Geopolítica e Soberania: O Brasil diante da Nova Ordem Global

Em palestra no SENGE-RJ, o professor José Cobori analisou o declínio da hegemonia estadunidense, o avanço asiático e a urgência da reindustrialização para romper as amarras do rentismo

Para compreender as engrenagens da economia global e os desafios do desenvolvimento nacional, o Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE-RJ), através do projeto SOS Brasil Soberano, promoveu um aprofundado debate sobre geopolítica. Em um mundo em convulsão, com tensões que ameaçam escalar para conflitos globais, o posicionamento estratégico do Brasil torna-se uma questão de sobrevivência.

A transição da atual ordem mundial é marcada pelo declínio da hegemonia estadunidense e pela ascensão de novas potências, reconfigurando as rotas do comércio e do poder. Para dissecar esse cenário complexo, o SENGE-RJ recebeu o professor José Kobori, ex-executivo do mercado financeiro que hoje se dedica a analisar as falhas estruturais do neoliberalismo.

Afastando-se da visão econômica tradicional — a qual ele classifica como um braço do sistema rentista —, Kobori utiliza a história e a economia política para desmascarar os mitos do livre mercado. Sua análise joga luz sobre como as potências centrais utilizam o sistema financeiro internacional para subjugar países em desenvolvimento, travando o crescimento da periferia capitalista.

A tese central da discussão é clara: o Brasil, detentor de riquezas naturais inestimáveis e de um mercado interno gigantesco, encontra-se refém de uma elite econômica subserviente. Para alcançar uma verdadeira soberania, o país precisa romper com os dogmas da austeridade fiscal, enfrentar o rentismo financeiro e retomar, sob a liderança firme do Estado, um projeto de reindustrialização voltado à fronteira tecnológica.

A Ascensão do Capitalismo Financeiro e o Declínio dos Estados Unidos

A atual estrutura global é resultado de ciclos históricos de acumulação de capital. O ciclo americano, que se consolidou após a Segunda Guerra Mundial e viveu sua era de ouro impulsionado pela reconstrução global, dá sinais irreversíveis de exaustão. Segundo Kobori, os Estados Unidos estão em declínio evidente e, por isso, dobram a aposta em provocações militares para tentar reafirmar sua hegemonia à força.

Esse processo de declínio está intrinsecamente ligado à financeirização da economia, que ganhou força com a revolução neoliberal. Em vez de investir na produção industrial, o capital privado ocidental passou a buscar retornos rápidos por meio da especulação, sufocando o setor produtivo. “É a lógica das finanças explorando a economia real, é a acumulação de capital explorando quem produz, inclusive as empresas”, afirma o professor.

Ao priorizar o mercado financeiro e terceirizar sua produção, os Estados Unidos sofreram uma grave desindustrialização. Hoje, a outrora maior potência fabril do mundo enfrenta dificuldades até mesmo para sustentar longos esforços militares, dependendo criticamente de cadeias de suprimentos estrangeiras, como as terras raras processadas quase exclusivamente pela China para a fabricação de mísseis.

Enquanto isso, a lógica financeira continua a exigir lucros imediatos a qualquer custo. Esse modelo gera uma contradição estrutural inescapável: para maximizar retornos, esmaga-se a renda da classe trabalhadora, destruindo a própria base de consumo necessária para que o sistema capitalista realize suas vendas e continue girando.

O Exemplo Chinês e o Papel do Estado no Desenvolvimento

Em nítido contraste com o enfraquecimento industrial do Ocidente, a rápida ascensão das potências asiáticas expõe o fracasso absoluto dos dogmas neoliberais. Países como China e Coreia do Sul atingiram o topo tecnológico global justamente porque se recusaram a seguir a cartilha do Consenso de Washington, que prega privatizações, austeridade fiscal e livre fluxo de capitais.

Kobori é categórico ao derrubar o mito de que a iniciativa privada é a única força motriz da inovação tecnológica. Ele lembra que os maiores avanços modernos nasceram de pesados investimentos governamentais a fundo perdido. “Quem inventou o Touch Screen foi o complexo militar americano. Sem as tecnologias que o Estado americano criou, nem existiria o celular como a gente conhece ele hoje”, aponta.

