O cenário geopolítico global foi sacudido em 28 de fevereiro de 2026, quando uma agressão militar contra o Irã alterou definitivamente o tabuleiro de poder mundial. Para analisar os impactos desse conflito no projeto de um mundo multipolar, o programa Soberania em Debate, apresentado por Beth Costa e realizado pelo projeto SOS Brasil Soberano do Senge RJ, recebeu o historiador e analista geopolítico Marco Fernandes. Direto de Moscou, Fernandes trouxe uma visão privilegiada sobre como o BRICS — agora expandido — lida com o seu maior desafio político desde a fundação em 2006.
A análise de Fernandes, que é Membro do Conselho Civil do BRICS e analista geopolítico do portal Brasil de Fato, vai além do campo de batalha imediato, situando o Irã como uma peça central na integração euroasiática e na estratégia de sobrevivência de gigantes como Rússia e China. Para os profissionais da engenharia e defensores da soberania, a matéria expõe uma realidade nua e crua: o mundo caminha para uma reorganização logística e financeira onde o controle de estreitos marítimos e a capacidade industrial de defesa definem quem dita as regras do comércio global, enquanto o Brasil observa, cauteloso, as transformações deste novo século.
Contradições Internas e o “Cavalo de Troia” no BRICS
A expansão do BRICS em 2024, que incluiu o Irã, trouxe também países com alinhamentos ambíguos, como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, além da sempre complexa posição da Índia. Marco Fernandes destacou que a guerra expôs uma ferida aberta no bloco: a existência de “cavalos de Troia” que operam em favor de interesses estadunidenses. O analista apontou que a Índia, sob o governo de Narendra Modi, tem sido o principal entrave para medidas ousadas de desdolarização, como o fortalecimento de sistemas alternativos ao Swift e a criação de uma bolsa de grãos independente.
Segundo Fernandes, a proximidade de Modi com o regime de Netanyahu e a dependência dos Emirados Árabes em relação às bases militares dos EUA criam um jogo duplo perigoso. Enquanto o Irã — agora membro pleno — sofre agressões, países vizinhos também membros do bloco abrigam os ativos que facilitam tais ataques. Essa contradição exige que o BRICS abandone a paralisia do consenso absoluto para avançar em instituições concretas que realmente beneficiem o Sul Global, separando o “joio do trigo” em sua composição política.
Para o analista, o momento é de definição. Não se pode construir uma alternativa à hegemonia imperial com nações que mantêm laços umbilicais com o agressor. A guerra, portanto, atua como um catalisador que obriga o bloco a estabelecer “linhas vermelhas” éticas e políticas. Sem essa clareza, o BRICS corre o risco de permanecer apenas como um fórum de debates estéreis, enquanto o mundo demanda estruturas financeiras e de segurança que não passem pelo filtro de Washington.
“O BRICS não vai avançar se continuar tendo cavalos de Troia atuando em nome dos interesses dos Estados Unidos. Chegou o momento de estabelecer critérios: se você não é contra o genocídio do povo palestino ou se fica de beijinhos com líderes responsáveis por massacres, você não pode construir uma alternativa antiegemônica.”
O Pesadelo de Brzezinski e a Revolução Logística Euroasiática
Um dos pontos mais estratégicos da entrevista diz respeito ao que Fernandes chama de “pesadelo de Brzezinski”. Em 1997, o estrategista americano Zbigniew Brzezinski previu que o pior cenário para os EUA seria uma aliança entre China, Rússia e Irã. Hoje, essa união é a espinha dorsal da Eurásia. A China depende do petróleo iraniano (estimado em até 25% do seu consumo) e investe bilhões em infraestrutura no país através de um acordo de 25 anos. Em troca, Pequim fornece tecnologia de ponta, como o sistema de navegação Beidou e radares capazes de detectar aviões invisíveis (stealth) dos EUA.
Para a engenharia russa e chinesa, o Irã é o nó que desata o cerco marítimo ocidental. Fernandes detalhou a importância do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, que liga São Petersburgo a Mumbai, passando pelo Irã. Esta rota reduz o tempo e o custo de frete em 40%, permitindo que a Rússia e a China contornem pontos de estrangulamento como o Estreito de Malaca e o Canal de Suez, ambos vulneráveis ao controle naval dos Estados Unidos e seus aliados.
O analista revelou que, apesar da discrição diplomática, o apoio técnico de Moscou e Pequim a Teerã é massivo. Antes da guerra, a Rússia mantinha mais de 600 engenheiros nucleares no Irã, e a China opera navios de mapeamento submarino avançado na costa iraniana. Essa cooperação transforma o Irã em uma fortaleza tecnológica e logística, tornando impossível para o Kremlin ou para Pequim assistirem passivamente a uma tentativa de devastação do país por forças estrangeiras.
“Estamos vivendo o grande pesadelo de Brzezinski: a aliança entre Rússia, China e Irã por queixas comuns contra os Estados Unidos. O Irã é hoje a vanguarda anti-imperialista e o parceiro logístico crucial que garante que o comércio euroasiático não dependa da boa vontade de Washington ou de rotas controladas por piratas modernos.”
Indústria Bélica, Dissuasão Nuclear e a Batalha Cultural
Fernandes trouxe uma provocação central sobre o declínio do império: a desindustrialização dos EUA. Segundo ele, “guerra é indústria”, e os Estados Unidos perderam a capacidade de manter um conflito de atrito prolongado contra um adversário de igual peso. Ele citou que, em poucos dias de combate “leve”, os EUA e Israel gastaram 25% do seu estoque de sistemas antimísseis avançados, que levam anos para serem repostos pela Lockheed Martin. O Irã, ciente disso, preparou-se para uma guerra de drones e mísseis de baixo custo que sangra financeiramente a tecnologia sofisticada do Ocidente.
O debate também tocou na sensível questão nuclear. Fernandes concordou com a crítica à “ingenuidade” da esquerda brasileira na Constituinte de 1988 ao proibir o desenvolvimento de armas nucleares no Brasil. Ele argumentou que, na geopolítica real, a soberania é protegida pela capacidade de dissuasão — citando a Coreia do Norte como exemplo de país que não é invadido justamente por possuir ogivas. Sem essa proteção, as nações do Sul Global permanecem à mercê de líderes “messiânicos e suicidas” como Trump e Netanyahu.
Por fim, o analista defendeu a necessidade de quebrar os preconceitos ocidentais sobre a sociedade iraniana. Marco Fernandes, que visitou o país recentemente, destacou o gigantismo da cultura persa e o papel ativo das mulheres e intelectuais iranianos. Ele refutou a ideia de que a resistência iraniana seja apenas religiosa, caracterizando-a como uma luta civilizatória e anti-imperialista profunda. Para ele, o Irã é a “Stalingrado do século XXI”, o palco onde o mito da invencibilidade do império está sendo definitivamente enterrado.
“Os Estados Unidos são hoje um país desindustrializado, e um país assim não sustenta uma guerra longa. O Irã se preparou para isso com drones e mísseis: eles têm estoque para lutar até as eleições americanas, enquanto o estoque de defesa de Israel e dos EUA está à beira do colapso. O tigre é de papel onde a indústria falha.”
A entrevista de Marco Fernandes ao Soberania em Debate deixa um diagnóstico claro: a guerra contra o Irã é o teste de fogo para a nova ordem mundial. Se o Irã resistir — e os dados mostram que ele possui os meios técnicos e as alianças para tal —, o mundo terá dado um passo irreversível em direção à multipolaridade. Para o Brasil, fica o alerta de que a soberania não se sustenta apenas com diplomacia tímida, mas com autonomia industrial, logística independente e uma visão realista de que, no grande tabuleiro de xadrez global, a liberdade das nações depende da sua capacidade de se defender e de produzir sua própria tecnologia.
O programa Soberania em Debate, projeto do movimento SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube todas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil.