Como os EUA fabricam o cenário para uma intervenção em Cuba

Enquanto Cuba atravessa um tsunami de apagões, escassez de combustível e uma das crises econômicas mais duras das últimas décadas, Washington intensifica as acusações sobre a Ilha

Houve tempos em que os impérios desembarcavam em países como Cuba com uniformes impecáveis, bandeiras desfraldadas e colunas de tanques avançando pelas avenidas das capitais dos territórios derrotados.

As invasões eram espetáculos brutais e visíveis. O ocupante não se escondia. Chegava dizendo que vinha conquistar. No Vietnã, no Iraque, no Panamá ou na República Dominicana, o mundo via cair bombas antes de ouvir discursos sobre democracia.

Mas o poder aprende. E, quando descobre que certos métodos geram rejeição internacional excessiva, mortos demais televisionados e custos políticos elevados, muda de pele sem jamais abandonar seus objetivos.

É precisamente isso que ocorre hoje com os Estados Unidos sob a nova etapa política liderada por Donald Trump. A estratégia de dominação já não se apresenta necessariamente como invasão militar aberta. Agora surge envolta em discursos sobre “segurança hemisférica”, “crise humanitária”, “estabilidade regional”, “terrorismo”, “espionagem estrangeira”, “narcotráfico” ou “proteção democrática”.

As guerras modernas começam muito antes de os soldados aparecerem. Começam nos mercados financeiros, nas sanções econômicas, nas campanhas midiáticas, nos algoritmos das redes sociais e na construção psicológica de um inimigo que primeiro é isolado, depois asfixiado e finalmente apresentado ao mundo como um problema que “requer intervenção”.

Tentam transformar Cuba em um dos exemplos mais visíveis dessa transformação histórica. O que Washington busca fazer contra a ilha já não se parece exatamente com o ocorrido na Baía dos Porcos. Tampouco necessita repetir necessariamente uma ocupação clássica como a do Iraque.

O novo modelo é muito mais sofisticado e, precisamente por isso, mais perigoso. Consiste em destruir lentamente as condições materiais de vida de um país até provocar esgotamento social, desespero econômico e fratura política interna. Quando a deterioração alcança determinado nível, então surge o discurso salvador: a necessidade de “resgatar” o país da crise que eles próprios ajudaram previamente a fabricar.

Dos golpes militares à guerra híbrida

Durante grande parte do século 20, Washington utilizou golpes militares tradicionais para controlar a América Latina. Chile em 1973, Brasil em 1964, Argentina em 1976 ou Guatemala em 1954 foram exemplos brutais desse modelo. O procedimento era relativamente simples: financiar setores militares locais, destruir governos incômodos e impor regimes subordinados aos interesses estadunidenses. Mas o fim da Guerra Fria modificou profundamente as formas de intervenção.

As novas formas de dominação começaram a misturar-se com mecanismos econômicos, financeiros e tecnológicos muito mais complexos. A guerra deixou de limitar-se aos quartéis. Agora pode desenvolver-se simultaneamente em bancos, plataformas digitais, organismos internacionais e meios de comunicação. A pressão econômica transforma-se em arma política. O bloqueio financeiro converte-se em instrumento de desgaste social. A escassez deixa de ser apenas uma consequência econômica para tornar-se um método de pressão psicológica coletiva.

Nesse novo cenário, o imperialismo contemporâneo já não necessita sempre ocupar diretamente um país para controlá-lo. Muitas vezes basta destruir sua estabilidade interna, fragmentar sua coesão social e condicionar completamente suas decisões econômicas. O verdadeiro objetivo já não é unicamente conquistar territórios, mas submeter sociedades inteiras por meio da dependência estrutural.

A grande novidade dessa estratégia é que, muitas vezes, as vítimas terminam aparecendo diante do mundo como responsáveis exclusivas pela própria destruição. Primeiro impõe-se o bloqueio; depois denuncia-se a pobreza provocada por esse mesmo bloqueio. Em seguida, asfixia-se a economia e utiliza-se a deterioração resultante como prova do suposto “fracasso” do sistema político atacado.

Cuba como objetivo histórico

Para Washington, Cuba nunca foi uma simples ilha caribenha. Seu problema fundamental é político e simbólico. Desde 1959, a existência de um país que escapou da órbita estadunidense a apenas 150 quilômetros da Flórida constitui uma anomalia estratégica intolerável para setores centrais do poder dos EUA.

Por isso, o bloqueio econômico contra Cuba não pode ser entendido apenas como uma sanção comercial. Trata-se de um mecanismo histórico de desgaste permanente. O objetivo nunca foi somente enfraquecer o governo cubano, mas gerar dificuldades materiais suficientes para provocar desespero social interno.

A lógica aparece claramente formulada há décadas: criar carências, deteriorar as condições de vida e provocar descontentamento popular. O novo é que agora essa estratégia combina-se com operações midiáticas globais muito mais sofisticadas e com uma utilização intensiva do discurso humanitário.

A pressão atual sobre Cuba não ocorre de maneira isolada. Faz parte de uma reorganização mais ampla do poder mundial em um momento de crise global do capitalismo e crescente disputa geopolítica internacional.

A asfixia econômica como arma de guerra

A situação energética cubana oferece uma imagem extremamente clara dessa nova modalidade de agressão. O próprio ministro de Energia de Cuba, Vicente de la O Levy reconheceu recentemente que o país enfrenta uma escassez crítica de combustível e ausência quase total de reservas de diesel.

Lida superficialmente, essa notícia poderia parecer apenas um problema econômico interno. Mas o contexto internacional revela algo muito mais profundo. Cuba enfrenta enormes dificuldades para acessar mercados financeiros, adquirir combustível, realizar pagamentos internacionais ou receber investimentos devido ao bloqueio e às sanções estadunidenses. O resultado é um estrangulamento progressivo da vida cotidiana.

Os apagões, a escassez de transporte e as dificuldades produtivas geram algo mais poderoso do que um simples problema econômico: produzem esgotamento psicológico coletivo. A guerra híbrida moderna necessita precisamente disso. Não busca apenas destruir infraestruturas. Busca corroer lentamente a capacidade de resistência social.

Aqui aparece um dos elementos mais perversos do novo modelo imperial. As sanções econômicas funcionam como uma forma de guerra silenciosa. Não produzem imagens espetaculares como as bombas, mas deterioram hospitais, transportes, alimentos e serviços essenciais. São formas lentas de demolição social.

Enquanto isso, os grandes meios de comunicação internacionais apresentam o resultado final como prova do “fracasso interno” cubano, ocultando deliberadamente o peso do bloqueio econômico. A operação é dupla: primeiro cria-se o dano; depois utiliza-se o dano como argumento político.

A fabricação do inimigo e o pretexto

Toda intervenção necessita de legitimidade. Nenhuma potência pode apresentar-se hoje ao mundo dizendo simplesmente que deseja controlar outro país por razões geopolíticas ou econômicas. Precisa construir previamente uma narrativa moral.

Por isso, torna-se tão importante observar as recentes acusações estadunidenses sobre supostas atividades de espionagem estrangeira em Cuba. Washington começou a apresentar a ilha como possível plataforma de operações de inteligência vinculadas à China e a outros adversários estratégicos.

A operação narrativa é evidente. Cuba deixa de aparecer unicamente como um problema regional e passa a integrar a grande confrontação global entre Estados Unidos e China. De repente, a ilha pode ser apresentada como ameaça à segurança nacional estadunidense.

Algo parecido ocorreu com as recentes acusações sobre possíveis drones cubanos vinculados à Rússia e ao Irã. Segundo denunciou o próprio chanceler cubano, Washington estaria utilizando um suposto “incidente fabricado” para criar um pretexto político que permita justificar futuras ações agressivas.

A história das intervenções estadunidenses está repleta de operações semelhantes. O Golfo de Tonquim, no Vietnã, as armas de destruição em massa no Iraque ou as campanhas sobre supostas ameaças humanitárias na Líbia mostram um padrão repetido: primeiro constrói-se midiaticamente o perigo; depois apresenta-se a intervenção como resposta necessária.

A verdadeira mudança histórica consiste em que as novas guerras já não começam necessariamente com desembarques militares. Começam com narrativas cuidadosamente construídas.

Quando as guerras se disfarçam de ajuda

O grande triunfo ideológico do imperialismo contemporâneo consiste em apresentar-se, muitas vezes, como defensor dos direitos humanos enquanto contribui ativamente para a deterioração social que depois denuncia. Primeiro surge a asfixia econômica. Depois chegam as campanhas internacionais sobre crise humanitária. Finalmente, aparece a ideia de intervenção como suposto ato de salvação.

Assim tem funcionado em numerosos conflitos recentes. A linguagem muda, mas a lógica permanece. Já não se fala necessariamente em conquista. Agora fala-se em estabilidade, proteção, democracia ou assistência internacional. Mas, por trás desses discursos, continua operando o mesmo objetivo histórico: garantir controle geopolítico, subordinação econômica e hegemonia internacional.

A diferença é que o novo imperialismo aprendeu a intervir sem parecer invasor. Aprendeu a destruir países lentamente enquanto afirma estar tentando ajudá-los. E precisamente por isso o caso cubano merece ser observado com tanta atenção. Porque, na ilha, não apenas se desenvolve um conflito político regional. Ali pode ser vista, quase em plena luz do dia, a arquitetura das novas formas de ocupação do século 21.

Fonte: Diálogos do Sul/Opera Mundi | Texto: Cándido Gálvez/Canárias Semanal

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