Professor de História norte-americana explica como um psicopata foi reeleito para a presidência dos EUA

Discursos diferentes e práticas muito parecidas marcaram o último enfrentamento entre Democratas e Republicanos. Vendo todos como iguais, a população apostou em quem oferecia uma falsa saída pela ultradireita

“Donald Trump é um psicopata, racista, misógino e homofóbico, que deseja exercer poder sobre as pessoas mais vulneráveis da população: minorias raciais, imigrantes, mulheres, comunidades LGBT e outras nações”. É assim que o professor de História dos Estados Unidos, Sean Purdy, da Universidade de São Paulo (USP) define o presidente norte-americano de extrema direita que vem desafiando o mundo.

O entrevistado do programa Soberania em Debate, exibido em 20 de fevereiro, contou aos apresentadores – a jornalista Beth Costa e o advogado Jorge Folena – como Trump usou o medo e as incertezas de parte do povo americano para voltar à presidência. Segundo ele, o contexto é fundamental: Trump é resultado de uma crise econômica e política de nível mundial causada pela falência do modelo neoliberal. É a versão norte-americana de outras figuras que no Brasil, Argentina e em parte da Europa, veem na crise uma oportunidade de instrumentalizar receios legítimos do povo.

“A população norte-americana enfrenta muitas incertezas econômicas básicas, como a falta de empregos e a inflação. Trump ofereceu uma suposta solução a esses problemas, fantasiosa, sem condições de ser cumprida, mas que nesse contexto de medo, garantiu a ele as eleições”, destacou o professor.

 

Mais do mesmo

Purdy chama atenção para o ceticismo que levou 33% da população votante a escolher Trump. E os democratas são parte do problema, ajudando a pavimentar o caminho para Trump. Segundo o professor, muito do que Trump está fazendo é continuação das políticas de Obama e Biden. 

“Houve mais deportações e ataques a imigrantes nos governos de Obama e Biden que no primeiro mandato de Trump, por exemplo. Kamala Harris, como procuradora da Califórnia, implementou políticas contra a população negra. Tudo isso criou um ceticismo da população sobre suas promessas. O partido chamou Trump de fascista na campanha, mas não ofereceu uma alternativa real a ele”, explicou.

As diferenças entre os partidos existem, mas as similaridades são tantas que levaram o cidadão americano a pensar que são todos iguais. Foi esse ceticismo que levou apenas pouco mais de 60% da população a se interessar em escolher um deles. Quem votou decidiu com base em um cenário em que os discursos não batiam com a realidade. O que Kamala e Biden falavam não se refletia nas ações. 

A economia, segundo Purdy,  não estava bem e, embora Trump não tenha uma solução, Biden também não tinha. Desde o fim dos anos 70, a população norte-americana trabalha mais, tem menos férias e ganha cada vez menos e os números positivos apresentados por Biden não se refletiam na vida das pessoas, que segue difícil. “O partido Democrata não conseguiu oferecer uma clara alternativa às políticas de Trump”, ressaltou.

Os iguais se atraem

Os paralelos entre o bolsonarismo e o trumpismo são muitos, uma vez que ambos resultam de um fenômeno global de ultradireita. Putin e Milei são outros exemplos de políticos que oferecem uma suposta solução para a vida da população, mas que, na verdade, não trazem nenhuma melhoria para a vida da classe trabalhadora. Trabalham, na verdade, para garantir o poder das elites. 

Geralmente, esse poder é garantido por subsídios ao agronegócio, à indústria e, no caso norte-americano, às big techs. “É claro que os donos e CEOs das big techs vão buscar favores com o governo Trump. Porque são gente má, sem caráter mesmo, buscando apenas dinheiro e poder. Não é surpresa que Ellon Musk, outro psicopata, seja muito amigo de Trump. E não é surpresa que toda a escória da sociedade brasileira, grandes empresários, coaches, sertanejos também apoiem Bolsonaro. Eles trazem à tona o pior tipo de gente. Todo este grupo é composto por pessoas que não estão nem aí para a situação do brasileiro comum. O que eles querem é consolidar seu poder e ganhar dinheiro através disso”, apontou o professor.

Bolsonaro poderia ter o mesmo destino de Trump no Brasil. O que há de diferença, destacou o professor, está na lei. “Trump é um criminoso, condenado, que se livrou das penas e se tornou presidente. Parece que aqui isso não vai acontecer aqui. Bolsonaro vai ser preso, o que mostra que as instituições democráticas brasileiras estão mais fortes que as americanas”. 

A resistência está no povo

Embora Trump tente se apresentar como um líder de poderes imperiais, o professor destacou que há resistência. Não se trata de um enfrentamento no campo da política institucional: segundo o professor, o partido Democrata não tem se movimentado para fazer oposição ao governo Trump. Mas a sociedade, sim. 

“O partido democrata não tem feito nada contra Trump. Quem está na luta são os sindicatos, movimentos sociais e o próprio judiciário. Vários juízes nomeados por Trump no primeiro mandato tem feito ações contra o governo Trump agora, revogando seus decretos. Vejo que, a menos que haja uma reviravolta no partido Democrata, ele não vai fazer nada. A luta tem que ser independente dele. Está claro que não podemos confiar. Ele não é um partido operário, não é da esquerda, não é social. É um partido capitalista com um tom mais brando. A minha aposta é na luta social. Temos que nos organizar, mobilizar, ir para as ruas, não ficar com medo. É o único jeito de lidar com essa situação, não só nos EUA como no Brasil”, apontou.


O programa Soberania em Debate, projeto do SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTubetodas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa e do cientista social e advogado Jorge Folena, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. O programa também pode ser assistido pela TVT aos sábados, às 17h e à meia noite de domingo. O programa também pode ser assistido pelo Canal do Conde.

 

Rodrigo Mariano/Senge RJ | Imagem: DALL-E AI

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