Na semana do Dia Internacional da Mulher, na última terça-feira (10/03), o Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE-RJ) celebrou a data com um debate sobre a luta civilizatória das mulheres por respeito, igualdade e pelo direito à vida. Com um auditório cheio, o SENGE-RJ recebeu as engenheiras que constroem a organização coletiva no sindicato, funcionárias, contratadas e convidadas especiais. Foi uma conversa ampla, interdisciplinar e multifacetada, como devem ser os espaços que colocam temas transversais e universais, como as questões de gênero na classe trabalhadora, no centro do debate.
Com a mediação de Ana Cristina Maia, diretora suplente de Negociações Coletivas do SENGE-RJ e organizadora do encontro, a jornalista e historiadora Cláudia Santiago, a dirigente do SINTERGIA Cássia Liberatori, a deputada estadual Marina do MST e a vereadora Maíra do MST fizeram importantes reflexões sobre as lutas do passado e do presente das trabalhadoras da cidade e do campo.
Mulheres em luta, ontem e hoje
Claudia Santiago Giannotti, referência na comunicação popular e contra-hegemônica e fundadora do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), resgatou a trajetória das trabalhadoras ao longo da história, da Revolução Francesa às últimas décadas, destacando o papel central que as mulheres sempre exerceram na luta.
“Precisamos lembrar daquelas que nos antecederam, como as mulheres que, na Revolução Francesa, já em 1789, não aceitavam que o documento fosse chamado de ‘Estatuto dos Direitos do Homem’. Das russas que cruzaram os braços em 1917, promovendo o estopim da primeira greve geral de que se tem notícia; e das estadunidenses, que foram às ruas e participaram ativamente de congressos que resultaram na instituição do Dia Internacional das Mulheres”, destacou.
Nas coincidências possíveis de encontros entre quem está na militância há muito tempo, Cláudia destacou a trajetória de outra integrante da mesa: “O NPC tem uma cartilha na qual escolhemos algumas mulheres para homenagear, há 17 anos. E entre as Elviras, as Margaridas e as Dilmas que colocamos naquela galeria, lá atrás, já estava a Marina, então menina, do MST”.
Trabalho e vida
Cássia Liberatori, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Energia do Rio de Janeiro e Região (Sintergia), sindicato coirmão do SENGE-RJ, e da CUT, trouxe para o debate a importância de uma luta que transcende a pauta específica das mulheres, mas que as atravessa diretamente: a soberania energética nacional. Militante da Associação dos Empregados da Eletrobras (AEEL) e da Associação dos Empregados de Furnas (ASEF), Cássia destacou que, dentro da casa das engenheiras e engenheiros, o tema da privatização da Eletrobras e a consequente perda do capital intelectual são fundamentais para a defesa do “bem viver” feminino.
Segundo ela, o processo ainda não revertido de entrega do sistema elétrico ao capital privado resultou em demissões por meio de Programas de Demissão Voluntária (PDVs) prejudiciais, assédio cotidiano e uma completa desvalorização dos quadros técnicos que abrigam a inteligência nacional no setor.
“Não são flores o que temos hoje; são pedregulhos que precisamos lapidar. Engenheiras, técnicas, administrativas, nós, mulheres dos campos técnicos e tecnológicos, temos uma grande responsabilidade nas mãos. Precisamos que as entidades e o parlamento estejam conosco para garantir que o bem viver das mulheres venha acompanhado de segurança e soberania nacional e, sobretudo, energética. Precisamos seguir em luta pela reestatização da Eletrobras e pelo aproveitamento da nossa inteligência a serviço do Brasil”, defendeu.
As representantes eleitas
Maíra do MST (historiadora e pesquisadora) e Marina do MST (assistente social e geógrafa) marcam um ponto de virada histórica para o estado e para o município do Rio. Foram as primeiras trabalhadoras do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra eleitas para a Câmara Municipal e para a Assembleia Legislativa (ALERJ), respectivamente.
Seus mandatos foram conquistados logo após um período de forte conservadorismo machista no país. No estado, apontou Maíra, a dominância de um patriarcado tacanho e misógino segue latente, e o trabalho de ambas tem sido o de ampliar espaços de resistência. Esse olhar, centrado no povo trabalhador e no MST, fortalece a necessidade de lutar coletivamente por um projeto de sociedade que priorize os bens naturais e os direitos das mulheres.
“O capitalismo se apropria de tudo que é nosso e tenta, o tempo todo, capturar nossas pautas e nossa história. Por isso é tão importante o resgate da memória das socialistas soviéticas e das mulheres que pavimentaram o caminho que percorremos hoje. A luta antimachista é também anticapitalista, ou não avança”, ressaltou Maíra. Para a vereadora, a disputa ideológica é urgente: “O patriarcado é sustentado pelo sistema econômico que faz com que nossas vidas virem mercadoria. As mulheres trabalhadoras precisam ser as agentes da nossa transformação social”.
Fechando a troca de ideias com um exercício de pensar a sociedade pelo olhar do feminismo, a deputada Marina do MST relembrou sua trajetória e a parceria histórica com o sindicato. “Quando cheguei ao Rio, há 30 anos, fui recebida pelo SENGE-RJ. Construímos juntos um processo de formação sobre o projeto democrático e popular para o Brasil. O sindicato tem muita responsabilidade na construção do MST no estado e na minha própria formação”, afirmou.
Marina demonstrou preocupação com a regressão das pautas urgentes: “Assusta que, após as lutas históricas por direitos trabalhistas e pelo voto na década de 30, a nossa luta principal no século XXI tenha voltado a ser o direito à vida. O foco hoje é estarmos vivas. Relembramos esta semana o feminicídio de Marielle Franco e casos recentes como o estupro coletivo de uma jovem estudante e o faminicídio de uma mulher em São Gonçalo. Não estamos celebrando, estamos marchando em resistência”.
A deputada também destacou a situação das camponesas, quilombolas e indígenas, muitas vezes invisibilizadas e sem acesso a documentos básicos. “Temos rodado o estado em busca da documentação das mulheres do campo, que são fundamentais para a sobrevivência da humanidade. Vivemos uma contradição de projetos: o de cultivar alimentos saudáveis e cuidar da natureza versus o agronegócio que privatiza água e florestas. As mulheres estão no centro dessa disputa pela soberania dos bens naturais”.
Maíra reforçou a importância de envolver toda a sociedade na causa: “É fundamental trazer os homens para o debate, para que se somem à luta”. Ela destacou o ‘Protocolaço’ realizado na última semana, com projetos de lei focados em políticas de equidade e, especialmente, na educação antissexista. “Precisamos formar crianças que não apenas respeitem as mulheres, mas que valorizem a história daquelas que construíram e seguem construindo o nosso país”, concluiu.
Confira as fotos do encontro:



















Fotos: Adriana Medeiros