Soberania no Século XXI: Os Desafios do Brasil Diante da Nova Geopolítica Global e do Desmonte Interno

Soberania Nacional: uma disputa que vai muito além das fronteiras e das riquezas naturais; E que só pode ser vencida se houver vontade política

Para debater os rumos do país e as ameaças ao nosso desenvolvimento estratégico, o SOS Brasil Soberano, iniciativa do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE-RJ), iniciou o mês temático sobre “Soberania” com uma edição fundamental do programa Soberania em Debate, em 07/05. Conduzida pela jornalista Beth Costa, a live contou com a expertise do professor Thomas de Toledo, historiador e especialista em relações internacionais.

O futuro do país depende intimamente da afirmação de um projeto nacional centrado na independência tecnológica, econômica e política. Na visão pragmática das relações globais abordada na conversa, o Brasil impõe respeito no exterior pelo simples fato de estar entre as maiores economias do mundo, ser detentor de um território continental e possuir recursos vitais inestimáveis. Contudo, a construção de uma nação verdadeiramente soberana exige não apenas o fortalecimento do Estado e a interrupção das políticas entreguistas em setores chaves, mas também uma profunda mudança na comunicação e na mobilização popular

A Batalha Pelas Terras Raras e a Nova Geopolítica

No xadrez global, a diplomacia e o respeito entre as nações sobrepõem-se a alinhamentos ideológicos automáticos, e o centro nervoso dessa negociação envolve o controle das nossas riquezas minerais. As terras raras são a espinha dorsal da indústria bélica contemporânea e da produção global de semicondutores e materiais sensíveis, frequentemente tratadas como o petróleo do século XXI.

O Brasil encontra-se em uma posição de enorme privilégio estratégico nesta disputa internacional, abrigando cerca de 23% de todas as reservas mundiais conhecidas. Apesar dessa vantagem, figuras da extrema direita articulam abertamente para entregar essas riquezas ao capital estrangeiro sem qualquer contrapartida tecnológica para o país.

Para o professor Thomas de Toledo, o imperativo para a reindustrialização nacional é garantir o processamento desses minerais em território interno. Ao analisar a postura diplomática que o governo brasileiro deve adotar frente a potências como os Estados Unidos, o especialista apresentou a lógica de que o Brasil não pode se submeter: “Precisamos dizer que não temos problema de de negociar as terras raras. Mas também que queremos que o processamento seja feito no Brasil”.

Essa firmeza é o que atrai o respeito no cenário internacional, contrastando com atitudes de subserviência de líderes políticos que operam sob um complexo de inferioridade. Detalhando o raciocínio das negociações internacionais, Toledo explicou: “A questão é que o estadunidense respeita quem ele considera vencedor. Ele respeita quem tem algo maior por trás de si. Trump vê no Lula essa liderança. Ele vê que o Lula, quando faz um discurso criticando os Estados Unidos com assertividade, diz o que pensa. É o tipo de crítica que impõe respeito”.

Soberania Digital e o Monopólio das Big Techs

Se o controle sobre a terra e os minérios continua fundamental, a dependência em relação aos dados ganha contornos ainda mais letais no atual ambiente digital. Hoje, as megacorporações privadas de tecnologia — as chamadas Big Techs — acumulam poderes extranacionais assustadores, com capacidade comprovada de interferir e desestabilizar processos eleitorais em todo o mundo.

A expansão estrangeira no Brasil através da instalação de grandes data centers consolida uma nova e preocupante forma de exportação de matéria-prima, com um alto custo ambiental. Essas infraestruturas consomem quantidades massivas de energia elétrica e utilizam a água pura do território brasileiro, enquanto o país sequer possui acesso aos dados que circulam em seu próprio solo.

Toledo alertou para a urgência de mudarmos essa rota extrativista, apontando que ceder nossos recursos vitais para armazenar dados controlados por monopólios corporativos internacionais não nos garante avanços científicos. Na reflexão do historiador, a soberania neste século passa obrigatoriamente pelo desenvolvimento da inteligência artificial local e pela gestão nacional da informação, rompendo com a hegemonia estrangeira que hoje nos subjuga.

