de um consenso internacional.”

O ponto central da norma, na leitura do professor, é o combate à figura do falso autônomo, o trabalhador que mantém uma relação de subordinação real, comandado por um algoritmo que define horário, rota e desempenho, mas que é juridicamente tratado como empresário individual, sem nenhuma proteção social. Azevedo cita o ministro Flávio Dino para sintetizar o problema: “Um jovem com uma bicicleta e o isopor nas costas não é um empreendedor individual. Esse menino está numa exploração do trabalho, porque ele entra com o corpo, ele entra com a bicicleta, ele entra com todas as responsabilidades.”

O fenômeno, segundo o professor, já extrapola os aplicativos de entrega e alcança setores tradicionais por meio do abuso do MEI (microempreendedor individual). Ele relata o caso de um hospital onde acompanhou um familiar: todos os auxiliares de enfermagem e enfermeiros eram cadastrados como autônomos. “O hospital se desonerou de todas as responsabilidades. Isso é ótimo para o empregador, porque todas as responsabilidades passam para o trabalhador.” O instrumento que deveria proteger trabalhadores informais, como o pipoqueiro ou o vendedor de praia que antes não tinha nenhuma contribuição previdenciária, foi capturado por relações de trabalho formal disfarçadas de autonomia. “O trabalhador cria a ilusão de que está ganhando um pouquinho mais, mas quando ele for fazer a conta, vai ver que entrou numa grande furada.”

A normativa da OIT também reconhece explicitamente o direito de livre associação desses trabalhadores, um ponto que Azevedo considera decisivo, porque é justamente a capacidade de se organizar coletivamente que o modelo de negócio das plataformas tenta neutralizar. Ele cita o caso de uma big tech que utiliza inteligência artificial para identificar funcionários com perfil de liderança e alta interação com colegas para demiti-los preventivamente, antes que possam articular uma associação ou sindicato. “Hoje nós temos com inteligência artificial tecnologia para fazer um tipo de microcontrole que sempre foi o sonho das grandes empresas, mas nunca se conseguiu monitorar.” O mesmo tipo de sistema, segundo ele, já é usado para descontar do salário de atendentes os minutos em que ficam parados, com monitoramento minuto a minuto da produtividade.

Para os sindicatos, fragilizados pela reforma trabalhista que reduziu seu poder de representação e sustentação financeira, a norma da OIT chega como uma ferramenta política relevante, mas exige também uma atualização de função. “Eles têm que se renovar, têm que se preparar, têm que ter a compreensão desse novo mundo do trabalho para melhor representar os seus filiados”. Azevedo defende que essa formação para a associatividade deveria começar antes mesmo da entrada no mercado: nas próprias escolas técnicas e universidades. “Eu não posso achar que numa escola de engenharia eu trato apenas aspectos técnicos, porque o trabalho não é elemento técnico somente. Eu tenho que trazer para esse jovem a importância da associação, a importância do sindicato.”

O que vai definir o futuro não é a tecnologia, mas a visão de mundo

Se a tecnologia vai, inevitavelmente, igualar a infraestrutura disponível para todas as empresas e profissionais, o que resta como fator de diferenciação real? Para Azevedo, a resposta está deslocada do campo técnico para o campo humano. “No futuro, a inteligência artificial vai começar a igualar todas as empresas,. Os modelos mudam, mas o que vai fazer a diferença são as pessoas.” Competência técnica continua importante, mas passa a ser pré-requisito básico: o diferencial real estará na empatia, na ética, no senso de responsabilidade ambiental e no senso de coletivo.

O professor alerta sobre um risco silencioso do uso displicente da IA: “O cérebro humano é muito mais poderoso que a inteligência artificial. Entretanto, ele é tão poderoso que ele pode se diminuir para se adaptar à inteligência artificial.” Há dados, segundo Azevedo, mostrando que depois de apenas dez minutos de uso de ferramentas de IA generativa, as pessoas relatam mais preguiça cognitiva e menos perseverança para resolver problemas sozinhas. “Dependendo da forma como eu for trabalhar com ela, ela pode me emburrecer. E isso não é bom para o profissional.”

Esse é o pano de fundo sobre o qual o professor situa a encíclica do Papa Leão XIV sobre inteligência artificial, um documento que, segundo ele, coloca o ser humano como centro e defende que as riquezas precisam ser melhor harmonizadas na sociedade, sem a convivência naturalizada entre concentração tecnológica e a miséria. É também o pano de fundo da proposta do governo brasileiro, em articulação com a ONU, de taxar grandes fortunas globais para financiar fundos internacionais de proteção social diante do desemprego estrutural que a automação pode intensificar. “Toda vez que a gente começa a pressionar para que o andar de cima colabore mais, há uma grande resistência: ‘isso vai quebrar o país, isso vai quebrar as empresas'”.

Mas o professor insiste que existe um caminho concreto e mensurável: empresas que mantiveram suas equipes e investiram em requalificação, em vez de demitir em nome da inteligência artificial, estão registrando melhores resultados do que as que demitiram em massa. “Os projetos hoje mapeados por pesquisas como os que estão dando certo com inteligência artificial nas empresas mais lucrativas, mais eficientes, não são as que estão demitindo. São as que estão mantendo a equipe, requalificando essa equipe e ampliando as possibilidades dessa empresa.” Grandes companhias americanas que fizeram ondas agressivas de demissão associadas à IA, segundo ele, já começam a recontratar, percebendo que o movimento foi precipitado.

No fim, a questão que Azevedo evidencia não é tecnológica, mas a de uma escolha coletiva de futuro. “Qual é o projeto de futuro que eu quero? Qual é o projeto de humanidade que eu quero?” A tecnologia, conclui, pode estender o acesso à saúde e à educação de qualidade para regiões que hoje não têm acesso a elas, ou pode simplesmente concentrar ainda mais benefícios sobre quem já está bem servido. A escolha entre esses dois caminhos não será feita por nenhum algoritmo. “Não é uma questão tecnológica, é uma questão política de prioridades da sociedade.”

 

O programa Soberania em Debate, projeto do movimento SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube todas as quintas-feiras, às 16h. Apresentação e roteiro são da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil.

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