Lembrar o Golpe de 1964 no dia 1º de abril é mais que revisitar um marco que mudou para sempre os rumos da história do Brasil. É, também, manter viva e fresca a memória do terror que surge logo após a democracia perder sua sustentação popular e política, quando as instituições falham em suas prerrogativas e as Forças Armadas dão vazão ao golpismo instalado em seu DNA.
Lembrar é fundamental para que os horrores de duas longas décadas não voltem a acontecer. E este rememorar nunca foi tão urgente: mais de 40 anos depois, o autoritarismo segue vivo e forte, o neocolonialismo norte-americano já não dissimula seu intervencionismo e a burguesia continua disposta a abrir mão da democracia, desde que o apoio se converta em lucro. As redes sociais e fóruns públicos radicalizaram multidões, e manifestações pedindo a volta do regime militar tornaram-se comuns. Lemas e palavras de ordem que sustentavam os crimes de Estado são entoados novamente. Estão em faixas, camisas e campanhas. Os ovos deixados no ninho da serpente durante a redemocratização chocaram.
Foi a memória dos anos de chumbo que, ao longo de todo o governo Bolsonaro — que não escondia suas características autoritárias e era composto majoritariamente por militares —, sustentou a resistência. Sem ela, o 8 de janeiro poderia ter terminado de outra forma e este texto jamais poderia ser publicado. É a lembrança que nos mantém vigilantes, que baliza a atuação firme das instituições democráticas e salga as muitas feridas ainda abertas: os desaparecimentos, os assassinatos cometidos pelo Estado e a crueza da burguesia em sua busca pelo controle popular.
Lembrar tudo isso em 2026 é fundamental porque o enfrentamento entre a burguesia e a classe trabalhadora nunca foi tão feroz, a comunicação nunca foi usada como arma de forma tão eficiente e a disputa por corações e mentes jamais foi tão intensa. O contexto geopolítico, disruptivo como só o capitalismo tardio pode ser, é marcado pela expansão do conservadorismo e pelo fortalecimento de alianças transnacionais da extrema-direita, que agora operam com métodos de vigilância de dados e manipulação algorítmica.
Neste ano eleitoral, a ameaça materializa-se na figura de um herdeiro direto do bolsonarismo. Mais do que um sucessor político, o candidato da extrema-direita em 2026 representa a síntese do que houve de pior em 64 com o refinamento tecnológico do século XXI. Sua plataforma não é apenas de governo, mas de desmonte; ele carrega o bastão do autoritarismo, prometendo concluir a tarefa de erosão das garantias constitucionais e o aprofundamento da submissão da classe trabalhadora aos interesses do capital financeiro.
Não estamos diante de uma escolha administrativa, mas de uma decisão de sobrevivência histórica. Se a memória falhar agora, o passado deixará de ser lição para se tornar destino. A democracia brasileira, sempre jovem e constantemente ferida, não suportará um novo eclipse. É preciso marchar, debater e ocupar cada espaço público para afirmar que o Brasil não pertence aos herdeiros da tortura. Memória, verdade e justiça não são apenas conceitos — são armas contra o esquecimento cúmplice. A elas, é preciso somar a resistência, a vigia constante e atenta. E a reação nas ruas e nas urnas. Em 2026, que a nossa lembrança seja mais forte que o medo.
Ditadura nunca mais.