Como uma alternativa imperativa e prática para garantir a verdadeira soberania informacional, o especialista defendeu ativamente a criação de infraestruturas estatais de comunicação digital. Em sua fala, pontuou as bases dessa necessidade estrutural: “Precisamos de uma rede social pública do Brasil. Um espaço regulado pelas leis do Brasil, que seja de código aberto pra gente saber como é que funciona o algoritmo, e que dê liberdade de expressão ao cidadão brasileiro”.

O Custo do Rentismo e as Consequências das Privatizações

Internamente, os maiores entraves para o desenvolvimento soberano são os fatores de ordem política e a dinâmica do capitalismo financeiro exacerbado. A engenharia nacional e a indústria são constantemente sufocadas por uma elite econômica que abandonou o setor produtivo, direcionando o capital inteiramente para áreas que garantem lucros estratosféricos sem qualquer compromisso com o país.

A manutenção de taxas de juros elevadas atua de forma predatória contra a produção, desestimulando investimentos na economia real e criando gargalos estruturais insustentáveis. A consequência direta é o sequestro da máquina do Estado, como Toledo descreveu contundentemente: “Não vamos conseguir desenvolver a indústria com os juros na taxa praticada hoje. A taxa Selic serve, basicamente, para vampirizar o orçamento público”.

Simultaneamente, o Brasil amarga as perdas decorrentes de décadas de privatizações sistemáticas e do desmonte de políticas públicas de infraestrutura e soberania energética. A alienação fatiada da Petrobras, a entrega de refinarias lucrativas e o sucateamento de indústrias nacionais que hoje poderiam suprir toda a nossa demanda por fertilizantes ilustram a irracionalidade da entrega do patrimônio público.

As dolorosas tragédias ambientais e sociais recentes representam o verdadeiro saldo letal desse modelo de desregulamentação e privatização de áreas críticas. Citando diretamente o abandono estatal sobre a mineração e as falhas nas políticas públicas de contenção que arrasaram o Rio Grande do Sul, o professor sentenciou sobre as omissões deliberadas: “Com controle estatal, evitaríamos esse tipo de coisa”.

Comunicação Estratégica e o Futuro em 2026

Diante do ataque maciço aos direitos do povo e ao patrimônio nacional, a construção de um projeto soberano precisa abandonar o isolamento burocrático e disputar ativamente o imaginário coletivo e a comunicação. O campo progressista ainda enfrenta enormes dificuldades em dialogar massivamente com a classe trabalhadora, abrindo um vácuo de poder e narrativa que é rapidamente preenchido pela extrema direita nas redes sociais.

O financiamento de políticas de mídia precisa ser revisto, parando de concentrar recursos públicos exclusivamente na imprensa hegemônica para incentivar comunicadores populares e debates que fomentem projetos nacionais. Avaliando a falha de integração na mobilização das bases, Toledo argumentou de forma direta: “O governo precisa entender que o povo também é jogador. O que ele precisa fazer é falar direto com a população, colocar o povo para debater os temas nacionais; Tocar as bolas para o povo. Aí você cria caldo para que os movimentos sociais mobilizem”.

A antecipação das pautas é fundamental; não se pode aguardar passivamente a véspera das eleições para debater industrialização ou a defesa dos recursos minerais. Os entreguistas articulam suas frentes há anos, e o embate por um novo projeto de Brasil precisa ocorrer de maneira contínua, usando as ações institucionais para fomentar a conscientização política na sociedade civil.

Com os olhos voltados para o árduo cenário de 2026, a verdadeira batalha não reside apenas em resguardar o Executivo, mas em formar um Congresso que não barre os avanços estruturais. Convocando a classe trabalhadora para a luta política e eleitoral iminente, o historiador resumiu o objetivo das forças populares nos próximos anos: “A gente precisa ganhar e mudar a correlação de forças. É essa a nossa tarefa central agora”, finalizou.

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