Soberania em Risco: O Alerta Vermelho no Setor Nuclear Brasileiro

Senge RJ articula com deputados federais pela defesa do Setor Nuclear brasileiro, alertando para os impactos sociais, técnicos e políticos do processo de desmonte nas empresas estratégicas do país

O setor nuclear não é apenas um pilar da matriz energética, mas um ativo fundamental da segurança e da autonomia tecnológica do Brasil. No entanto, o cenário atual de empresas como Eletronuclear, INB e Nuclep revela uma crise que ultrapassa a gestão administrativa, atingindo diretamente o capital humano especializado e a memória institucional construída ao longo de décadas. O manifesto do Senge RJ, articulado com mandatos da esquerda progressista no Congresso, detalha como a instabilidade política e a desvalorização profissional colocam em xeque a soberania nacional e a credibilidade do Estado diante de um patrimônio estratégico que não aceita omissão.

Leia abaixo na íntegra:

Prezados,

Esta manifestação não trata de divergências administrativas nem de controvérsias técnicas. Trata-se de uma denúncia política objetiva: o setor nuclear brasileiro vem sendo deliberadamente exposto a um processo de corrosão interna que, se não contido, produzirá desgaste institucional, crise social e dano direto à credibilidade do governo federal e a perda progressiva do conhecimento e do domínio completo da tecnologia do ciclo nuclear pelo Brasil, afetando de forma direta a soberania nacional.

O que se observa hoje em empresas estratégicas como Eletronuclear, INB e Nuclep não decorre de falhas ocasionais de gestão. Trata-se de uma dinâmica política que ignora conscientemente consequências humanas, sociais e estratégicas, produzindo instabilidade, paralisações e conflitos internos com potencial de se converterem em crise nacional. Cada decisão equivocada nesse setor não atinge apenas estruturas administrativas: atinge  trabalhadores altamente especializados, suas famílias, municípios inteiros e cadeias produtivas sensíveis ao interesse nacional.

É imprescindível destacar que Eletronuclear, INB e Nuclep constituem um sistema indivisível. Não há geração nuclear segura sem combustível nacional; não há soberania no ciclo do combustível sem domínio tecnológico e industrial; e não há indústria nuclear viável sem um programa ativo, contínuo e politicamente protegido. Fragilizar qualquer uma dessas empresas significa comprometer todas as demais e desmontar, na prática, o programa nuclear brasileiro construído ao longo de décadas.

A escolha do setor nuclear como palco dessa instabilidade não é casual. Trata-se de um segmento cuja exposição pública é máxima e cujos efeitos colaterais técnicos, diplomáticos e políticos recaem diretamente sobre o Estado brasileiro e sobre a autoridade do Presidente da República. Pequenas falhas, atrasos induzidos ou conflitos internos artificialmente ampliados têm potencial de produzir repercussões nacionais e internacionais imediatas. Recentes acontecimentos na América do Sul evidenciam que a preservação do conhecimento e do domínio da tecnologia nuclear não se limita a objetivos de desenvolvimento econômico, social e bem-estar da sociedade brasileira, mas constitui também elemento central da defesa nacional. Países que detêm o domínio do ciclo nuclear constroem fundamentos técnicos e políticos capazes de sustentar sua autonomia estratégica e de conter pressões externas historicamente exercidas por potências acostumadas a explorar recursos, capacidades e vulnerabilidades alheias.

As consequências já são visíveis: evasão de quadros experientes, perda acelerada de memória institucional, desmotivação generalizada e risco concreto de demissões diretas e indiretas. Em um setor dessa natureza, cada desligamento representa décadas de investimento público desperdiçadas e um dano social que se irradia para além dos muros das empresas. Persistir nesse caminho significa aceitar dependência externa, insegurança energética e fragilização tecnológica — um retrocesso incompatível com qualquer projeto soberano de país.

Nesse contexto, a postura das atuais diretorias na Eletronuclear não pode ser compreendida como mero descompasso administrativo. A deterioração deliberada do ambiente de trabalho, a demonização de técnicos e a normalização de práticas incompatíveis com a ética pública cumprem papel funcional nesse processo de esvaziamento humano e institucional, acelerando o colapso interno do setor.

É preciso afirmar com todas as letras: permitir esse desmonte significa expor o governo federal ao risco de ser responsabilizado por uma das mais graves omissões estratégicas da história recente. Não haverá transição energética consistente, política séria de descarbonização nem segurança energética sem uma base nuclear sólida, estável e respeitada. Tampouco haverá justiça social quando milhares de empregos altamente qualificados forem destruídos por negligência ou cálculo político.

A marca histórica do abandono não recairá sobre técnicos e empregados, mas sobre aqueles que, tendo autoridade política e dever institucional, optarem por assistir passivamente à degradação de um patrimônio estratégico da Nação.

Ainda há tempo para corrigir o curso. Mas esse tempo é limitado e está sendo rapidamente consumido.

A História não absolve os omissos!

Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro

Foto: Eletronuclear/Divulgação

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