O fascismo não se combate apenas com discurso. Ele se combate com empregos, com mobilidade social, com um país que tenha futuro para oferecer ao seu povo. Essa é a tese central de Elias Jabbour, geógrafo, economista, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pré-candidato a deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil. Para ele, a esquerda brasileira cometeu um erro estratégico ao abandonar as chamadas “pautas de totalidade” — o projeto nacional, a reindustrialização, a soberania — em nome de pautas de particularidade. E o preço dessa escolha, avalia, pode ser a própria irrelevância política no médio prazo.
A entrevista ao programa Soberania em Debate, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro, percorre um arco que vai da revolução chinesa de 1949 até as eleições brasileiras de outubro. No centro do argumento está uma pergunta que Jabbour considera urgente: o que o Brasil pode aprender com a China? Não como utopia distante, mas como exemplo concreto de que é possível construir soberania tecnológica, eliminar a pobreza extrema e colocar o planejamento estatal a serviço do povo, desde que exista vontade política, consenso popular e um bloco histórico capaz de sustentar esse projeto ao longo do tempo.
A comparação é ambiciosa, mas Jabbour a faz com precisão. A China tirou 800 milhões de pessoas da linha da pobreza. Construiu 50 mil quilômetros de trens de alta velocidade. Passou de 4 para 44 cidades com metrô em menos de duas décadas. São conquistas que, segundo ele, o capitalismo simplesmente não entrega, e que só foram possíveis graças a uma base material pública, a um sistema financeiro orientado ao longo prazo e a um poder político de novo tipo. “Não haveria essa China sem socialismo”, afirma. “A China que a Globo mostra no Fantástico não existiria sem o poder político do Partido Comunista.”
O Brasil, ao contrário, chegou ao século XXI com uma taxa de investimento de 16,8% do PIB — “semelhante à de países em guerra”, segundo o professor — , com um Banco Central independente que mantém os juros nas alturas, com uma reforma trabalhista que precarizou o mercado e com o conceito de empresa nacional abolido por Fernando Henrique Cardoso nos anos 1990. Sair desse labirinto, conclui Jabbour, exige mais do que denúncia: exige programa, debate qualificado e uma esquerda disposta a travar a batalha das ideias no terreno da economia política.
A revolução que o capitalismo não fez
Para entender a China de hoje, Jabbour insiste que é preciso começar pelo que o capitalismo não foi capaz de entregar. A entrada do capitalismo no país, a partir das guerras do Ópio no século XIX, não produziu o mesmo resultado que a unificação alemã de 1871 ou a Revolução Meiji japonesa. “A burguesia chinesa, tendo à sua frente Chiang Kai-shek, foi incapaz de levar modernização para a China”, afirma. Foi o Partido Comunista, fundado em 1921 e vitorioso na revolução de 1949, que assumiu a tarefa histórica de desenvolver o país.
E o ponto de partida, destaca o professor, não foram as reformas de Deng Xiaoping em 1978, frequentemente citadas como o marco do desenvolvimento chinês. “As reformas de 78 foram fundamentais, mas o marco zero é a revolução de 1949. Foi ela que garantiu a independência nacional para que a China pudesse construir seus esquemas de desenvolvimento a partir de escolhas geopolíticas próprias.” Sem esse momento fundante, as reformas posteriores não teriam o chão institucional necessário para prosperar.
O que o Partido Comunista construiu entre 1921 e 1949, que Jabbour considera a lição mais profunda para o Brasil, foi uma maioria política capaz de pensar uma revolução de caráter nacional e popular. “Eles conseguiram hegemonizar amplos setores da sociedade chinesa e formar um consenso em torno de um projeto gigantesco de desenvolvimento.” É exatamente essa capacidade de construir consenso de longo prazo que o professor vê ausente na política brasileira contemporânea: “Hoje temos uma sociedade fraturada em 15 mil camadas, causas e linguagens políticas, um rebaixamento muito grande da estratégia em torno de questões altamente imediatistas.”
A estrutura material que sustenta o desenvolvimento chinês é, para Jabbour, inequivocamente socialista, e ele rebate com firmeza quem a classifica como capitalismo. São 96 grandes conglomerados empresariais estatais, o equivalente a “96 Petrobras situadas nos pontos estratégicos da economia”, e 144 bancos orientados ao longo prazo. A finança e a produção são públicas. As decisões de investimento nas empresas privadas com mais de 500 funcionários cabem ao Partido Comunista. “Tratar aquilo como capitalismo é uma preguiça intelectual gigantesca. A China é uma forma histórica específica e própria. É a realidade que tem que nos entregar os conceitos para compreendê-la, não o contrário”, defende.
O resultado dessa arquitetura é um país que Jabbour descreve como “uma máquina de previsão”: ao usar massivamente tecnologias como inteligência artificial, big data e 5G para planejar, a China consegue identificar antecipadamente os nós do desenvolvimento econômico e construir inovações institucionais e tecnológicas para desatá-los. “O socialismo chinês se materializa enquanto transformação da razão em instrumento de governo”, define. E essa razão tem uma tarefa declarada: tornar o desemprego estrutural algo restrito ao capitalismo, não ao socialismo.
Marcos institucionais que travam o Brasil
Olhando para o Brasil, Jabbour faz um diagnóstico severo dos últimos anos. O golpe de 2016, para ele, representou “um retrocesso de 40, 50, 60 anos do país”, não apenas pelos danos imediatos, mas pelas amarras institucionais que foram instaladas e que até hoje comprometem qualquer projeto de desenvolvimento. O teto de gastos, transformado em arcabouço fiscal no governo Lula; a meta de inflação reduzida para 3% logo no início do terceiro mandato; a independência do Banco Central; a reforma trabalhista. Cada um desses marcos, segundo o professor, opera como um dispositivo que criminaliza o investimento público e condena o país à estagnação.
O número é revelador: “A taxa de investimento em relação ao PIB do Brasil no ano passado foi de 16,8%. É uma taxa semelhante à de países em guerra.” Para um país de 220 milhões de habitantes que precisa urgentemente reindustrializar, essa cifra representa a dimensão do bloqueio. “Um país proibido constitucionalmente de gastar é um país condenado a ter 70% da sua população na fome, na miséria ou na precarização.”
Duas propostas concretas emergem da pré-candidatura de Jabbour. A primeira é a retomada da diferenciação constitucional entre capital nacional e capital estrangeiro, abolida por Fernando Henrique Cardoso em 1995. “Qualquer país que se desenvolveu fez essa diferenciação. Isso é básico.” A extinção dessa distinção, argumenta, foi um dos vetores da desindustrialização acelerada dos anos seguintes. A segunda proposta é uma reforma institucional no Banco Central que amplie a temporalidade da meta de inflação de um para três anos e eleve o centro da meta de 3% para 6%. “Isso cria condições para que o Brasil reduza sua taxa de juros de forma expressiva.”
Por trás dessas propostas está uma visão mais ampla: a de que a microeconomia precisa estar submetida à macroeconomia. O professor usa a formulação para descrever o que acontece na China, onde nem toda decisão boa para o empresário é boa para a sociedade, e onde o estado existe para fazer essa mediação. “Se a esquerda não estiver preparada para esse nível de debate, vamos perder completamente o bonde da história”, alerta Jabbour, com o que descreve como convicção e emoção.
Terras raras, multipolaridade e o lugar do Brasil no mundo
O debate sobre as terras raras brasileiras pautou parte do debate no programa com forte carga política. Jabbour rejeita tanto a narrativa de que Lula foi “entregar” os minerais estratégicos aos Estados Unidos quanto o que chama de “esquerdismo infantil”: a crítica fácil, de longe, sem propor mediações. “Eu vivo no mundo real. O Trump é o chefe de Estado da principal potência econômica e militar do mundo. Lula tem que ir lá, e foi nos nossos termos.”
Mas há uma crítica concreta ao projeto de lei em tramitação: a ausência de uma estatal para gerir os recursos. “Qualquer país do mundo faz isso quando descobre esse tipo de coisa. Tem estatal para gerir. O Brasil tem que ter a sua TerraBras. O Trump acabou de fazer isso, inclusive. Criou uma empresa pública para tratar dessa questão.” A falta dessa previsão no projeto é, para Jabbour, o ponto fraco central. Não impede avanços, mas deixa a exploração vulnerável a interesses privados e estrangeiros.
O professor também rejeita a visão romântica sobre as terras raras e sobre a posição do Brasil diante dos Estados Unidos. Usando a analogia do Tratado de Brest-Litovski (quando a Rússia revolucionária cedeu território à Alemanha para garantir a paz) , ele argumenta que os governos progressistas da América Latina precisarão encontrar seus próprios termos de acordo com Washington, sem ilusões, mas sem capitulação. “O Lula fez uma belíssima visita. Foi um golaço político.”
No horizonte mais amplo, a questão da multipolaridade é tratada com objetividade e um ponto de virada recente: a derrota militar dos Estados Unidos no Irã, com a destruição de suas bases na região e a saída do Irã de pé do conflito. “Ali é um ponto de virada para a consolidação da multipolaridade”, afirma. China, Rússia, Índia, Irã, África do Sul e Brasil são os nomes que o professor menciona como potenciais protagonistas desse reordenamento global.
O papel do Brasil nesse mundo, porém, depende de uma condição que ainda não está dada. “Se o Brasil não se reindustrializar, se não virar uma potência industrial, se não reconstruir seu complexo industrial de defesa, seu complexo industrial da saúde, se não reconstruir a Petrobras, se não pensar na industrialização da nossa biodiversidade, o papel do Brasil na multipolaridade vai ser o de um grande país provedor de alimento para o mundo, um celeiro, mas sem grande poder de decisão.” A conclusão é direta: “Se quisermos ter papel no mundo daqui para frente, temos que pensar em como construímos uma gigantesca base material que nos coloque em condições de ter voz no futuro.”
O programa Soberania em Debate, projeto do movimento SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube todas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil.