O risco de uma “ditadura da maioria” sob Flávio Bolsonaro

Em análise, o advogado Jorge Folena aponta que o domínio do Congresso pela extrema-direita visa enfraquecer o STF e adverte que a eleição do candidato do PL ameaça o Estado laico e o equilíbrio da República

A pequena vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula no primeiro turno das eleições para a Presidência da República acordou uma base que pareciam adormecida no primeiro turno do pleito. Manifestações como há anos não se via na esquerda espalharam-se pelo Brasil. Há motivos: no parlamento, os fascistas alcançaram o objetivo que traçaram muito tempo antes das eleições: dominar o legislativo. No Senado, serão 28 senadores do PL. Na Câmara, a bancada do partido terá 121 deputados em 2027.

O convidado do Soberania em Debate da última semana, o advogado e analista político Jorge Folena, destaca que o foco no domínio do Congresso tinha um objetivo principal: controlar o Supremo Tribunal Federal. “Eles se opõem ao STF, o Poder constituído encarregado de julgar todos os que cometeram crime em 08 de janeiro, que tentaram dar um golpe no Brasil. Em reação às corretas condenações, a extrema-direita apresentou uma plataforma para o parlamento de caçar ministros do STF. Isso não resolve os problemas da classe trabalhadora. Não resolve os problemas dos empresários brasileiros. É um programa que não vai gerar emprego, renda, investimentos, apenas ódio e perseguição a partir do parlamento, buscando o impeachment de ministros do STF por acharem que foram injustos ao condenar Jair Bolsonaro. É isso que sai dessas eleições”, destaca Folena.

Interditado, o debate político, de planos para o futuro do país, desapareceram. Ninguém sabe o que o candidato Flávio Bolsonaro pensa para o Brasil. A captura das atenções para o STF – em óbvio alinhamento entre Flávio e André Mendonça – impediu que o presidente Lula colocasse o debate no centro da campanha. O confronto entre candidatos, a comparação de biografias e propostas não aconteceu. Foi de propósito: Flávio tem um passado pontuado por supostos crimes e contravenções, e evitar ser confrontado tem sido um dos objetivos perseguidos por sua campanha.

 

Famoso ninguém
Presidentes da República são, geralmente, grandes lideranças. Alguém que chega ao posto após ocupar cargos importantes, ou grande produção representando segmentos da sociedade.
Lula está na política desde os anos 1970. Disputa eleições desde 1982. Presidiu o Brasil por 3 vezes. Jamais atacou religiões ou debochou de pessoas. entregou o país melhor do que recebeu nas duas ocasiões em que recebeu a faixa presidencial da oposição.

Flávio Bolsonaro tem como biografia ser filho do Jair e uma vida pública inexpressiva carregada pelo pai. “Nem do movimento estudantil ele foi. Aos 19 anos, entrou na política sem ninguém conhecer. No Rio de Janeiro, nenhum projeto foi apresentado na Assembleia Legislativa. O que conhecemos de Flávio é uma grande aproximação com o crime organizado e investigações que não avançaram graças ao pai dele.

Flávio é um perigo para o país, destaca Folena. Ele e a família dele: tem um irmão negociando a entrega das riquezas do Brasil – terras raras, água e florestas – aos Estados Unidos da América. A virada é possível porque isso está cada vez mais claro para o povo brasileiro: “Depois da eleição do primeiro turno, muita gente se deu conta de que deveria ter votado e não foi. Mesmo alguns que votaram na base do ódio, agora estão tomando consciência de que não podem deixar o país cair nas mãos dessas pessoas”, aponta Folena.

Presente comprometido, futuro escondido
O presente de Flávio Bolsonaro, aponta Folena, é a ligação com Daniel Vorcaro. “O país inteiro escutou Flávio Bolsonaro pedir milhões para Daniel Vorcaro, amigão dele, irmãozão dele.” A defesa de que seria dinheiro privado não se sustenta, avalia o analista: “É dinheiro de fraude e que vem do setor público: do INSS, numa trama criada no governo do pai dele, e de fundos de previdência de servidores públicos.” O caso ficou por isso mesmo porque as Organizações Globo, o Estadão e a Folha de S.Paulo “esconderam e protegeram Flávio Bolsonaro”, destaca.

No STF, Flávio teve um parceiro fundamental: o ministro André Mendonça. Folena afirma que Mendonça deu tratamento desigual – rígido com uns, inerte com o candidato – e que os colegas de Mendonça passaram a questioná-lo depois de terem acesso a um dos telefones de Vorcaro. O analista diz ainda que a Polícia Federal e o ministro Alexandre de Moraes demonstraram que Mendonça fabricou o inquérito contra o filho do presidente Lula, mesmo com a PF e o Ministério Público Federal tendo pedido várias vezes o arquivamento.

O patrimônio também chama atenção. Flávio é “um cara muito rico, só atuando na política”, lembra Folena. Ele cita a compra, no mandato de senador, de uma mansão em Brasília que “deve valer uns R$ 30 milhões” por R$ 6 milhões.

Quanto ao futuro, Flávio o escondeu. “As pessoas estão votando em Flávio Bolsonaro sem saber o que ele vai fazer, porque ele não apresentou, não houve uma discussão política nesse processo eleitoral”, afirma Folena. Do que o candidato disse, foram lembradas as privatizações e cortes sem indicação de onde. Folena afirma que os cortes atingem a educação, a saúde pública e o SUS, e que aposentadorias e pensões deixariam de ser reajustadas pelo salário mínimo. Há ainda a promessa de grandes presídios, no modelo de Bukele, em El Salvador. A “liberdade” que Flávio promete, diz, é a mesma “liberdade econômica” do governo Bolsonaro, que “só gerou espaço para criminosos”, e a de Milei, na Argentina: “As pessoas na Argentina estão na miséria.”

Sem freios

Com o Parlamento sob controle bolsonarista, a vitória de Flávio acabaria com o equilíbrio de forças políticas e sociais que mantém a democracia estável, avalia Folena. “Se Flávio Bolsonaro ganhar, ele vai ter o controle do Parlamento para fazer o que quiser, e do governo também, com o Poder Judiciário extremamente fraco. Os freios e contrapesos vão deixar de existir. Vamos ter uma ditadura da maioria.”

O candidato já fala em mudar a Constituição, o que, segundo Folena, pode ser feito por emenda, sem respeitar cláusulas pétreas. O analista lembra ainda a declaração atribuída a Flávio de que seu primeiro ato seria declarar Jesus Cristo “o Senhor do Brasil”, o que, na avaliação dele, abriria caminho para o fim do Estado laico.

Por isso, ter Lula no Executivo é também garantia de equilíbrio: “Os bolsonaristas controlando o Parlamento e o campo democrático, popular e progressista controlando o governo”, defende Folena.

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