Super El Niño: o Brasil está preparado para o clima extremo que vem por aí?

Cientistas do mundo inteiro já apontam para o mesmo horizonte: entre setembro e dezembro deste ano, o planeta deve enfrentar um dos episódios de El Niño mais intensos já registrados em mais de um século de observação meteorológica

Batizado por parte da comunidade científica de “Super El Niño”, o fenômeno reacende um alerta que soa cada vez mais urgente — o de que o aquecimento global não é mais uma ameaça distante, mas um processo em curso, com efeitos concretos sobre a vida de milhões de brasileiros. 

Para discutir o tema, o programa Soberania em Debate, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE/RJ), recebeu o climatologista Carlos Nobre, uma das maiores autoridades mundiais em mudanças climáticas e ex-integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), vencedor do Nobel da Paz em 2007.

O que torna este El Niño diferente

Todos os grandes centros de pesquisa climática e oceânica do planeta convergem para a mesma projeção: o El Niño que começou a se formar em abril e maio deste ano atingirá, entre setembro e dezembro, um patamar classificado como muito forte. A métrica usada pelos cientistas é a temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial, numa faixa específica entre 170º e 120º de longitude oeste. Quando essa temperatura supera 2ºC acima da média histórica, o fenômeno já é considerado muito forte. As projeções atuais indicam que ele pode chegar a 3ºC, um patamar sem precedentes documentados no último século.

Para efeito de comparação, o El Niño anterior, de 2023 e 2024, foi classificado como moderado durante praticamente todo o seu ciclo, alcançando o nível mais alto por apenas cerca de dois meses. Mesmo assim, aquele episódio já havia sido suficiente para provocar a maior seca já registrada na história da Amazônia. Carlos Nobre lembra que nunca, neste século ou no anterior, o planeta presenciou um El Niño que tivesse atingido temperaturas tão elevadas quanto as que estão sendo projetadas agora. “Nós temos que aguardar para ver se isso vai acontecer. Mas o risco é muito grande. Nós temos que nos preparar para, pela primeira vez na história, aqui do Brasil e no mundo, atravessar um El Niño muito forte”, destaca o cientista.

O impacto no território brasileiro segue um padrão conhecido, mas que tende a se intensificar: seca em boa parte da Amazônia e do Nordeste, chuvas excessivas concentradas no Sul do país, além de ondas de calor severas na Amazônia e no Nordeste, com reflexos isolados no Sudeste e no Centro-Oeste. Segundo Nobre, esse padrão climático, somado ao aquecimento acelerado dos oceanos, cria um cenário de sobreposição de riscos que o país ainda não enfrentou em toda a sua extensão.

 

Aquecimento global e ação humana

Questionado sobre até que ponto é possível separar os fenômenos climáticos extremos da ação humana, Carlos Nobre foi categórico ao situar historicamente o problema. Segundo ele, o planeta já registrou eventos climáticos extremos ao longo de centenas de milhões de anos, geralmente associados a fenômenos naturais, como grandes liberações de gás carbônico provocadas por atividade vulcânica e tectônica, responsáveis por ao menos cinco das grandes extinções de espécies na história da Terra. Houve inclusive um Super El Niño registrado entre 1877 e 1879, décadas antes de qualquer aquecimento global de origem humana.

O que mudou, explica o cientista, é a escala e a origem das emissões atuais. Por centenas de milhares de anos, a concentração de gás carbônico na atmosfera oscilou entre 180 e 280 partes por milhão, variando conforme os períodos glaciais e interglaciais. Hoje, esse número já se aproxima de 430 partes por milhão. Apenas 1,5% desse salto pode ser atribuído a fontes naturais, como vulcões e terremotos. Todo o restante decorre da queima de combustíveis fósseis, que responde por cerca de 75% das emissões globais, e do uso da terra (desmatamento e agropecuária), que soma entre 22% e 23%. “Somos nós que estamos jogando esses gases de efeito estufa na atmosfera”, resumiu Nobre.

O climatologista também fez questão de esclarecer que o aquecimento global não elimina a possibilidade de eventos extremos naturais, mas aumenta drasticamente a frequência deles. El Niños fortes, raros até poucas décadas atrás, agora se repetem em intervalos cada vez menores — 1982-83, 1992-93, 2015-16 e o atual. “Com o Pacífico mais quente, e a frequência de El Niños fortes aumenta”, explicou.

A urgência da transição energética e a COP30

A entrevista também abordou os desdobramentos da COP30, realizada em Belém do Pará, onde o Brasil tentou avançar um roteiro global de transição energética. Segundo Carlos Nobre, que participou ativamente do evento coordenando um pavilhão de ciência planetária com cerca de 65 sessões científicas, a proposta brasileira buscava um compromisso mundial para zerar o desmatamento e acelerar o fim do uso de combustíveis fósseis. O esforço, no entanto, esbarrou na exigência de consenso entre as nações participantes. “É uma lástima que poucos países não concordaram. Nas COPs, é preciso ter 100% de consentimento”, lamentou.

Para o cientista, a urgência é inequívoca: caso o planeta ultrapasse 1,5ºC de aquecimento de forma permanente até 2030, os eventos extremos, como as ondas de calor, chuvas excessivas, secas, incêndios florestais, vendavais e ressacas tendem a se intensificar de forma acentuada, e não gradual. Apesar disso, os dados mais recentes vão na direção oposta ao necessário: as emissões globais bateram recorde no ano passado e continuam em trajetória de alta nos primeiros meses deste ano, alimentadas em parte pela retomada do uso de carvão em países que, segundo Nobre, elegeram lideranças negacionistas do clima.

Ainda assim, o climatologista defende que a transição é plenamente viável do ponto de vista tecnológico e econômico. A energia solar e eólica já é mais barata que a gerada por termoelétricas a gás natural. No Brasil, ela tem cerca de um terço do custo e gera, segundo Nobre, entre duas e quatro vezes mais empregos do que as fontes fósseis. Há, ainda, um benefício direto para a saúde pública: a poluição urbana, majoritariamente originada da queima de combustíveis fósseis, provoca 7 milhões de mortes por ano no mundo e reduz em quatro anos a expectativa de vida da população da cidade de São Paulo, segundo estudo do professor Paulo Saldiva, da USP citado por Nobre.

Os riscos do “ecocídio”: o que está em jogo até 2050 e 2100

Um dos momentos mais contundentes da entrevista foi quando Carlos Nobre descreveu, em detalhes, o que está em jogo caso as emissões não sejam zeradas nas próximas décadas. Segundo ele, se o planeta atingir entre 2ºC e 2,5ºC de aquecimento até 2050 – trajetória que ele chama de “suicídio ecológico” -, o Brasil corre o risco de perder parcelas expressivas de seus principais biomas: até 50% da Caatinga se tornaria semidesértica, até 70% do Pantanal desapareceria e até 70% do Cerrado se transformaria em vegetação do tipo caatinga. A perda da Amazônia, alerta o cientista, poderia superar 70% de sua extensão atual.

O cenário se agrava quando se olha para 2100. Segundo os modelos citados por Nobre, o planeta pode atingir entre 3ºC e 4ºC de aquecimento até o final do século – o que ele descreve como “ecocídio” -, com extinção em massa de espécies e regiões costeiras e equatoriais se tornando inóspitas à vida humana. Ele cita o próprio local da COP30, Belém, como exemplo: com esse nível de aquecimento associado à alta umidade típica da região, o corpo humano perderia a capacidade de dissipar calor, tornando a permanência ali inviável. Rio de Janeiro, segundo suas projeções, poderia registrar entre 130 e 140 dias por ano em condições de calor considerado inabitável.

Soma-se a isso o risco dos chamados “pontos de não retorno”: o degelo do permafrost na Sibéria, no Alasca e no norte do Canadá liberaria enormes volumes de metano e gás carbônico represados por milhões de anos, e os recifes de coral, já sob forte pressão, poderiam desaparecer por completo. Para Nobre, esses processos, uma vez desencadeados, tendem a se retroalimentar, tornando ainda mais urgente a ação nos próximos anos.

Adaptação: o que o Brasil está fazendo

Diante da proximidade do fenômeno, que deve atingir sua fase mais crítica entre setembro e dezembro, Carlos Nobre destacou medidas que já estão em curso no país. No combate a incêndios florestais, o governo federal contratou mais de quatro mil brigadistas e ampliou o uso de aeronaves para combate ao fogo, resposta direta à temporada de incêndios de 2023-2024, quando 16 mil quilômetros quadrados de floresta foram desmatados por incêndios criminosos, boa parte deles favorecidos pela seca e pelo calor extremo. Estados do Sul do país — Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná — também começaram a estruturar políticas de proteção para populações que vivem em áreas de risco de enchente, na esteira da tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul em 2023 e 2024.

O cientista também apresentou o papel do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), instituição que ele próprio ajudou a criar em 2011, a pedido da então presidente Dilma Rousseff, após a tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, que deixou 918 mortos em janeiro daquele ano. O órgão instalou pluviômetros em mais de 400 escolas situadas em áreas de risco, capacitando mais de 8 mil estudantes que, em diversos casos concretos, já ajudaram a salvar vidas ao alertar vizinhos sobre risco iminente de deslizamento ou inundação.

Para Nobre, no entanto, a adaptação brasileira ainda é insuficiente diante da escala dos riscos. Ele chama atenção para um dado pouco discutido publicamente: as ondas de calor, e não as chuvas extremas, são o evento climático que mais mata no mundo, responsáveis por mais de 500 mil mortes por ano globalmente e entre 10 mil e 14 mil apenas no Brasil nos últimos anos. Apenas 22% das residências brasileiras possuem ar-condicionado, o que torna a restauração florestal urbana uma medida de saúde pública, e não apenas ambiental. Segundo ele, bairros sem vegetação, incluindo muitas favelas, podem registrar temperaturas entre 6ºC e 11ºC mais altas que áreas arborizadas no verão. Soluções de baixo custo, como o telhado verde, já adotado em larga escala em Singapura e em mais de cem cidades chinesas —, podem reduzir em até 6ºC a temperatura interna das residências.

O legado para as próximas gerações

Ao encerrar a entrevista, Carlos Nobre fez um apelo direto às novas gerações e uma autocrítica de sua própria trajetória. Nascido em São Paulo em 1951, o cientista reconhece que sua geração foi a primeira a dispor de evidência científica clara sobre a emergência climática e, ainda assim, não conseguiu deter o avanço das emissões nem a escalada dos eventos extremos. “Temos levado esses conceitos para as novas gerações: elas têm que assumir uma liderança que a minha geração e a próxima não assumiram”, afirmou.

Segundo ele, essa liderança se apoiará em dois pilares plenamente factíveis: a mitigação, por meio da aceleração das energias renováveis e da adoção de práticas de agricultura e pecuária regenerativas, responsáveis, no caso brasileiro, por parcela significativa das emissões nacionais, já que 70% delas decorrem do uso da terra; e a adaptação, incluindo a expansão de iniciativas como o Cemaden Educação nas escolas brasileiras.

Nobre encerrou a conversa com uma mensagem que classificou como central: em novembro do ano passado, a Academia Brasileira de Ciências lançou um estudo apontando que o Brasil tem condições reais de gerar emissões líquidas negativas até 2040, zerando e depois revertendo sua contribuição para o aquecimento global, por meio da restauração de seus biomas e da liderança na transição energética. “Vamos ser um grande líder em zerar rapidamente as emissões, fazer uma grande restauração de todos os nossos biomas,com a maior biodiversidade do mundo, 18 a 20% das espécies conhecidas. Nessa direção, seremos o grande líder na missão de salvar o planeta”.


O programa Soberania em Debate, projeto do movimento SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube todas as quintas-feiras, às 16h. Apresentação e roteiro são da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil.

Foto: Divulgação/IEA

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