O grande segredo da expansão e blindagem econômica da China é o controle estatal absoluto sobre as finanças. Lá, quase todo o sistema bancário é público e tem uma missão muito clara: financiar a infraestrutura e a produção, cobrando taxas de juros baixas. “O sistema financeiro serve para fomentar e financiar o sistema produtivo. Ele não serve para explorar”, destaca o especialista.

Além de fornecer crédito barato, o Estado chinês subsidia fortemente o chamado macro setor improdutivo — saúde, educação, transporte e logística de infraestrutura. Ao prover esses serviços essenciais, o governo reduz drasticamente os custos operacionais das empresas locais, permitindo que elas invistam pesadamente em pesquisa e se tornem máquinas de inovação altamente competitivas no mercado global.

A Submissão Brasileira e o Custo do Consenso de Washington

O Brasil, lamentavelmente, escolheu trilhar o caminho oposto nas últimas décadas. Ao abraçar as amarras do Consenso de Washington, o país desmantelou sua sólida base industrial da década de 1980 e escancarou sua economia para a especulação. Sem controle sobre o fluxo de capitais e operando sob um câmbio flutuante, a economia nacional tornou-se permanentemente vulnerável às pressões externas.

Essa submissão contínua é sustentada por uma elite econômica interna que sofre de um profundo complexo de vira-lata. Kobori argumenta que essa classe prefere atuar como uma mera sócia menor do capitalismo central, lucrando com o extrativismo, em vez de assumir os riscos de construir uma nação forte e desenvolvida que beneficie toda a sociedade brasileira.

A defesa intransigente do agronegócio como motor exclusivo da economia é vista pelo professor como uma armadilha estratégica. Embora garanta a segurança alimentar, a dependência da exportação de commodities condena o Brasil a ser um mero tomador de preços globais. “O nosso agronegócio, quanto mais rico ele for, mais atrasado a gente vai ser como país”, alerta Kobori, lembrando que esse setor só possui força mundial graças aos investimentos históricos do próprio Estado, por meio da Embrapa.

A tragédia do subdesenvolvimento é aprofundada por uma política monetária que enriquece os bancos e drena os cofres públicos. Com taxas de juros altíssimas ditadas pelo Banco Central, o país inviabiliza investimentos reais e desvia bilhões de reais da União para pagar rentistas, criando um ciclo vicioso onde o Estado é proibido de investir no futuro de seu próprio povo.

O Caminho da Soberania e a Necessidade de Reindustrialização

Para romper as correntes da dependência e alcançar a soberania plena, o Brasil precisa resgatar sua capacidade de planejamento estatal de longo prazo. Apoiando-se no pensamento de Celso Furtado, o debate deixa evidente que o verdadeiro desenvolvimento nacional só ocorrerá quando deixarmos a periferia capitalista e passarmos a ditar os preços no mercado internacional com produtos de alto valor agregado.

A solução indispensável para esse salto é a reindustrialização pesada, mirando sempre a fronteira tecnológica. Para isso, o Estado deve perder o medo de exercer seu poder de emissão e de gasto, entendendo a contabilidade nacional de forma estratégica. “O gasto de um é renda do outro. O gasto do governo é a renda da iniciativa privada. O gasto do governo é a renda do trabalhador”, explica o professor, desmistificando o terrorismo fiscal.

Do ponto de vista geopolítico, o Brasil tem escala territorial e econômica suficiente para impor suas próprias regras ao capital estrangeiro. Com as maiores reservas mundiais de água doce, terras cultiváveis, energia e minerais estratégicos como as terras raras, o governo tem o dever de exigir transferência de tecnologia e processamento local em qualquer negociação com multinacionais.

Por fim, a transição para um Brasil desenvolvido não é uma questão puramente técnica, mas uma árdua batalha política. Exige enfrentar o mercado financeiro, reformar um sistema representativo desconectado do povo e estabelecer um plano centenário. Como sintetiza Kobori: “O Brasil tem tudo. Basta uma estratégia, basta uma decisão política que aponte por onde a gente tem que caminhar.”

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