Todos os países desenvolvidos do mundo utilizaram empresas estatais estratégicas como instrumentos centrais de crescimento. Do centro do sistema produtivo mundial, eles alimentam sua indústria com altos investimentos estatais. Nós, na periferia, cumprimos o papel subalterno, focado na exportação de matérias-primas. E há, ainda, quem venda doutrinas que afirmam que a contenção industrial imposta ao Brasil e a privatização de suas empresas estatais é o caminho a ser seguido.
A Soberania e os instrumentos concretos com os quais ela é construída e mantida foram os temas centrais do último Soberania em Debate da temporada de 2025. O convidado para o papo com a jornalista Beth Costa, direto da bancada do Estúdio Kamarada, foi Paulo Augusto Vivacqua, presidente emérito da Academia Nacional de Engenharia, professor emérito da UFES e ex-presidente da Vale, Vale Norte e Valec.
“Ser soberano é decidir os próprios rumos e batalhar por eles. É uma forma de governar um país em benefício do seu povo. Prosseguir continuamente na melhoria da vida do povo do país. É o que têm o francês, o japonês, o russo, o americano. A estratégia brasileira neste contexto é encontrar uma forma digna de conviver com os Estados Unidos. Não é vencer os Estados Unidos, mas ser um parceiro digno”, apontou Vivacqua.
Para o engenheiro, o ataque sistemático às estatais brasileiras faz parte de um projeto que visa desarmar o Estado brasileiro, impedindo-o de exercer seu poder soberano em áreas fundamentais para a competitividade global.
O exemplo da Vale do Rio Doce estatal foi citado como um modelo mundial de competência técnica e administrativa. Vivacqua relembrou o projeto Carajás como um marco da engenharia nacional, construído exclusivamente por empresas e profissionais brasileiros, sem a necessidade de consultorias estrangeiras. Naquela época, a Vale funcionava como um polo de pesquisa e desenvolvimento que impulsionava toda a cadeia produtiva e logística do país. A empresa não apenas extraía minério, mas criava ciência e tecnologia, garantindo que o valor gerado pela exploração do subsolo permanecesse no Brasil para sustentar o desenvolvimento de longo prazo. Fazia tudo isso, lembrou Vivacqua, mantendo os prazos de cumprimento de contratos à risca.
“Foram feitas diversas parcerias estratégicas com outros países, como o Japão, que precisava do nosso alumínio. Isso resultou no complexo industrial Albras lá no norte. Alimentado pela energia, na época, também estatal, produzida em Tucuruí, a cadeia produtiva da bauxita da própria Vale fornecia o alumínio em grande quantidade, a baixo custo e já vendido para o Japão. Era uma estatal de alto nível, sem as quais um país não se desenvolve”, apontou o convidado.
Subsolo sequestrado
A crítica à privatização da Vale também ocupou lugar de destaque, sendo descrita como a perda do controle estratégico sobre o subsolo brasileiro. Viváqua lamentou que ativos valiosos, como o complexo de alumínio, tenham passado para o controle de Estados estrangeiros, como a Noruega, enquanto o Brasil abria mão de lucros que poderiam ter financiado a infraestrutura social e a erradicação da pobreza. Ele classificou esse processo como parte de um “pacto de saque” ao Estado, onde interesses privados e políticos se sobrepõem ao interesse público, resultando na desarticulação de setores que deveriam ser a espinha dorsal da soberania nacional.
“Muitas privatizações passam por aí. O Brasil, ao perder a Vale, perdeu o conhecimento profundo, o investimento feito para alcançá-lo, perdeu o próprio controle de seu subsolo”, lamenta o professor.
Para o futuro, a mensagem deixada é a de que o Brasil precisa recuperar sua “cultura soberanista”, começando pelas escolas de engenharia. Viváqua defende que os novos profissionais devem ser formados com uma percepção histórica e patriótica, entendendo os desafios logísticos e tecnológicos do país. A integração nacional através de uma malha ferroviária eficiente e o controle sobre setores de comunicação e energia são vistos como passos inadiáveis.
Para as vésperas de uma eleição geral neste ano, a mensagem final de Vivacqua é fundamental: a grandeza do Brasil exige líderes que unam os recursos naturais, a população e o conhecimento técnico em um projeto generoso e soberano de nação.
“A elite se dissociou da população. Enquanto não se caldear a união entre elite, população e recursos naturais, a nação fica derrapando. E não há viés ideológico no que estou falando. O viés é soberano. Normal, justo e digno. Os minerais do Brasil pertencem aos Brasileiros. Eles devem ser usados para criar a educação de alta qualidade, a boa habitação, a boa saúde”, defendeu.
O programa Soberania em Debate, projeto do SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube, todas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra e redação de Rodrigo Mariano. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT, Canal do Conde, e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil. A temporada 2026 do Soberania em Debate começa no dia 05 de fevereiro.