O programa Soberania em Debate, produzido pelo movimento SOS Brasil Soberano do Senge RJ, trouxe na primeira semana de abril uma análise profunda sobre um dos temas mais críticos da geopolítica atual: a ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Sob a condução de Beth Costa, a entrevista com o jornalista e analista político Breno Altman desmistificou a narrativa da “grande imprensa” e revelou as engrenagens de um conflito que, embora distante geograficamente, atinge em cheio a economia e a autonomia das nações latino-americanas.
Para os profissionais da engenharia e defensores do desenvolvimento nacional, o debate expôs como a soberania de um país está intrinsecamente ligada à sua capacidade de resistir a danos e à sua independência tecnológica. Altman argumentou que o ataque iniciado em 28 de fevereiro, longe de provocar o colapso do governo iraniano, gerou uma coesão nacionalista que os cálculos de Washington e Tel Aviv — baseados em uma visão “orientalista e racista” — foram incapazes de prever.
O Cálculo Equivocado da “Mudança de Regime”
O objetivo central da agressão liderada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu era o aniquilamento da República Islâmica, aproveitando-se de supostas vulnerabilidades internas. Segundo Altman, a estratégia ocidental previa que ataques cirúrgicos contra o alto comando iraniano desencadeariam uma insurgência popular. “Essa era a conta e deu tudo errado”, pontuou o analista. O que se viu foi uma resposta social massiva, unindo até mesmo setores oposicionistas em torno de uma pauta nacionalista de defesa do território contra a agressão estrangeira.
Essa resiliência baseia-se em uma doutrina militar inspirada no general vietnamita Nguyen Giap: a vitória em uma guerra assimétrica não depende apenas de quanto dano se causa ao oponente, mas de quanto dano se é capaz de suportar. O Irã, como uma civilização milenar, opera sob uma lógica existencial. Para Teerã, a sobrevivência do regime após semanas de bombardeios brutais já configura uma vitória política e estratégica, enquanto para os agressores, qualquer resultado que não seja a destruição total do Irã representa uma derrota humilhante.
A estratégia iraniana de contraofensiva também se mostrou superior ao previsto. Ao fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, e contar com o apoio do “Eixo da Resistência” — incluindo o Hezbollah e os Rutes do Iêmen —, o Irã conseguiu transpor a crise para o campo econômico do Ocidente. A pressão agora recai sobre os líderes agressores, que enfrentam isolamento diplomático e crises políticas internas em pleno ano eleitoral.
“Uma guerra não é predominantemente vencida pela tua capacidade de impor danos ao inimigo. A guerra é vencida pela tua capacidade de resistir aos danos que o inimigo te provoca. O Irã partiu desse princípio: as perdas são pesadas, mas o país está disposto a suportar o que for necessário para não entregar sua terra.”
Engenharia Militar e a “AK-47 da Modernidade”
Um dos pontos mais mais interessantes destacados por Altman foi a análise da autonomia tecnológica iraniana. O Irã detém hoje uma das maiores taxas de formação de engenheiros per capita do mundo, mão de obra que foi sistematicamente direcionada para a criação de uma indústria de defesa original e resiliente. O país construiu dezenas de fortalezas subterrâneas, verdadeiras cidades de lançamento de mísseis protegidas contra bombas de alto impacto, o que garante a capacidade de resposta mesmo sob cerco aéreo total.
A grande inovação, contudo, está na democratização da letalidade através dos drones. Altman classificou esses equipamentos como a “AK-47 da modernidade”. São ferramentas baratas, simples de operar e produzidas em larga escala, que impõem um custo financeiro insustentável aos sistemas de defesa bilionários de Israel e dos EUA. Enquanto um drone iraniano custa cerca de 25 mil dólares, cada míssil interceptador utilizado pelo “Domo de Ferro” pode custar até 4 milhões de dólares, criando uma guerra de exaustão econômica.
Além disso, o Irã demonstrou uma curva de aprendizado acelerada. No início do conflito, utilizou mísseis obsoletos para saturar os radares inimigos, reservando sua tecnologia de ponta para ataques precisos que hoje apresentam uma taxa de eficiência superior a 60%. Essa combinação de engenharia reversa, produção nacional e inteligência tática permitiu que um país sob sanções severas conseguisse enfrentar tecnologicamente as maiores potências militares do planeta.
“Os drones são a AK-47 da guerra moderna: baratos, simples de lançar e produzidos em quantidade. O Irã construiu uma estratégia onde a tecnologia de baixo custo sangra as finanças do inimigo. É uma engenharia de defesa inteligente, espalhada por um território gigantesco, que garante a contraofensiva mesmo sob os ataques mais brutais.”
Impactos no Brasil e a Necessidade de Dissuasão
Os reflexos dessa guerra no Brasil são imediatos e preocupantes, especialmente no que tange à inflação. Altman destacou que o aumento de mais de 50% no querosene de aviação e a disparada do preço do barril de petróleo (que ultrapassou os 100 dólares) têm potencial para desestabilizar a economia interna. Em um país que optou pelo transporte rodoviário, qualquer oscilação no preço dos combustíveis atinge diretamente o bolso do trabalhador e a popularidade do governo, tornando o cenário internacional um fator decisivo para as eleições de outubro.
O analista também teceu críticas à “timidez” da diplomacia brasileira no atual governo. Embora o presidente Lula tenha denunciado as agressões, Altman vê um recuo em direção a uma neutralidade que, em um mundo polarizado, pode ser inócua. Ele defendeu que o Brasil deveria abraçar uma agenda mais afirmativa e nacionalista, como a criação de uma estatal 100% pública para gerir as terras raras, garantindo que nossas riquezas minerais sirvam à reindustrialização e não ao interesse estrangeiro.
Por fim, a entrevista levantou um debate espinhoso, mas necessário: a capacidade de dissuasão nuclear. Altman argumentou que a decisão histórica da esquerda brasileira de renunciar às armas nucleares foi um erro estratégico, pois retira do país o instrumento definitivo de proteção de sua soberania. Ele utilizou o exemplo da Coreia do Norte para ilustrar que, no xadrez global, o respeito às fronteiras muitas vezes não advém da diplomacia, mas do medo do agressor diante de uma retaliação de proporções catastróficas.
“A única alternativa para a paz é preparar-se para a guerra. O Brasil precisa de uma capacidade militar dissuasória gigantesca. Ninguém perturba a Coreia do Norte não porque o seu líder é simpático, mas porque ele possui ogivas nucleares. A soberania nacional não se sustenta apenas com notas de repúdio, mas com poder real de defesa.”
A cobertura do conflito entre EUA/Israel e Irã no programa Soberania em Debate deixa uma lição clara: a soberania não é um estado permanente, mas uma conquista diária que exige investimento em ciência, tecnologia e, acima de tudo, coragem política. A resistência iraniana mostra que mesmo diante de uma assimetria militar colossal, a organização nacional e a engenharia própria podem equilibrar o jogo. Para o Brasil, o desafio é superar a timidez diplomática e entender que a defesa de nossos recursos e de nossa economia passa, necessariamente, por uma postura soberana e assertiva no cenário internacional.
O programa Soberania em Debate, projeto do movimento SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube todas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil.